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Reforma agrária Falou demaisFHC insinua que MST mexe com maconha
Na semana passada, o governo se empenhou em fazer silêncio sobre um assunto. No sábado 22, em visita à Bahia, o presidente Fernando Henrique insinuou que o Movimento dos Sem-Terra, o MST, estava cooperando com plantadores de maconha no sertão de Pernambuco. Numa entrevista, respondendo a uma pergunta sobre reforma agrária, o presidente disse: "No momento em que o MST passa a fazer saque, passa a cooperar na zona de maconha, aí complica. Aí se descaracteriza". Mais adiante, disse achar esse envolvimento "perigoso" e justificou: "Eu vi a Colômbia como começou", numa alusão à aliança entre os guerrilheiros e os traficantes de cocaína. É verdade que existem acampamentos de sem-terras no "polígono da maconha", no sertão pernambucano. Sabe-se ainda que militantes do MST já fizeram saques a caminhões no nordeste em companhia de plantadores de maconha. Mais: de vez em quando, flagra-se uma plantação de maconha num assentamento. Portanto, o presidente tinha o que falar. Só que exagerou. O exagero está em envolver o nome do MST, quando o que há é o envolvimento de alguns militantes. É como acusar o governo de desonesto porque um funcionário de quinto escalão foi flagrado numa operação irregular. O MST já fez várias reuniões para alertar seus militantes de que, nos acampamentos, não se planta, não se vende nem se consome maconha. "Fazemos isso por precaução. Quando descobrimos alguém envolvido, expulsamos do movimento", diz o líder do MST na região, Jaime Amorim. Em maio, arapongas do general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete Militar, investigaram um saque a treze carretas em Orocó, cidade da região da maconha de Pernambuco. Descobriram que, no saque, havia sem-terra e gente ligada aos campos de maconha. Depois, descobriram sete saques, em junho, feitos em conjunto. Não houve combinação nem aliança. Cada um chegou ao saque por seu próprio caminho. O general levou todas as informações ao presidente porque "a convivência entre os assentados e os traficantes nos preocupa", afirma ele. De fato, é preocupante. Mas o resultado dessas elucubrações militares acabou se tornando peça sensível de um pronunciamento do presidente da República, no qual as nuances da situação foram deixadas de lado em proveito de uma insinuação de caráter geral, que implica uma acusação pesada a todo o MST. Melhor seria que o governo desapropriasse fazendas com plantação de maconha. A lei manda fazer isso, mas o governo nunca fez. Vladimir Netto
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