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Time de estrelas
Cientistas
brasileiros conquistam respeito e
prêmios por novas descobertas na astronomia
Cristina
Ramalho
Poucos ramos da
ciência avançaram tão rápido nos últimos anos quanto
a astronomia. As descobertas feitas por meio dos modernos
telescópios na última década revelaram mais sobre o
universo do que todo o conhecimento acumulado pelos
cientistas nos quatro séculos anteriores, desde que o
italiano Galileu Galilei apontou sua rudimentar luneta
para o céu. Fotos feitas por esses supertelescópios
mostraram imagens inéditas dos planetas e de suas luas,
ajudaram a entender o nascimento de estrelas, a
formação das galáxias e o funcionamento dos buracos
negros. O que pouca gente sabe é que, por trás de boa
parte dessas novidades, há sempre um cientista
brasileiro. A descoberta de uma estrela de carbono, que
na prática é um gigantesco diamante incandescente, a
classificação das galáxias, a criação de uma
técnica para explicar a viscosidade dos discos de gás
ao redor das estrelas e até a construção de
equipamentos para telescópios de última geração são
proezas recentes de brasileiros que estão entre os
melhores cientistas do mundo nessa área (veja
quadros).
"A
astrofísica brasileira foi a que mais cresceu em
quantidade e qualidade nos últimos anos", diz
Robert Williams, dirigente do Instituto do Telescópio
Espacial Hubble. Quanto à quantidade, não se pode dizer
que o Brasil produz astrônomos como jogadores de
futebol. Existem hoje 220 brasileiros com doutorado em
astronomia. Há três décadas, contudo, eram apenas
dois. Na questão da qualidade, as estrelas brasileiras
formam um time de primeira grandeza. Neste ano, o Hubble
Fellow, o mais cobiçado prêmio da área, que patrocina
as pesquisas dos melhores astrônomos, foi conferido pela
primeira vez a um astrônomo do chamado Terceiro Mundo.
É o brasileiro Márcio Catelan, de apenas 29 anos, um
dos mais jovens cientistas a receber o prêmio. Nascido
em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, Catelan se
divertia na adolescência assistindo aos programas da
série de TV Cosmos, de autoria do falecido
escritor e cientista Carl Sagan. Hoje é um dos
astrônomos de maior ascensão profissional. Sua
especialidade é estudar as estrelas mais velhas (que ele
chama de "aglomerados globulares"), de modo a
estabelecer sua idade e suas características. O objetivo
final de Catelan é um tanto ambicioso: rever as teorias
sobre a idade e a formação do universo. Com o Hubble
Fellow, ele obteve verba para prosseguir em sua pesquisa,
além de divulgar seu trabalho em conferências e
revistas especializadas no mundo inteiro. Pôde, também,
escolher o lugar em que irá continuar estudando: o
Centro Espacial Goddard, da Nasa, próximo a Washington.
"O Brasil dispõe de muitos astrônomos que são
referência em qualquer conferência internacional",
diz Catelan.
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Márcio Catelan, do
Centro Espacial Goddard, da Nasa, foi o primeiro
cientista de um país do Terceiro Mundo a ganhar
o Hubble Fellow, o prêmio mais importante da
área, com seu estudo sobre as estrelas mais
velhas das galáxias e os aglomerados estelares.
Procura entender suas propriedades e medir seu
tempo de vida de maneira a revisar as teorias
sobre a idade e a formação do universo |
| Foto:
Michael Poor |
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O Brasil é muito criticado pelo atraso
na pesquisa científica. O país investe muito menos do
que deveria nessa área. Existem alguns campos, no
entanto, em que os brasileiros se destacam bem acima da
média de outros países. O Brasil é hoje líder mundial
em pesquisas agronômicas, tem os melhores centros de
estudos de doenças tropicais e está na ponta na
produção de técnicas inovadoras na cardiologia.
Graças ao gigantesco banco genético da Amazônia, têm
sido obtidos grandes avanços na botânica e na zoologia,
incluindo a descoberta de um grande número de novas
espécies animais e vegetais. Na comunidade científica,
os especialistas brasileiros também são respeitados em
áreas como a física, a geologia e a neurologia no que
diz respeito ao estudo da memória. A astronomia é a
mais nova atividade a atingir esse patamar. O principal
motivo é que, agora, os astrônomos brasileiros têm
acesso muito maior à tecnologia de ponta. Por meio das
fundações de amparo à pesquisa, o Brasil está
investindo 4,6 milhões de dólares nos dois telescópios
Gemini, que estão sendo construídos no Chile e no
Havaí e serão dez vezes mais potentes do que o Hubble.
É uma parcela ainda pequena dentro do orçamento total
do projeto, que custará 184 milhões de dólares, mas
vai garantir a participação brasileira no que promete
ser o principal centro de novas descobertas na área a
partir de 2001. O Brasil também está investindo um
terço dos 42 milhões de dólares do orçamento do Soar,
telescópio infravermelho de alta tecnologia em
construção no Chile. Isso significa também que ele
poderá ser usado por cientistas brasileiros durante um
terço das noites ao ano.
"Com nossa
participação nesses novos telescópios, poderemos jogar
de igual para igual com astrônomos dos maiores centros
de pesquisa", diz João Steiner, 48 anos, diretor do
Laboratório Nacional de Astrofísica, em Itajubá, Minas
Gerais. Chefe do futuro Soar e vice-presidente do projeto
dos telescópios Gemini, Steiner é um renomado
especialista em quasares, fósseis remanescentes da
época da formação do universo e que são os objetos
mais brilhantes do cosmo. "Para a astronomia
continuar crescendo, o trabalho científico precisa ser
coletivo", diz Steiner. Sua equipe desenvolve
tecnologia própria para fazer alguns dos sofisticados
instrumentos que farão parte do futuro telescópio Soar.
Com a Universidade da Carolina do Norte, um dos
assistentes de Steiner, o engenheiro elétrico Raymundo
Baptista, está construindo três espectrógrafos
aparelhos que decompõem a luz para obter informações
como a idade dos corpos celestes. Baptista é considerado
um gênio da engenharia aplicada à astronomia.
Recentemente, pediu para usar um programa de computador
criado para Keith Horne, um dos mais famosos astrônomos
americanos. Quando soube que teria de pagar uma fortuna
por isso, decidiu fazer ele próprio um programa
semelhante. Não só fez como aperfeiçoou o original e o
distribuiu gratuitamente para colegas do mundo inteiro.
"O próprio Keith Horne me convidou para trabalhar
com ele", conta Baptista, que aceitou o convite.
Eclipse
estelar O paulista Augusto Damineli, 50
anos, é responsável por outra descoberta de grande
repercussão no meio astronômico. Algum tempo atrás,
ele chegou à conclusão de que Eta Carina, um corpo
celeste bastante estudado nas últimas décadas, era
composto de duas estrelas, e não uma como antes se
imaginava. Também previu que uma passaria em frente da
outra, provocando um eclipse. Quando o eclipse de fato
ocorreu, em dezembro passado, Damineli deixou
boquiabertos os demais cientistas que observavam Eta
Carina. O espantoso é que as previsões de Damineli não
foram feitas com fotos do Hubble, mas com a ajuda de um
prosaico telescópio de superfície, baseado em Itajubá.
O segredo, segundo ele, foi ter observado o comportamento
do gás hélio na atmosfera de Eta Carina, o que não
ocorrera antes aos outros cientistas.
A astronomia é uma
área em que se estuda muito e se trabalha ainda mais.
Muita gente imagina que a vida dos astrônomos se resume
a observar o céu estrelado, noite após noite. É uma
idéia errada a respeito da profissão. A maior parte do
tempo eles passam em salas de computadores, tentando
decifrar as informações capturadas pelos telescópios.
Além disso, nunca há telescópios em número suficiente
para que possam observar o céu o tempo todo. Por vezes,
é preciso esperar meses na fila para ter o direito de
usar um desses equipamentos. Para não perder seu lugar
na fila, a astrônoma gaúcha Thaisa Bergmann, 42 anos,
uma das ainda raras mulheres a voltar seus olhos para as
estrelas, teve de obter uma pequena
"concessão" dos administradores do
supertelescópio de Cerro Tololo, no Chile. "Eu
acabara de ter um bebê, mas não podia perder minha vez
no telescópio", conta ela. "Então pedi para
levá-lo." Enquanto estudava buracos negros, Thaisa
amamentava a criança na sala do telescópio, assessorada
por uma babá. A maior parte dos astrônomos brasileiros
faz cursos de mestrado e doutorado em universidades fora
do país. Um astrônomo com quinze anos de pesquisa e
pós-doutorado recebe em média 5.000 reais nas
universidades brasileiras. É mais ou menos o mesmo que
se paga em países como a Itália. Não é muito, mas dá
para olhar o céu sem susto na conta bancária.
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| Foto:
Gladstone Campos |
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1. Thaisa Bergmann,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
estuda pistas nas galáxias que confirmem a
teoria de que todas possuem um buraco negro.
Ficou conhecida no meio científico pela
descoberta de um disco na galáxia NGC 1097 (no
detalhe) |
| 2. Augusto Damineli, do Instituto
Astronômico e Geofísico da USP, descobriu que em Eta Carina havia
duas estrelas, em vez de apenas uma, como se imaginava antes. Também
previu que uma eclipsaria a outra o que, para surpresa geral,
ocorreu em dezembro passado |
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Foto: Nasa/Liaison/Gamma |
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3. Paulo Sérgio
Pellegrini, do Observatório Nacional do Rio
de Janeiro, criou um sistema para mapear e
classificar as galáxias mais próximas da Terra
pela forma, densidade e velocidade |
| 4. Kepler de Souza Oliveira Filho,
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diretor do Whole Earth
Telescope, descobriu uma estrela com a mesma composição de um diamante |
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5. João Steiner,
diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica
e coordenador do projeto do telescópio Soar, no
Chile, é o maior especialista brasileiro em
quasares. Consertou o telescópio Einstein quando
estudava em Harvard |
| 6. José Renan de Medeiros, presidente
da Sociedade Astrofísica Brasileira, mediu a velocidade de rotação
e previu o comportamento de estrelas gigantes vermelhas (que no passado
já foram como o Sol) |
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7. Raymundo Baptista,
da Universidade Federal de Santa Catarina, que
trabalhou no telescópio Hubble e projeta peças
do telescópio Soar e investiga discos de gás
das estrelas |
| 8. Laerte Sodré, do Instituto Astronômico
e Geofísico da USP, criou um método para catalogar as galáxias por
meio das redes neurais, sistema de inteligência artificial que simula
as redes do cérebro |
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Foto: Augusto Damineli |

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