Uma questão de valores

"As novas revoluções, que resultaram de
demandas espontâneas do mercado, prometem
tornar mais suaves os ciclos econômicos, permitindo
níveis altos de crescimento sustentado, sem inflação"

Roberto Campos

Luiza Ruberti

"Não há nada tão bem-sucedido quanto o sucesso", diz o refrão. É o que aconteceu com os chamados "valores asiáticos". Durante uma década e meia os Tigres Asiáticos (seguidos depois pelo suleste da Ásia e China continental) bateram recordes de desempenho econômico, superando em muito outros países emergentes, quer na velocidade do crescimento, quer na cura da pobreza. Isso parecia validar a tese de alguns líderes asiáticos sobre a superioridade dos "valores confucianos" — ênfase sobre o consenso e a solidariedade grupal, em contraste com o individualismo ocidental; propensão à poupança; respeito à autoridade; apego à família; culto da educação como meio de ascensão social. Esses valores tornariam respeitável o "autoritarismo confuciano" — comparativamente às anarco-democracias, cuja expressão máxima seria o individualismo da cultura americana.

Agora, com a longa recessão japonesa e a implosão financeira no suleste da Ásia, os "valores asiáticos" estão sendo avaliados pejorativamente. Será aliás legítimo falar-se em "valores asiáticos" numa região onde se misturam culturas tão diferentes como o budismo, o confucionismo e o islamismo? Alguns dos famosos valores parecem tornar-se negativos. Um toque do consumismo americano, por exemplo, seria útil para curar a recessão japonesa, subproduto da poupança excessiva. O apego à família resultou num capitalismo de cupinchas, em que relações familiares deturpam a análise de risco. A busca do consenso levou a corruptas barganhas entre políticos e conglomerados. O respeito à autoridade diminuiu a capacidade de questionamento e inovação.

O sistema educacional peca por se basear na memorização rotineira, antes que na excitação criativa. E dois defeitos esquecidos na prosperidade sobem à tona: o desregramento dos sistemas financeiros e o "déficit democrático", que dificulta a administração das mudanças.

Qual a explicação, então, para o sucesso asiático no encurtamento do prazo de duplicação do produto por habitante? A Inglaterra só conseguiu fazê-lo em 58 anos, os Estados Unidos em 47 anos, o Japão em 33 anos, enquanto na Indonésia bastaram dezessete anos, na Coréia onze anos e na China dez anos.

A explicação estaria menos nos "valores confucianos" do que em dois outros fatores: aplicação maciça de insumos (capital e mão-de-obra) e vantagem do capitalismo retardatário. Os subdesenvolvidos de hoje têm duas possibilidades de saltos temporários de produtividade: melhor uso das tecnologias existentes e absorção de novas tecnologias sem o custo da pesquisa.

Nenhum dos países asiáticos, nem mesmo o Japão, atingiu criatividade na pesquisa básica, ou capacidade de inovação comparável à das democracias "liberais" do Ocidente. A revanche dos valores do individualismo criador começam a se revelar nas três revoluções tecnológicas em curso, em todas as quais os Estados Unidos têm vantagens, quer sobre o Japão, sociedade bastante dirigista, quer sobre a Europa ocidental, onde os social-democratas falam no "controle social do mercado". Essas revoluções simultâneas são: a revolução informática, que, com a Internet, está criando novos mundos, como o "comércio virtual"; a revolução da biotecnologia, que produzirá plantas resistentes e mais nutritivas e tornará possível a clonagem de animais; e a revolução da miniaturização — a nanotecnologia —, que permitirá que simples chips exerçam a função de máquinas. Já houve, sem dúvida, revoluções tecnológicas que não trouxeram desenvolvimento sustentado, como a energia nuclear e as excursões planetárias, provavelmente porque brotaram de iniciativas governamentais político-militares. Mas as novas revoluções, que resultaram de demandas espontâneas do mercado, prometem trazer uma "mudança de paradigma", tornando mais suaves os ciclos econômicos e permitindo níveis mais altos de crescimento sustentado, sem ressurreição da inflação.

Roberto Campos é embaixador e deputado federal




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