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Bopp:
muito além da mula-sem-cabeça |
O escritor gaúcho Raul Bopp entrou para
a história da literatura brasileira por causa de um
único poema. No panorama do modernismo, o épico Cobra
Norato está para a poesia assim como Macunaíma,
de Mário de Andrade, está para a prosa. Raul Bopp,
sabe-se agora, é mais do que Cobra Norato. Graças
ao trabalho do crítico Augusto Massi, que acaba de
organizar a Poesia Completa de Raul Bopp
(José Olympio/Edusp; 346 páginas; 29,80 reais), fica
provado que, em coletâneas esquecidas como Urucungo,
o autor também chegou a altos pontos de invenção. Bopp
perseguiu uma única idéia no decorrer de toda a vida:
descobrir o Brasil por meio da poesia. Desse projeto
ambicioso, uma parte infelizmente está morta. É aquela
que faz referência ao folclore, ao Brasil da mata virgem
e da mula-sem-cabeça. Se já soavam falsos nas décadas
de 20 e 30, os poemas que trazem essa mitificação do
arcaico parecem risíveis nos dias de hoje. Existem, no
entanto, elementos muito vivos na poesia de Bopp. Por
exemplo, seu ouvido alerta para a fala local, para o
idioma português "amansado com surras de
tambor". E, nesse ponto, ele deixa uma lição
duradoura: a de que faz sentido procurar por uma
literatura que, sem ser "nacionalista",
pretenda ser "brasileira".
C.G.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |