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De Manaus ao Caribe.
De ônibus

Um banho de mar, depois de cinqüenta
horas e 2 250 quilômetros de viagem

Leonardo Coutinho

 
Thomas Gleins
Ilha Margarita: faxina no bangalô, sol, água salgada e, depois, a viagem de volta


André Penner


A menor distância entre Manaus e uma praia da costa brasileira é de 2 300 quilômetros. Não há estrada que permita fazer esse percurso. De barco, são três dias de viagem. É, portanto, muito mais fácil para o morador da capital do Amazonas tomar banho no mar de outro país, mais precisamente no Caribe, na venezuelana Ilha Margarita, 2 250 quilômetros ao norte da cidade. De carro, essa não é uma aventura aconselhável, porque há pouca infra-estrutura e muitos perigos no caminho, para as pessoas e para os veículos. De ônibus, a viagem é um pouco mais segura – e bem pouco confortável, como se pôde constatar ao acompanhar a epopéia de 77 passageiros que três semanas atrás atravessaram selvas e cerrados, em dois coletivos.

A viagem deveria durar 35 horas. Metade dos viajantes nunca havia saído do país e um terço jamais vira o mar. A excursão, organizada por alunos do curso de turismo do Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas, seguiu o percurso de uma linha regular de ônibus que tem partidas diárias de Manaus. A passagem até Puerto La Cruz, no litoral venezuelano, custa 150 reais. Um pacote com transporte aéreo é dez vezes mais caro. Financeiramente, portanto, vale a pena aturar o buzinaço dos motoristas que querem pegar a estrada ainda antes da meia-noite. Pais, namorados e amigos dos viajantes dão um clima emocional à partida. Alguns choram. Outros ajudam a acomodar as bagagens e provisões. Arroz, café, farinha de mandioca, açúcar, macarrão, óleo de soja, biscoitos, chocolate em pó e enlatados. Entram nos porões dos ônibus também embalagens de isopor, com gelo, potes de iogurte e peixes inteiros.

Esse rancho garante um cardápio familiar no exterior, reduz os custos e pode evitar que se passe fome no caminho. Novinhos, os ônibus têm novidades para quem está mais familiarizado com os barcos amazônicos. Possuem ar-condicionado, frigobar, poltronas reclináveis, televisão, som ambiente e banheiro a bordo. Entre os passageiros, há muitos que nunca viajaram por estrada. "Será que enjoa como no barco?", pergunta, apreensiva, a estudante Elisângela Leal Cerquinho, de 26 anos.

Os primeiros 150 quilômetros, de estrada boa, são animadores. A primeira parada é em Presidente Figueiredo. Com mais de duas horas de viagem, muitos nem descem para um café. "Certamente haverá quem desembarque só na Venezuela", prevê o passageiro Wanderley de Freitas. Começam os buracos. Desviando deles, os motoristas raramente passam dos 60 quilômetros por hora. Na parada seguinte, a 500 quilômetros de Manaus, há filas de quinze minutos para uma escovadinha de dentes e mais quinze para usar os banheiros do pequeno restaurante. Opção para o café da manhã: pão com salame.

Para compensar o tempo perdido, decide-se que nas próximas quatro horas de viagem não se pára mais. Nasce um sol amazônico. O ar-condicionado, que tanto frio produziu à noite, já não dá conta do recado. Sem paradas, o uso dos sanitários compromete a qualidade do ar. Ao meio-dia, em Boa Vista, sem banho, os passageiros descobrem que o próximo chuveiro só aparecerá no fim da viagem. Na fronteira, perdem-se duas horas para que todos recebam as carimbadas brasileira e venezuelana no passaporte. O câmbio, para muitos, é tão complicado que eles preferem não trocar dinheiro nem fazer compras.

Seguem-se doze horas de viagem contínua. Os motoristas decidem pular a parada do café da manhã e quase enfrentam um motim. Os banheiros geram discórdia entre os que precisam deles e os que estão sentados perto de suas portas. O chão tem restos de biscoito e de farofa. Em Puerto La Cruz, é preciso embarcar os ônibus no ferryboat. A travessia até a ilha leva cinco horas e gasta-se mais uma para desembarcá-los. O porão, onde estão os coletivos, fica desnivelado com a rampa de saída. O jeito é embarcar vários veículos de volta, para baixar a balsa. Ao completar cinqüenta horas de viagem, a ilha finalmente aparece no horizonte. Nesse tempo, um Boeing 747 pode dar a volta ao mundo, com paradas para reabastecimento.

Agora, é só cair na água – depois da faxina. Vários dos hotéis têm bangalôs cuja limpeza é feita pelos próprios hóspedes. Vassoura, balde e panos de chão estão na sala, à espera dos visitantes. Nos próximos cinco dias, o sol e a água salgada darão mais algumas lições aos caboclos. A viagem de volta, com o corpo ardido e vermelho, será um pouquinho mais difícil.



   
 
   
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