A sucessomaníaca

A americana Judith Tendler mostra o lado
bom de experiências no Nordeste brasileiro

Professora de economia política no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, uma das principais instituições de ensino dos Estados Unidos, Judith Tendler tem como especialidade desafinar o coro não dos contentes, mas dos descontentes. Nos trinta anos em que se vem dedicando a estudar os países em desenvolvimento, ela jamais aderiu à ladainha dos críticos que só sabem apontar descalabros e fracassos. Preferiu nadar contra a corrente, analisando a fundo os casos de sucesso. Prova disso é Bom Governo nos Trópicos, recém-lançado no Brasil (tradução de Maria Cristina Cupertino, editora Revan, 286 páginas, 32 reais). O livro tem por assunto quatro programas governamentais criados no Ceará entre os anos de 1987 e 1994, cujos resultados foram mais do que satisfatórios.

As iniciativas públicas analisadas foram nas áreas de saúde pública, incentivo ao emprego, extensão agrícola e apoio à pequena empresa. Apenas para mencionar os resultados nos dois primeiros casos: o Programa Agentes de Saúde, voltado para a medicina preventiva, diminuiu drasticamente a taxa de mortalidade infantil, além de alocar pelo menos uma enfermeira em quase todos os municípios do Estado. Uma estratégia de criação de empregos rurais, enquanto isso, conseguiu trazer de volta ao mercado de trabalho mais de 200.000 pessoas, moradoras de regiões atingidas pela seca.

Alguns dos fatores responsáveis pela obtenção de sucesso foram bastante inusitados. Por exemplo, a notável dedicação observada nos funcionários públicos, uma vez que sentiam o reconhecimento das comunidades, antes desassistidas, em que passavam a trabalhar. Ao descrever fenômenos como esse, Judith toca em um ponto importante: é preciso desconfiar dos lugares-comuns, assim como não se podem aplicar cegamente os ditames ortodoxos encontrados nos famosos manuais de "reengenharia" e "reestruturação empresarial". Mais importante do que importar e adaptar práticas pode ser prestar atenção à experiência local.

Bom Governo nos Trópicos é uma obra voltada para especialistas, mas vale a pena preservar sua moral. Entre outras coisas, Judith ensina como evitar a atitude descrita como "fracassomania" pelo veterano cientista político Albert Hirschman (antigo guru do presidente FHC em seus tempos de sociólogo), a quem ela dedica o livro "com gratidão".

C.G.

"É preciso enraizar a produção nos Estados"

Judith Tendler:
trinta anos de
experiência
no Brasil
Foto: Eduardo Queiroga  

Desde os anos 60, quando morou no Rio de Janeiro como economista da U.S. Agency for International Development, Usaid, Judith Tendler tem contato estreito com o Brasil. No momento, ela coordena uma pesquisa financiada pelo Banco do Nordeste, visando analisar experiências bem-sucedidas de desenvolvimento na região. No Recife, ela falou a VEJA.

Veja Os governadores nordestinos têm procurado atrair empresas de fora por meio de incentivos fiscais. Esse é o meio mais seguro de desenvolver o Nordeste?

Judith — É um meio, mas não o único. É muito importante notar que existem experiências alternativas obtendo bons resultados. Tão importante quanto trazer empresas, como tem feito o Ceará, é criar condições para que a produção se enraíze no Estado, como na Paraíba. Isso impede que se crie um buraco negro caso uma das empresas atraídas decida partir.

Veja Há também uma certa fixação na idéia de exportar. O que acha disso?

Judith — É um mito. Num país grande como o Brasil, aprender a explorar o mercado interno é fundamental. Foi o que fizeram os plantadores de fruta da região de Petrolina e Juazeiro, que descobriram como vender no país nada menos que 50% de sua produção.

Veja É possível desenvolver uma região sem recorrer à ajuda do Estado?

Judith — Embora se insista muito hoje em dia na idéia de que o Estado deve ficar de fora da atividade econômica, não devemos tomar isso como regra absoluta. Muitas vezes cabe a ele indicar caminhos. O governo do Rio Grande do Norte, por exemplo, mostrou a seus produtores de frutas como se unir numa cooperativa para superar problemas comuns a todos, como a praga da mosca-das-frutas. A intervenção foi das mais sutis, mas, sem ela, o crescimento teria parado.




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