J.R. Guzzo
Baralho falso
"O que poderia haver de mais avançado em matéria
de falsificação do que sustentar, como fazem os mestres
de doutrina
do PT, que são de direita todos os que discordam
do governo Lula e de
esquerda todos os que são a favor?"
Os professores das escolas públicas e particulares brasileiras
provavelmente continuam ensinando nas salas de aula que, em política,
as coisas se dividem em direita e esquerda; boa parte deles, pela lei das probabilidades,
deve explicar que a direita é geralmente do mal e a esquerda é
geralmente do bem. A esperança é que a maioria dos alunos não
preste muita atenção às aulas em que ouve isso, ou esqueça
logo o que ouviu, como esquece para que serve a bissetriz ou quem foi o regente
Feijó. O problema maior não está em dizer, sem demonstrar
com fatos, que esquerda é melhor que direita como também
não haveria grande perda se fosse dito o contrário. Há
muito tempo esse tema virou questão de fé, e aí cada um
acredita no que quer. Ruim, mesmo, é manter em circulação
duas palavras que, no Brasil de hoje, perderam qualquer utilidade para diferenciar
comportamentos, convicções e pessoas na vida política real.
Só servem, na verdade, para fazer exatamente o oposto uma mistura
grossa na qual vai ficando cada vez mais difícil saber quem realmente
é quem, e, sobretudo, quem está querendo o quê. Esse mundo
de confusão, sem forma, sem substância e sem lógica, é
o ambiente ideal para montar uma mesa de jogo em que são falsos o baralho,
as fichas e tudo o que está em cima, embaixo ou em volta dela.
O que poderia haver de mais avançado em matéria
de falsificação, por exemplo, do que sustentar, como fazem os
mestres de doutrina do PT, que são de direita todos os que discordam
do governo Lula e de esquerda todos os que são a favor? O resultado prático
dessa maneira de separar os lados na política brasileira é a criação
de um tumulto mental em modo extremo, no qual não se entende rigorosamente
nada. Cada caso, aí, é mais esquisito que o outro. O governador
José Serra, que foi presidente da UNE, teve de fugir da polícia
no golpe militar de 1964 e ficou anos exilado, é o principal nome da
oposição para disputar as eleições presidenciais
de 2010 contra a candidatura do governo; é apontado pelo PT, por isso,
como o grande líder da "direita" brasileira. O presidente do
Senado, José Sarney, foi um dos principais servidores do regime militar,
esse mesmo que queria colocar Serra no xadrez; hoje está a favor do governo
Lula e é defendido até a morte pelo PT, como um herói daquilo
que o partido descreve como sendo o campo progressista, popular e de "esquerda".
Qual o nexo de uma coisa dessas? Pela mesma visão, o deputado Fernando
Gabeira, que quando jovem fez tudo o que a esquerda mais radical podia fazer,
e hoje é um opositor aberto da ladroagem no governo Lula, é excomungado
como homem de "direita". Já o senador Romeu Tuma, que fez carreira
durante a ditadura como delegado do Dops e andava atrás, justamente,
de subversivos como Gabeira, hoje é um dos destaques da "base aliada"
e se vê premiado pelo PT como participante ativo do "projeto de esquerda"
neste país. A senadora Marina Silva, que até outro dia estava
para ser canonizada pelo governo, tornou-se suspeita de ajudar a "aliança
conservadora" no dia seguinte ao seu rompimento com o PT; é uma
questão de tempo até ser enfiada sem maior cerimônia no
balaio geral da "direita". O deputado Paulo Maluf, que o PT sempre
tratou como uma espécie de King Kong do direitismo nacional, foi promovido,
pelos serviços que fornece ao governo, a associado emérito das
forças de "esquerda". Fica assim, então: Serra, Gabeira
e Marina, entre dezenas de nomes semelhantes, estão na direita; Sarney,
Tuma e Maluf, entre outros tantos, estão na esquerda. É nisso
que veio dar, no Brasil atual, a distinção entre ideologias.
Quando se toma, de caso pensado, o caminho da mentira para fazer
política, qualquer coisa pode acontecer. Está acontecendo neste
momento na Receita Federal, onde a demissão da secretária Lina
Vieira e de dois de seus assessores diretos, seguida pela entrega de sessenta
cargos de chefia por seus ocupantes, virou uma briga de arquibancada como fazia
muito tempo não se via numa repartição do serviço
público. Lina e sua equipe, no evangelho segundo o PT, seriam esquerda
pura: diziam dar prioridade à fiscalização sobre "grandes
empresas" e tinham a seu lado o sindicato da categoria. Mas a secretária
se estranhou com o governo em geral e com a ministra Dilma Rousseff em particular;
acabou posta para fora, foi chamada de "essa secretária" pelo
presidente da República e já está a caminho de entrar na
lista negra dos que colaboram "objetivamente" com a estratégia
direitista de Serra, Gabeira, Marina etc.
É assim que funciona. |