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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
Diogo Mainardi

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Berlusconi,
um brasileiro

"O primeiro-ministro italiano é o Silvio Santos deles. Só que muito mais rico e
poderoso. Conta com aliados como o
ex-separatista Bossi, uma espécie de Lula
da extrema direita: populista, contraditório,
orgulhoso da própria ignorância"

Quando querem ofender o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, acusam-no de estar transformando a Itália numa republiqueta igual ao Brasil. Tentei traçar um paralelo entre os dois países para ver se a ofensa tem fundamento. Pelo talento histriônico e pela astúcia de camelô, Silvio Berlusconi só poderia ser comparado a Silvio Santos. Vende promessas eleitorais mirabolantes com a mesma desenvoltura com que, na juventude, vendia aspiradores de pó em domicílio. A diferença é que o Silvio deles é muito mais rico e poderoso do que o nosso. É como se Silvio Santos fosse dono, além do SBT, da Globo, Bandeirantes, Record, Editora Abril e Bradesco Seguros. E, um dia, virasse presidente da República. Berlusconi tem mais encrencas na Justiça do que Paulo Maluf ou Jader Barbalho. Para se livrar dessas encrencas, decidiu mudar o Código Penal. Conta com ampla maioria parlamentar, formada por membros de seu partido e fiéis aliados como o ex-fascista Fini e o ex-separatista Bossi, uma espécie de Lula da extrema direita: populista, contraditório, orgulhoso da própria ignorância.

Duas semanas atrás, o cineasta Nanni Moretti reuniu mais de 500.000 pessoas num comício contra Berlusconi. A forma de protesto escolhida pelos manifestantes foi dançar cirandinha, fato devidamente ironizado pelas tropas governistas. Mas há mais gente insatisfeita com Berlusconi. De acordo com um relatório do serviço secreto italiano, a Máfia planeja assassinar dois de seus mais íntimos assessores. A queixa dos mafiosos, sussurrada nos presídios, é de que "ele só pensa nele". Ou seja: depois de obter uma vitória eleitoral histórica nos territórios controlados pela Máfia, o ingrato Berlusconi estaria resolvendo apenas seus próprios problemas judiciários, esquecendo os dos outros. É como se Fernandinho Beira-Mar direcionasse os votos das favelas cariocas para os políticos que lhe parecessem mais atentos às suas necessidades.

A economia italiana está estagnada, o maior sindicato promulgou uma greve geral para outubro e, com uma certa regularidade, aparecem cadáveres de imigrantes clandestinos boiando nas praias do sul do país. Apesar disso tudo, porém, a popularidade de Berlusconi continua surpreendentemente alta. Como disse a miss Itália, Berlusconi agrada porque é mais do que um primeiro-ministro: é o chefe de uma dinastia. A matriarca é sua segunda mulher, ex-atriz de filmes "trash" e chanchadas picantes. É como se, no lugar de Ruth Cardoso, houvesse Aldine Muller. E os filhos de Berlusconi fornecem tanto material para as revistas de fofocas quanto Paulo Henrique Cardoso. Como bom chefe dinástico, Berlusconi sempre ostenta seu poder e dinheiro. Expurgou da TV pública os únicos jornalistas que cismavam em incomodá-lo e hospedou em sua casa de veraneio as filhas do presidente russo Putin. Graças a esse feito, um solerte senador de seu partido candidatou-o ao Nobel da Paz, com o argumento de que ele aproximou a Rússia do Ocidente. A política cinematográfica foi entregue a uma apresentadora de TV equivalente a Luciana Gimenez. E os embaixadores italianos receberam a ordem de promover produtos exportáveis como gravatas e salames, em vez de perder tempo divulgando a obra de Manzoni, o Machado de Assis deles.

Eu sempre digo que o Brasil é o país do futuro. A gente não vai melhorar. São os outros que vão piorar.

 
 
   
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