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Companheiros de traquinagens na infância, Carl Fredricksen e Ellie se casam, descobrem que não podem ter filhos e então decidem economizar para uma excursão às Cachoeiras do Paraíso, recesso selvagem da América do Sul. Mas quando Carl, um humilde vendedor de balões, finalmente consegue poupar o dinheiro para as passagens de avião, Ellie já está velha e doente. Ela morrerá sem ter feito a viagem dos sonhos. Espécie de preâmbulo da ação acelerada (e realçada pelo 3D) que domina boa parte de Up Altas Aventuras (Up, EUA, 2009), animação dos estúdios Pixar que estreia nesta sexta-feira no país, o drama doméstico de Carl e Ellie é narrado em cerca de quatro minutos, sem um só diálogo. O diretor Pete Docter que já assinara Monstros S.A. encontrou a tradução visual exata para cada projeto frustrado que o casal acalenta da juventude à velhice (um exemplo: os dois tomam a decisão de ter filhos deitados em uma campina, observando nuvens que subitamente começam a se parecer com bebês). Sucinta e comovente, a sequência ilustra a ousadia dos criadores da Pixar e também sua habilidade ímpar para dotar criaturas de computação gráfica de personalidade, empatia, humanidade, ou, em uma palavra, de alma. A vida de planos abortados explica a melancolia e a misantropia que pesam sobre cada gesto de Carl (dublado, nas cópias em português, pelo comediante Chico Anysio), aos 78 anos. Com esses antecedentes, sua fuga amalucada, ao ser ele confrontado com a internação compulsória em um asilo, parece não só razoável, mas necessária: Carl amarra milhares de balões de hélio à sua casa, convertendo-a no mais inusitado dos dirigíveis, e parte para a América do Sul.
Por um acaso feliz, Carl acaba carregando um companheiro de viagem: o gordinho Russell, um atrapalhado escoteiro de 8 anos, estava na varanda da casa quando ela alçou voo. Sua personalidade ingênua e solar fará um divertido contraponto à rabugice de Carl. Os dois chegam bem perto das Cachoeiras do Paraíso, mas, por conta de uma série de acidentes, têm de fazer o trajeto final a pé, puxando o sobrado, preso por uma mangueira, como um balão gigante. No caminho, vão encontrar Kevin, uma esquisita e colorida ave gigante, e o grande achado cômico do filme Dug, um cachorro que fala, equipado com uma coleira que lê seus "pensamentos" e os traduz em voz humana. É um grupo clássico do cinema para crianças: o bando de enjeitados que acaba constituindo sua própria família. O quarteto terá de enfrentar um ensandecido aventureiro que, isolado há décadas na selva, deseja caçar Kevin.
Up é o primeiro filme da Pixar a usar animação em três dimensões (presente em 80 das 300 cópias exibidas no Brasil). Docter buscou um uso sutil da técnica. Quase não há objetos que "saltam" na direção do espectador, mas a ilusão de profundidade nas cenas aéreas é deslumbrante especialmente no momento em que a casa de Carl se ergue do chão e sobrevoa a cidade. Embora ligados ao universo infantil, os balões coloridos que dão leveza à casa são a imagem perfeita do desejo de evasão de que tantos adultos (até padres) oprimidos pela rotina compartilham. É uma brilhante metáfora visual algo difícil de encontrar no cinema dito "adulto" de Hollywood. A Pixar realmente voa alto.
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