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correta, com biografia sem nódoas e uma
doçura
sem
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Lailson Santos![]() |
"Também sou negra, mas seria muito pretensioso da
minha parte me apresentar como similar ao Obama" |
A senadora Marina Silva,
do Acre, causou um abalo amazônico ao Partido dos Trabalhadores. Depois
de trinta anos de militância aguerrida, abandonou a legenda e marchou para
o Partido Verde, seduzida por um convite para ser a candidata da agremiação
à Presidência da República em 2010. Para o PT, o prejuízo
foi duplo: não só perdeu um de seus poucos integrantes imaculadamente
éticos, como ganhou uma adversária eleitoral de peso. Os petistas
temem, e com razão, que a candidatura de Marina tire muitos votos da sua
candidata ao Planalto, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na semana passada,
Marina, de 51 anos, casada, quatro filhos, explicou a VEJA as razões que
a levaram a deixar o PT e opinou sobre temas como aborto, legalização
da maconha e criacionismo.
A senhora será candidata a presidente
pelo Partido Verde?
Ainda não é hora de assumir candidatura.
Há uma grande possibilidade de que isso aconteça, mas só
anunciarei minha decisão em 2010.
| "Não vou me colocar em uma posição de vítima em relação à ministra Dilma. Não é por termos divergências que vou transformá-la em vilã. Não vou fazer o discurso fácil da demonização" |
Se sua candidatura sair, como
parece provável, que perfil de eleitor a senhora pretende buscar?
Os jovens. Eles estão começando a reencontrar as utopias. Estão
vendo que é possível se mobilizar a favor do Brasil, da sustentabilidade
e do planeta. Minha geração ajudou a redemocratizar o país
porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan
Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso,
que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos,
quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar
as pessoas.
Sua saída abalou o PT. Além da possibilidade
de disputar o Planalto, o que mais a moveu?
O PT teve uma visão
progressista nos seus primeiros anos de vida, mas não fez a transição
para os temas do século XXI. Isso me incomodava. O desafio dos nossos dias
é dar resposta às crises ambiental e econômica, integrando
duas questões fundamentais: estimular a criação de empregos
e fomentar o desenvolvimento sem destruir o planeta. O crescimento econômico
não pode acarretar mais efeitos negativos que positivos. Infelizmente,
o PT não percebe isso. Cansei de tentar convencer o partido de que a questão
do desenvolvimento sustentável é estratégica como
a sociedade, aliás, já sabe. Hoje, as pessoas podem eleger muito
mais do que o presidente, o senador e o deputado. Elas podem optar por comprar
madeira certificada ou carne e cereais produzidos em áreas que respeitam
as reservas legais. A sociedade passou a fazer escolhas no seu dia a dia também
baseada em valores éticos.
A crise moral que se abateu sobre o
PT durante o governo Lula pesou na decisão?
Os erros
cometidos pelo PT foram graves, mas estão sendo corrigidos e investigados. Quando da criação do PT, eu idealizava uma agremiação
perfeita. Hoje, sei que isso não existe. Minha decisão não
foi motivada pelos tropeços morais do partido, mesmo porque eles foram
cometidos por uma minoria. Saí do PT, repito, por falta de atenção
ao tema da sustentabilidade.
Ou seja, apesar de mudar de sigla, a senhora
não rompeu com o petismo?
De jeito nenhum. Tenho um sentimento
que mistura gratidão e perda em relação ao PT. Sair do partido
foi, para mim, um processo muito doloroso. Perdi quase 3 quilos. Foi difícil
explicar até para meus filhos. No álbum de fotografias, cada um
deles está sempre com uma estrelinha do partido. É como se eu tivesse
dividido uma casa por muito tempo com um grupo de pessoas que me deram muitas
alegrias e alguns constrangimentos. Mudei de casa, mas continuo na mesma rua,
na mesma vizinhança.
No período em que comandou o Ministério
do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa
Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha
à Presidência?
Não vou me colocar numa posição
de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era
ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava
a solução. Não é por ter divergências com Dilma
que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer
obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos
visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da
demonização de quem quer que seja.
Um de seus maiores
embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para
licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira.
A senhora é contra a construção de usinas?
No
Brasil, quando a gente levanta algum "porém", já dizem
que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu
naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio
do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos
bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão.
Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra
hidrelétricas. Isso é falso.
| "Creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há pesquisadores e cientistas que creem em Deus" |
Se a senhora for eleita presidente,
proibirá o cultivo de transgênicos?
Eis outra
falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor,
isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter
transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está
prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva
que não será mais possível o modelo de coexistência.
Já há uma contaminação irreversível das lavouras
de milho, algodão e soja.
O que a senhora mudaria no Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC)?
Eu não
teria essa visão de só acelerar o crescimento. Buscaria o desenvolvimento
com sustentabilidade, para que isso pudesse ser traduzido em qualidade de vida
para as pessoas. Obviamente, é necessário que o país tenha
infraestrutura adequada. Mas é preciso evitar os riscos e problemas que
os empreendimentos podem trazer, sobretudo na questão ambiental.
Na
economia, faria mudanças?
Não vou me colocar no lugar
dos economistas. Prefiro ficar no lugar de política. Em linhas gerais,
acho que o estado não deve se colocar como uma força que suplanta
a capacidade criativa do mercado. Nem o estado deve ser onipresente, nem o mercado
deve ser deificado. Também gosto da ideia do Banco Central com autonomia,
como está, mas acho que estão certos os que defendem juros mais
baixos.
No seu novo partido, o PV, há uma corrente que defende
a descriminalização da maconha. Como a senhora se posiciona a respeito
desse assunto?
Não sou favorável. Existem muitos
argumentos em favor da descriminalização. Eles são defendidos
por pessoas sérias e devem ser respeitados. Mas questões como essa
não podem ser decididas pelo Executivo, e sim pelo Legislativo, que representa
a sociedade. A minha posição não será um problema,
porque o PV pretende aprovar na próxima convenção uma cláusula
de consciência, para que haja divergências de opinião dentro
do partido.
Os Estados Unidos elegeram o primeiro presidente negro de
sua história, Barack Obama. Ele é fonte de inspiração?
Eu também sou negra, mas seria muito pretensioso da minha parte me
colocar como similar ao Obama. Ele é uma inspiração para
todas as pessoas que ousam sonhar. A questão racial teve um peso importante
na eleição americana. Mas os Estados Unidos têm uma realidade
diferente da do Brasil. Eu nunca fui vítima de preconceito racial aqui.
A
senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial?
Não. É legítimo que as pessoas decidam votar
em alguém por se identificar com alguma de suas características,
como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar
isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver
com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já
disse que "Narciso acha feio o que não é espelho". Nós
temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular
a divisão. A história engraçada é que, durante as
prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava
a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham
de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não
teríamos esse problema, porque sou mulher e negra.
A senhora é
a favor da política de cotas raciais para o acesso às universidades?
Há quem ache que as cotas levam à segregação,
mas eu sou a favor de que se mantenha essa política por um período
determinado. Acho que há, sim, um resgate a ser feito de negros e índios,
uma espécie de discriminação positiva.
Mas a senhora
entrou numa universidade pública sem precisar de cotas, embora seja negra,
de origem humilde e alfabetizada pelo Mobral.
Sou uma exceção.
Tenho sete irmãos que não chegaram lá.
Aos 16 anos,
a senhora deixou o seringal e foi para a cidade, a fim de se tornar freira. Como
uma católica tão fervorosa trocou a Igreja pela Assembleia de Deus?
Fui católica praticante por 37 anos, um aspecto fundamental
para a construção do meu senso de ética. Meu ingresso na
Assembleia de Deus foi fruto de uma experiência de fé, que não
se deu pela força ou pela violência, mas pelo toque do Espírito.
Para quem não tem fé, não há como compreender. Esse
meu processo interior aconteceu em 1997, quando já fazia um ano e oito
meses que eu não me levantava da cama, com diagnóstico de contaminação
por metais pesados. Hoje, estou bem.
A senhora é mesmo partidária
do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal
como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?
Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não
significa que descreia da ciência. Não é necessário
contrapor a ciência à religião. Há médicos,
pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico,
creem em Deus.
O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?
Uma
vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão.
Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo
problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou
seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja
matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou
professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito
que Deus criou o mundo. Só isso.
A senhora é contra todo
tipo de aborto, mesmo os previstos em lei, como em casos de estupro?
Não
julgo quem o faz. Quando uma mulher recorre ao aborto, está em um momento
de dor, sofrimento e desamparo. Mas eu, pessoalmente, não defendo o aborto,
defendo a vida. É uma questão de fé. Tenho a clareza, porém,
de que o estado deve cumprir as leis que existem. Acho apenas que qualquer mudança
nessa legislação, por envolver questões éticas e morais,
deveria ser objeto de um plebiscito.
Seu histórico médico
inclui doenças muito sérias, como cinco malárias, três
hepatites e uma leishmaniose. A senhora acredita que tem condições
físicas de enfrentar uma campanha presidencial?
Ainda não
sou candidata, mas, se for, encontrarei forças no mesmo lugar onde busquei
nas quatro vezes em que cheguei a ser desenganada pelos médicos: na fé
e na ciência.