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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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Pelo telefone

Ligação revela que governador
do DF protege os interesses
de grileiros de terras

Policarpo Junior

Há alguns anos, Brasília tem sido a paisagem de um escândalo subterrâneo – a lenta, gradual e segura grilagem das terras urbanas. Nos últimos meses, um grupo de investigadores começou a obter sinais eloqüentes de um sintoma ainda mais nefasto: o de que a máfia da grilagem, que chega à ousadia de ocupar terras na vizinhança do Palácio do Planalto, teria se infiltrado no próprio governo do Distrito Federal. Na semana passada, VEJA obteve gravações de 45 conversas telefônicas, numa escuta autorizada pela Justiça. O conteúdo das conversas, que somam mais de uma hora e meia, é desolador. Mostra que a máfia da grilagem não tem só laços com funcionários do governo de Brasília – mas com o próprio governador Joaquim Roriz. No diálogo mais comprometedor, ouve-se o grileiro-mor de Brasília, Pedro Passos, pedir ajuda a Roriz para que sua área grilada não seja fiscalizada. "Pode ficar tranqüilo que vou administrar para você isso agora", promete o governador.

Na semana passada, mesmo antes de saber do envolvimento do governador com os grileiros, a Ordem dos Advogados do Brasil, a exemplo do que fez no caso do Espírito Santo, pediu ao Ministério da Justiça a criação de uma força-tarefa para investigar a infiltração do crime organizado nas instituições de Brasília. Quem ouve o diálogo entre Joaquim Roriz e Pedro Passos poderia, numa concessão generosa, dizer que o governador estava só querendo livrar-se da pressão incômoda de um suspeito. Ocorre que, recentemente, quando Passos estava foragido da Justiça, que decretara sua prisão por grilagem, o governador deu entrevistas sobre o assunto. Disse que era apenas amigo do foragido pela coincidência de serem ambos sócios de um mesmo clube de criação de cavalos. O telefonema, recente, de 12 de agosto passado, é uma prova cavalar de que a relação dos dois vai além do mundo eqüino. No mesmo diálogo, o grileiro diz ter desembolsado uma propina, na forma de um lote de terra, a um funcionário do primeiro escalão – e o governador nada fala, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

A grilagem em Brasília tornou-se um escândalo público há poucas semanas, em decorrência de um racha na quadrilha. Márcio Passos, irmão de Pedro Passos, revoltado com a fiscalização em seu quintal fundiário, ameaçou denunciar o envolvimento do governo local no crime – e, a título de aperitivo, divulgou um vídeo, no qual se via um secretário de Roriz reclamando do tamanho da propina que recebera para legalizar um condomínio clandestino. O governador, em vez de mandar investigar a denúncia, preferiu atacar a imprensa que noticiara o caso. Agora, com o telefonema, constata-se que Roriz ainda prometeu suspender a fiscalização – num sinal de que temia a ameaça dos irmãos Passos de incriminar seu governo na grilagem. Quando um governador protege o crime, há algo de muito errado no ar – na terra, no caso.

 

"Pode ficar tranqüilo"


Entre 45 telefonemas gravados pela polícia, um deixa evidente que o governador do DF, Joaquim Roriz, protege os interesses fundiários de Pedro Passos, o maior grileiro de terras públicas em Brasília. Na conversa, Passos pede que Roriz suspenda a fiscalização de uma área grilada e revela que o presidente do órgão fiscalizador, Eri Varella, recebeu propina na forma de lotes. Roriz silencia sobre o suborno e promete parar com a fiscalização.

Passos – Isso aí é um vespeiro, é uma bomba atômica. Se não mexer nisso, melhor. Tem vários desembargadores que têm lote lá. O próprio Eri tem. Eri recebeu lote na minha mão, recebeu chácara. Ele tá é mal servido, achando que gente ganhou mais. (...) A única coisa que eu quero é que ele não mexa. Vamos cuidar de outra coisa, vamos cuidar da eleição.

Roriz – Eu vou falar com ele agora.

Passos – Se ele continuar futricando, chega uma hora em que a pessoa perde a cabeça, bate num fiscal lá no mato, vira uma confusão.

Roriz – Pode ficar tranqüilo que eu vou administrar para você isso agora.


 
 
   
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