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Quem deseja? Fulano.
Fulano de onde?
O que se
esconde detrás da aparente inocência
dos diálogos que se travam ao telefone
Quem deseja? Quem
gostaria? Quem deseja deseja alguma coisa, e quem
gostaria gostaria de alguma coisa, mas a pressa, ou a
preguiça, ou a economia no gasto das palavras, ou a
suposição de que, enunciada a frase pela metade, já se
pode dá-la por entendida, faz com que quem atende ao
telefone pouco esteja se importando em transformar em
intransitivos, como se fossem sólidos como carvalho, e
auto-suficientes como camelo no deserto, esses verbos na
verdade frágeis, carentes do amparo de um complemento,
que são os transitivos. Não se diz mais, hoje:
"Quem deseja falar com ela?", ou: "Quem
gostaria de falar com ele?", mas, simplesmente:
"Quem deseja?", "Quem gostaria?".
Ficam, o gosto e o
desejo, a pairar no ar. Como um desejo, assim sozinho,
sem que se explicite desejo de quê, geralmente se traduz
por desejo sexual, é como se a concupiscência se
insinuasse nas linhas telefônicas. Quem deseja? Fulano.
Não seria de estranhar se Fulano enrubescesse ao
revelar-se o portador do desejo. Ele está se declarando,
naquele momento, possuído de um impulso que
freqüentemente leva à incontinência. Está se
confessando à mercê da conhecida força bruta que
arrasta ao descontrole. A conversa nesse ponto corre o
perigo de ser confundida com aquelas travadas em lugares
de reputação duvidosa, como a Casa Branca. A outra
parte, o objeto do desejo, pode se sentir lisonjeada, mas
também sabe-se como essas coisas são delicadas
ofendida. Nos Estados Unidos, isso que no Brasil
passa por uma inocente troca de informações
preliminares a uma comunicação telefônica arrisca ser
o começo de um aterrador processo por assédio sexual.
Mas isso não é o
principal. Ninguém extrairá desse singelo diálogo as
últimas conseqüências, como se fez aqui. O principal
é o que vem depois, quando quem fez a chamada declina
seu nome, declarando que "quem deseja" é
Fulano de Tal. Então a secretária, ou telefonista, ou
assessor, ou sócio, ou colega ou, se for uma
residência, a mulher (ou marido) da pessoa requisitada
dirá: "Fulano de onde?" Esse é o ponto
crucial, revelador do nosso tempo, que se quer abordar
aqui. "Fulano de onde?" Deus meu, de onde sou
mesmo?, indagará a si próprio o interrogado, se
refletir bem sobre a interrogação. Uma pessoa é de
muitos lugares: de uma rua, uma cidade, um país, um
ponto do universo. "Sou Fulano, do planeta
Terra", pode ser a resposta. Está tecnicamente
correta, mas não é o que se espera. O que se espera é
a revelação da organização a que se pertence. A
companhia, o grupo, a confraria. "Fulano, da empresa
Tal", é a resposta certa. Ou: do sindicato A, do
clube B, da Igreja X, do partido Y. Pronto. Num passe de
mágica, na mente de quem perguntou, Fulano deixa de ser
apenas uma voz e um nome para adquirir concretude. Já se
sabe de onde ele é. Fulano assumiu existência real.
A fatídica
pergunta "De onde?" , na
aparência tão inofensiva, no fundo revoga um avanço da
condição humana que data do Renascimento, ganha
velocidade no Iluminismo e se faz presente no nosso tempo
nas reivindicações de respeito ao cidadão e nas
declarações de direitos individuais inscritas nas
constituições. Revoga o indivíduo. Na Idade Média é
que, para ser alguém, era preciso ser de algum
"onde". Os trabalhadores, para exercer seu
ofício, tinham de pertencer a alguma guilda, ou
corporação a guilda dos pedreiros, a dos
cervejeiros, a dos pintores. Se houvesse telefone naquele
tempo, e se do outro lado da linha estivesse Giotto, o
grande mestre das madonas e dos santos dos anos 1300, ele
acharia natural que lhe perguntassem: "Giotto de
onde?" Responderia: "Giotto, da guilda dos
pintores de Florença". Muito tempo depois, o
século XVIII ganhou o apelido de Século das Luzes e a
fama de era do progresso, entre outros motivos, porque,
ao identificar-se, Voltaire não precisaria especificar
"de onde" era. Era Voltaire, só. O indivíduo
adquirira o direito de ser indivíduo.
Na Idade Média
não havia lugar para pessoas avulsas. Avulsos, só os
vagabundos e ladrões. Ser alguma coisa significava
pertencer a alguma coisa uma irmandade religiosa,
um feudo, uma corporação de ofício. A história do
progresso humano, vale dizer da liberdade, do direito à
iniciativa, e do de imprimir uma marca ao que se cria, é
a história da conquista da primazia do indivíduo. Qual
seja, a conquista do direito do indivíduo de ser ele
mesmo, e não peça de um rebanho. Pois tudo isso vai por
água abaixo quando alguém pergunta ao telefone:
"Fulano de onde?" Restaura-se a primazia da
corporação sobre o indivíduo.
Quanto mais muda,
mais tudo fica igual, esta é a moral da nossa história.
Não é por sua culpa que a secretária, ou telefonista,
ou assessor, pergunta "de onde" é a pessoa que
chama ao telefone. Isso reflete a estrutura de uma
sociedade em que, mais que os indivíduos entre si, é
uma corporação que fala à outra, e uma confraria que
se corresponde com outra. Não há muito espaço para
avulsos, e nesse ponto somos, os seres humanos, parecidos
com o que havia muito já éramos.

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