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Otto
von Bismarck (1815-1898) dizia que "as pessoas nunca mentem tanto quanto
depois de uma caçada, durante uma guerra e antes de uma eleição".
Bismarck entendia bem de guerra, caça, eleição e
mentira. Primeiro chanceler do império alemão, patrono do
sufrágio universal em seu país, foi idealizador do primeiro
sistema de previdência social do mundo e um magistral manipulador
de vaidades. Exageros, citações tiradas do contexto, omissões,
montagens maliciosas de imagens do adversário, mentiras, falsificações
e fraudes fazem parte do espetáculo eleitoral desde que as sociedades
decidiram por essa forma de escolha dos governantes. O psicólogo
americano Gerald Jellison, da Universidade do Sul da Califórnia,
calcula que, no decorrer de um dia normal qualquer (fora de períodos
eleitorais), uma pessoa escuta, vê ou lê duas centenas de
mentiras uma inverdade a cada cinco minutos. A maioria delas são
inofensivas mentiras sociais que ajudam a harmonizar as relações
interpessoais no cotidiano. "Seu corte de cabelo ficou ótimo" ou
"o trânsito estava um caos, por isso
me atrasei" constituem exemplos clássicos. Só uma pequena
porcentagem é de mentiras que machucam ou ocasionam prejuízo
material ou moral aos outros. Em tempos eleitorais, a taxa de mentira
se multiplica geometricamente (veja
reportagem seguinte). Mas também na vida pública
existe uma gradação do potencial destrutivo das mentiras.
Elas podem variar de uma omissão necessária e justificável
até uma fraude com o efeito de enriquecer pessoas e grupos.
Ana Araujo
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AFP
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Jader
Barbalho, então presidente do Senado, mentiu aos colegas
senadores em 2001 sobre
seu envolvimento em desfalques no Banpará, o que lhe custou
o mandato
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A
primeira-ministra Margaret Thatcher mentiu ao negar ter dado a ordem
de afundamento do navio argentino em que 400 marinheiros morreram
durante a Guerra das Malvinas, em 1982 |
"Um
político de sucesso, com muitos anos de carreira, foi obrigado
a aprender a mentir de um modo tão profissional diante das câmeras
que a imensa maioria das pessoas e mesmo os profissionais do comportamento
humano não são capazes de detectar seus deslizes", disse
a VEJA Paul Ekman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia,
considerado o maior especialista mundial em detecção de
mentira, campo a que se dedica há trinta anos (leia
a íntegra da entrevista). Políticos se equiparam
aos atores na capacidade de fingir. Ambos o fazem por necessidade profissional.
Profissionais treinados são capazes de perceber em mais de 70%
dos casos, em grupos controlados de estudo, se uma pessoa comum está
mentindo. "Quando fazemos o mesmo estudo tendo como voluntários
políticos e atores, a taxa de acerto cai para menos de 10%", relata
o professor Ekman. No caso de atores e poetas, quanto mais completamente
eles mentem, melhor fica o espetáculo para o distinto público.
No caso dos políticos é outra história e não
obrigatoriamente ruim para sua biografia. No mundo político, a
mentira requer uma análise mais complexa. Para começo de
conversa, a mentira política nasceu como irmã gêmea
da democracia na Grécia antiga. "Em outras situações,
a mentira diminui e macula a alma. Mas ela é permitida quando é
proferida no interesse do Estado", escreveu o filósofo grego Platão,
que viveu no século IV a.C., o dos grandes dramaturgos, poetas
e políticos que lançaram as bases da civilização
ocidental.
Desnecessário
dizer que todas as grandes mentiras da história humana, engendradas
por governantes, políticos, religiosos, líderes revolucionários
e manipuladores de todos os matizes, foram colocadas em circulação
em nome do interesse do Estado, do bem comum ou da liberação
dos oprimidos. Mentiras oficiais são protegidas por leis de sigilo
que as mantêm longe do público em alguns casos, como nos
Estados Unidos, por até 25 anos. Uma falsidade recentemente revelada
pelos arquivos presidenciais americanos foi a decisão do governo
dos Estados Unidos, nos anos 60, de aprofundar cada vez mais o envolvimento
militar no Vietnã, mesmo sabendo que a guerra não poderia
ser vencida. Naquele tempo e nos trinta anos seguintes, sustentou-se a
mentira oficial de que os relatórios diziam que o inimigo comunista
estava prestes a ser esmagado. Os americanos esconderam da opinião
pública seu grau de participação nos golpes que,
no auge da Guerra Fria, derrubaram governos legitimamente eleitos no Chile
e na República Dominicana. O governo dos Estados Unidos mentiu
sobre o fato de que, para efeito de pesquisa, expôs soldados à
radiação nuclear e deixou negros infectados com a sífilis
desenvolver a doença sem tratamento para saber com exatidão
como a bactéria destrói o corpo humano. São mentiras
usadas para esconder ações bárbaras. Todo país
tem mentiras oficiais enterradas em seu passado. Felizmente, nas nações
democráticas elas costumam vir à tona. Muitas vezes é
tarde demais para que suas vítimas possam ser compensadas, mas
a tempo de evitar que se repitam. Muitas das mentiras oficiais realmente
servem ao bem comum, e a sociedade espera que elas sejam ditas. "Um general
tem o dever de mentir sobre o local do ataque que planeja, e todo mundo
espera que o presidente do Banco Central não diga a verdade se
alguém lhe perguntar se a taxa de juros vai ser fixada em x ou
y", afirma Ekman. "Como regra geral, a mentira dita pelos políticos
esconde-se sob a justificativa do bem comum quando interessa mais à
sobrevivência dele e de seu grupo."
Antes de atirar a primeira pedra, aconselham estudiosos da mentira, é
bom lembrar que todo mundo mente. A civilização foi construída
sobre uma sólida base de mentiras, falsidades e conceitos abstratos
aceitos como verdadeiros sem que se tenha deles a mais pálida constatação
de veracidade. Não foram apenas as grandes religiões que
se espalharam pelo mundo tendo como impulso primordial a fé e,
para ilustrá-la aos novos convertidos, uma galeria de fatos altamente
improváveis e certamente não comprovados, como homens que
voam, mártires que vencem sozinhos Exércitos inteiros e
guerreiros valorosos recompensados no céu com virgens, manjares
e néctares. "A mentira esteve a ponto de destruir a humanidade
em diversas ocasiões, mas pode-se dizer que foi ela que nos trouxe
até aqui", diz o biólogo Alan Grafen, estudioso do comportamento
humano. Grafen concentrou seus estudos no papel da mentira na evolução
humana. Ele concluiu que a mentira social é sintoma de equilíbrio
numa sociedade avançada. Quanto mais interdependente o convívio
entre os pares, maior a necessidade da mentira. "Chamemos de alta diplomacia,
mas no Vaticano e na Organização das Nações
Unidas, por exemplo, a mentira é o amálgama que ajuda essas
instituições a não se espatifar nas crises", declara
Grafen.
Tasso Marcelo/AE
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Moreira Mariz
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O
treinador de futebol Wanderley Luxemburgo confrontado em 2000 com
documentos provando que ele fraudou a Receita e recebeu em suas
contas dinheiro de origem obscura
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João
Alves de Almeida, um dos deputados cassados conhecidos como os "Anões
do Orçamento", em 1993, explicando seu patrimônio milionário |
O
biólogo faz uma observação cuja confirmação
pode ser obtida no dia-a-dia dos casamentos, do mercado e da política.
"Para que cumpra seu papel apaziguador e conciliatório, a mentira
exige que a honestidade prevaleça como a característica
mais valorizada pelo grupo social", diz Grafen. Ou seja, a mentira para
ser socialmente útil precisa ter "pernas curtas e nariz longo",
como dizia Gepeto, o pai do Pinóquio, na história infantil
criada pelo italiano Carlo Collodi no século XIX. A falsidade deve
ser tolerada apenas como contraponto da verdade, sugere o biólogo.
Da mesma forma que a virtude só pode ser devidamente exaltada quando
se sabe da existência e das tentações do pecado. É
verdade. Como se identificariam os santos se ninguém na humanidade
pecasse? "Quando passa de certos limites, portanto, a mentira tem de ser
punida. Se ela começa a se tornar dominante, a sociedade, sem se
dar conta, caminha para a extinção", observa Grafen. E quais
seriam esses limites? Os estudiosos se calam sobre isso, mas a pista pode
ser encontrada no bom senso. As mentiras aceitáveis se distinguem
das inaceitáveis da mesma forma como o erotismo se diferencia da
pornografia. É aceitável esconder de um velho tio uma doença
terminal. Quase todos os pedagogos dizem que os pais devem mentir aos
filhos pequenos quando eles querem saber precocemente sobre sexo. Maridos
mentem para as mulheres e elas para eles sobre suas fantasias românticas
com outros parceiros. "No fundo existe uma resposta mais cínica
para a pergunta sobre qual mentira é inofensiva: aceitável
é a mentira que nunca é descoberta", afirma o psicólogo
Jellison. "O lado bom da história é que cedo ou tarde toda
grande mentira de um relacionamento interpessoal é descoberta.
Em geral, porque o mentiroso se entrega."
Depois de três décadas de estudo sobre como detectar a mentira,
o professor Ekman desenvolveu um método de apontar mentirosos que
foi adotado pelo FBI, a polícia federal americana, e por inúmeros
departamentos estaduais de polícia dos Estados Unidos. Quando se
trata de um mentiroso envolvido em crime, o método do FBI tem tido
uma taxa razoável de sucesso, em torno de 70%. Mas talvez a conclusão
mais interessante desse tipo de abordagem seja a que envolve a mentira
no cotidiano. "Tenho prazer em dizer que depois de tantos anos de estudo
minha maior descoberta foi que nós, seres humanos, não somos
mentirosos perfeitos. Entretanto, ao contrário do que imaginava
Sigmund Freud, detectar sem erros a mentira é uma tarefa muito
complexa e talvez inútil", observa Ekman. "Mentir com imperfeição
é fundamental para nossa existência em sociedade." Estudiosos
do comportamento animal concluíram que os bichos também
mentem, fingem e disfarçam emoções. Quanto mais próximos
da linhagem humana, eles se tornam mentirosos mais eficientes. Orangotangos
e gorilas são os símios geneticamente mais aparentados com
o homem. São também os maiores fingidores do reino animal.
A mentira é um dos traços da humanização.
O homem é incapaz de mentir até os 3 meses de idade. Os
primeiros truques para chantagear mamãe e papai afloram depois
dessa idade. "Viver sem mentira seria insuportável", afirma a psicóloga
Mary Ann Mason. "Equivale a casar, trabalhar e conviver, enfim, com pessoas
cujas emoções pararam de amadurecer quando elas tinham 3
meses de idade."
Embora apareça sempre na literatura e nas parábolas morais
como um desvio de caráter, a mentira não foi classificada
como um dos sete pecados capitais pelos codificadores da fé católica.
A gula, a luxúria e a preguiça estão na lista dos
pecados que levam os crentes católicos direto para o inferno. Também
são capitais os pecados da ira, da avareza, da soberba e da inveja.
A mentira, não. Sem a mentira a vida seria um inferno. "Se nunca
pudéssemos mentir, se todos os sorrisos fossem confiáveis
e se todos os olhares fossem facilmente decifráveis, a convivência
humana seria impossível em casa, no trabalho, em sociedade", escreveu
Mary Mason.
O inglês Charles Darwin (1809-1882), pai da teoria da evolução,
foi o primeiro cientista a catalogar as manifestações visíveis
da mentira em diversas sociedades. Suas conclusões foram descritas
no livro A Expressão das Emoções no Homem e nos
Animais, lançado quase vinte anos depois de sua obra fundamental,
A Origem das Espécies. Darwin defendeu a idéia de
que só a espécie humana consegue expressar emoções
através dos músculos da face. Alguns animais, embora tenham
a capacidade de fazer caras e bocas, não o fariam com intuito expressivo,
como os homens. O esgar de um macaco que lembre um sorriso não
significa exatamente que ele esteja feliz. Esse campo de estudo aberto
por Darwin foi aprofundado por Paul Ekman. O psicólogo da Universidade
da Califórnia comparou a maneira como as pessoas expressam emoções
em mais de duas dezenas de países em todos os continentes. Sua
descoberta principal é que as expressões faciais são
universais, mas os gestos, a chamada linguagem corporal, têm diferentes
significados em cada cultura. Com base em seu estudo, diversos psicólogos
desenvolveram métodos de detecção da mentira que
se assentam principalmente no exame das expressões faciais. Em
seu livro Análise do Caráter, Wilhelm Reich, psicanalista
austríaco do início do século passado, já
havia proposto uma nova análise do caráter humano quando
começou a considerar os aspectos não verbais da comunicação
humana. Freud, o mestre com quem Reich rompeu, dizia que "quem vê
cara vê coração". Na época parecia uma afirmação
pouco exata, mas pesquisas sugerem que é mesmo difícil para
as pessoas comuns, sem o treino dos políticos e dos atores, esconder
suas emoções e mentir sem que a falsidade acabe de certa
forma estampada no rosto.
Segundo
os psicólogos, existem nove razões principais para que alguém
minta ou resolva omitir informações. Os políticos,
na avaliação do psicólogo, formam a categoria de
pessoas que têm mais razões para mentir, sair-se com evasivas
ou omitir dados. Numa lista de motivações para mentir (veja
quadro ao lado), os políticos podem ser incluídos em
pelo menos cinco. Eles mentem para "fugir de um castigo", para "obter
uma recompensa que lhes seria negada se dissessem a verdade", "para ser
admirados", "para evitar constrangimentos" e "para manipular". Alguns
exemplos recentes ajudam a ilustrar o primeiro dos motivos para mentir
que tanto tentam os políticos: "obter uma recompensa", no caso
ganhar uma eleição. O chanceler alemão Gerhard Schroeder
acaba de se eleger com uma vantagem ínfima de votos, obtida segundo
seus adversários graças a uma mentira ou, mais exatamente,
a uma inesperada mudança de atitude absolutamente contrária
a suas posições no governo até agora. Schroeder decidiu
dizer aos eleitores que a Alemanha sob seu comando não aceitaria
juntar-se aos Estados Unidos e à Inglaterra numa iminente guerra
contra o Iraque. A Alemanha de Schroeder mandou tropas para o Afeganistão
e para a Bósnia e tem sido uma fiel aliada dos Estados Unidos na
campanha militar antiterrorista. Mas, como as pesquisas indicavam que
os eleitores não aprovavam uma guerra contra Saddam Hussein, o
chanceler mudou rapidamente de lado. Essa atitude não é
exceção entre os políticos. É a regra em qualquer
país. "A democracia é um sistema tão impressionante
que produz resultados positivos, em geral, com o somatório de interesses
mesquinhos", escreveu o francês Alexis de Tocqueville, historiador
e sociólogo do século XIX que se encantou com o sistema
político dos Estados Unidos. Esperemos que o mesmo se aplique ao
Brasil neste momento de tantas incertezas políticas e econômicas.
Com
reportagem de
Tania Menai,
de Nova York, e Roseli Loturco
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