Música
O poder do sussurro
As cantoras de voz pequena provam que não é preciso
se esgoelar para tirar o melhor de uma música

Sérgio Martins
Se pudesse ter escolhido, Fernanda Takai gostaria de cantar com
a força de Clara Nunes. A natureza, no entanto, lhe deu uma voz miudinha
e a obrigou a procurar outras referências. No começo da
carreira, Fernanda encontrou inspiração na inglesa Tracey Thorn,
do duo Everything But the Girl, e na americana Suzanne Vega. Nos shows, era
com esforço que ela dava conta das músicas mais barulhentas. Mesmo
assim, seu vocal suave se impôs e se tornou uma marca de sua banda, o
Pato Fu. Em seu primeiro disco-solo, lançado no fim de 2007, Fernanda,
hoje à vontade com seus dotes, homenageou outra cantora de voz pequena:
Nara Leão (1942-1989), uma das maiores intérpretes da bossa nova. Onde Brilhem os Olhos Seus vendeu 55 000 unidades, número
expressivo no combalido mercado fonográfico, e agora se desdobrou em
um CD e DVD ao vivo, Luz Negra. Escutar a interpretação
delicada de Fernanda para músicas como Ben, do repertório
de Michael Jackson, pode ser uma experiência renovadora: descobre-se que
não é preciso se esgoe-lar como um calouro do American Idol para transmitir emoção. Pode-se dizer o mesmo do canto contido
e delicado da paulista Tiê, em seu recente disco de estreia, Sweet
Jardim. E o estilo deliciosamente inconsequente de algumas cantoras do pop
britânico, como Lily Allen (que faz show no Rio e em São Paulo
em setembro) e Kate Nash, deve muito ao jeitinho meio infantil com que elas
cantam. As cantoras de voz pequena têm algo a dizer no cenário
pop atual e o dizem bem.
No canto lírico, o termo "voz pequena"
refere-se aos artistas de menor volume e potência sonoros. O que não
significa menor qualidade técnica: a meio-soprano italiana Cecilia
Bartoli, por exemplo, tem uma voz diminuta, porém infinitamente expressiva.
Se a voz poderosa deixou de ser uma exigência absoluta da ópera,
em que o canto tem de se sobrepor à orquestra, isso é tanto mais
verdade em outros gêneros. Ao longo do século XX, microfones e
mesas de som permitiram que cantores que não conseguiam cha-coalhar as
vidraças ao soltar a voz pudessem se expressar sem ser soterrados pelos
instrumentos. Abriu-se o campo para gêneros que valorizaram a voz mínima,
como a bossa nova e, na França, a chanson (tradição hoje
encampada pelos sussurros sensuais da primeira-dama Carla Bruni). O tamanho
da voz tornou-se um valor relativo, sujeito a modas e estilos. A americana Billie
Holiday, com seus registros agudos e longos, soa como uma grande voz comparada
às cantoras atuais (incluindo imitadoras como Madeleine Peyroux). Mas,
em seu tempo, era considerada uma voz pequena as contemporâneas
Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald tinham alcance bem maior. "Billie Holiday
anasalava muito, mas imprimia uma dramaticidade sem igual às canções",
diz a professora de canto Vera do Canto e Mello.
Existem artistas que têm voz pequena são fisicamente
incapazes de aumentar o volume , e outros que limitam os recursos vocais
porque acreditam na eficiência de uma interpretação econômica.
Fernanda Takai e Nara Leão enquadram-se na primeira categoria; João
Gilberto, cantor de grande extensão vocal, na segunda. Para o ouvinte,
porém, a distinção acaba sendo irrelevante: o que importa
é o que o artista consegue fazer com os dons que tem. Os superagudos
de uma Whitney Houston ou de uma Celine Dion distorcem as letras e banalizam
o sentimento. A voz contida, porém, tem maleabilidade para dar às
palavras seu significado emocional preciso (veja o quadro abaixo). Menos
é mais.
Menos é mais
Quatro expoentes do canto minúsculo
Divulgação
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CARLA BRUNI
Onde aprendeu a cantar: italiana de nascimento, a primeira-dama
da França é fiel aos artistas franceses de chanson, de voz discreta,
quase falada, como Serge Gainsbourg
O maior acerto: seus sussurros sublinham a sensualidade de letras
como Tu Es Ma Came, na qual compara a paixão por um homem ao vício
em heroína
LILY ALLEN
Onde aprendeu a cantar: suas principais escolas musicais são
os artistas de ska inglês, surgidos no fim dos anos 80, e o canto falado
do rap
O maior acerto: seu canto não é propriamente pequeno
é infantilizado. Esse tom de menininha dengosa torna mais debochadas
canções como Smile e Not Fair, em que ela reclama dos ex-namorados
Lailson Santos
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FERNANDA TAKAI
Onde aprendeu a cantar: com os intérpretes contidos da
bossa nova em particular, com Nara Leão e artistas pop
de vocais delicados como Tracey Thorn, do duo Everything But the Girl, e Suzanne
Vega
O maior acerto: canções tristes e sofridas
como Luz Negra, de Nelson Cavaquinho ganham uma pungência sem melodrama
na sua interpretação |
Cyntho/Corbis/Latinstock
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MADELEINE PEYROUX
Onde aprendeu a cantar: a cantora americana é imitadora
de Billie Holiday, cuja voz tem um alcance menor do que a de outras divas do
jazz
O maior acerto: emulando o modo preguiçoso e dolente de
Billie Holiday, Madeleine encontrou o tom certo para clássicos do country
e do blues como Weary Blues from Waitin, de Hank Williams, e Careless
Love, de W.C. Handy
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