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Edição 1 771 - 2 de outubro de 2002
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Sérgio Abranches

Bravo Brasil

"Lula e Serra são testemunhos da mobilidade social brasileira. Da fluidez
que permite a ascensão em um ambiente
de desigualdades e preconceitos"



Ilustração Ale Setti


Quando eu voltar a escrever neste espaço, a campanha presidencial já se terá encerrado e o resultado das urnas será conhecido. Teremos um segundo turno, mais provável, ou um presidente eleito. Os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto oferecem um retrato da trajetória da sociedade brasileira, muito mais vencedora e positiva que a maioria das análises sobre nossas perdas e fracassos, que visitam a imagem negativista de todos os que querem negar que tenhamos avançado, sem ter seguido suas idéias.

Lula e Serra são testemunhos da mobilidade social brasileira. Da fluidez social que permite a ascensão em um ambiente de desigualdades e preconceitos. Lula vem de família pobre nordestina. Teve mais chance de estudo que seus irmãos, estudou até a 5ª série – os irmãos não passaram da 3ª –, e o curso do Senai lhe abriu as portas para uma carreira de metalúrgico especializado. A militância sindical e partidária lhe abriu as portas da elite política, como um dos pais fundadores do novo sindicalismo, no ventre da ditadura militar, e do Partido dos Trabalhadores, instrumento da resistência ao governo militar. E lhe permitiu se tornar um constituinte e disputar a Presidência da República quatro vezes, com legitimidade, e desta vez o colocou no limiar do gabinete presidencial. Serra, filho de modestos imigrantes italianos, pai feirante, vendedor de frutas, teve a possibilidade de um diploma na Politécnica expropriada pelo golpe militar. Militante estudantil, marca de uma vocação precoce para a política, conquistara a presidência da UNE. Muito jovem, foi um dos artífices de uma das mais marcantes e bem-sucedidas iniciativas culturais do país, o Centro Popular de Cultura da UNE, berço de muitos talentos de nosso cinema novo e de nossa MPB. Forçado ao exílio no Chile, onde iniciou carreira de economista latino-americano de prestígio, após obter o mestrado em economia, escapou por pouco dos fuzis de Pinochet. Forçado ao exílio novamente, agora do Chile, terminou Ph.D. em economia pela Universidade Cornell, uma das mais exigentes e prestigiosas universidades dos Estados Unidos. Foi secretário de Planejamento do governo de São Paulo, deputado duas vezes, senador, ministro do Planejamento e da Saúde e agora é postulante à Presidência da República.

Uma nação que após anos de ditadura e sofrimento (que alguns que deles foram vítimas parecem dispostos a esquecer, é verdade) reconstrói sua democracia e cria condições para que duas pessoas vindas de baixo possam enfrentar-se politicamente, em plena liberdade, na busca de sua Presidência, não pode ter tido uma trajetória tão medíocre, tão desalentadora para os jovens, tão anti-social. Mobilidade social e política em uma geração – os pais não poderiam tê-la feito –, apesar das barreiras que nos forçam a uma situação indesejável de desigualdades profundas e duráveis. Mas já há caminhos. E se um desses dois conquistar a Presidência – o que é muito provável – certamente saberá ampliar esses caminhos da mobilidade brasileira, sem criar novos preconceitos nem erigir novas barreiras, sociais ou ideológicas. Sem alimentar ódios nem ressentimentos e sem fechar as portas à cooperação de todos os brasileiros capazes, na tarefa dificílima de enfrentar os complicadíssimos desafios de curto prazo, ligados às nossas vulnerabilidades e insuficiências, e de longo prazo, relativos às nossas desigualdades.

Até porque, apesar dos humores mais ácidos de uma disputa tão decisiva, esse confronto se tem feito quase inteiramente no plano político, de forma civilizada, expondo diferenças e divergências, mas preservando o lado pessoal e privado. Confronto político dessa natureza não precisa produzir seqüelas nem criar incompatibilidades insuperáveis.

O espírito democrático, que permite fazer suceder a cooperação à competição, cada uma a seu tempo e em seu lugar, é como uma outra face da fluidez de uma sociedade que sabe renovar suas elites, para não estiolar seu espírito de luta.

Qualquer que seja o vitorioso, o Brasil pode se sentir orgulhoso de sua democracia, que, coisa rara em nossa história, permitirá que um presidente eleito dê posse a outro presidente, igualmente eleito, em disputa limpa e competitiva. Mas deve se orgulhar também de uma ordem social que apesar das imperfeições permite que esse presidente a ser eleito tenha sua biografia iniciada na base, e não no topo da sociedade. E que os jovens mais humildes desta feliz nação olhem para eles e pensem: "Se eles puderam buscar o sonho deles, eu posso sonhar o meu sonho também". Bravo Brasil.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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