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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo "Eymael
almoçou num restaurante por quilo"
A
esdrúxula cobertura da eleição
presidencial na TV, por força das
armadilhas da lei eleitoral
Na quinta-feira 20, Luciano Bivar foi a Mogi Guaçu, São Paulo, onde
pregou o imposto único. José Maria Eymael fez palestra em Brasília
num congresso de trabalhadores da área de turismo. Na sexta 21, Luciano
Bivar percorreu a Rua 25 de Março, em São Paulo. José Maria
Eymael esteve em Anápolis, Goiás. Visitou o túmulo do ex-governador
Henrique Santillo no cemitério São Miguel e almoçou num restaurante
por quilo. No sábado 22, Luciano Bivar caminhou pela Rua XV de Novembro,
uma das mais movimentadas de Curitiba. Cumprimentou artistas de rua e falou sobre
segurança pública. José Maria Eymael passeou pelo calçadão
de Itajaí, Santa Catarina. O leitor está gostando? Tem mais. Na
segunda-feira 24, Luciano Bivar caminhou pela Praça da Sé, em São
Paulo. Cumprimentou os transeuntes, ouviu taxistas e camelôs. José
Maria Eymael fez caminhada em Guarulhos, na Grande São Paulo.
As atividades de Luciano Bivar e José Maria Eymael vêm sendo noticiadas,
passo a passo, pelo Jornal Nacional e outros noticiários da Rede
Globo. Eles são candidatos a presidente da República. Sim, são,
o leitor pode não acreditar, mas são. Luciano Bivar é um
sujeito com ares de galã maduro, pomposa cabeleira grisalha, faces rosadas.
No dia em que caminhou pela Praça da Sé vestia uma camisa azul de
manga comprida, bem aberta no colarinho, o que, no centro de São Paulo,
numa segunda-feira, lhe emprestava um jeitão de turista. Bivar é
muito rico, conforme indica a declaração de bens que apresentou
à Justiça Eleitoral. Tem aplicações nos Estados Unidos
e apartamentos no Recife, onde nasceu, e em São Paulo. Possui também
um revólver, um Taurus calibre 38, modelo 85vl 51mm, no valor de 590 reais.
Sua página na internet descreve-o como "empresário segurador, desportista
e bacharel em direito". Para quem continua sem
acreditar que ele é candidato, digamos, aproveitando o jeito com que se
apresentava na Praça da Sé, que é antes um turista entre
os inscritos na eleição presidencial. Desses candidatos que entram
sem possibilidade de ganhar, mas também sem se importar com isso, visando
a sabe-se lá que vantagens. Talvez se inscrevam por diversão. Para
vencer o tédio deve ser ótimo ser candidato a presidente. É
uma experiência diferente. José Maria Eymael é um candidato
da mesma extração, com uma particularidade é um reincidente.
Já foi candidato a presidente em 1998. É um profissional das candidaturas
perdidas por antecipação. Em outros
países também há candidatos turistas. A diferença
é que não contam com cobertura da principal rede de televisão.
Não é porque considere relevantes as caminhadas de Bivar e Eymael,
no entanto, que a Globo as acompanha, e sim por força das armadilhas da
lei eleitoral. A emissora traçou um plano de cobertura que prevê
debates entre os candidatos e entrevistas. Ocorre que, segundo a legislação,
é obrigatório chamar para os debates todos os candidatos de partidos
com representação na Câmara. Para as entrevistas, se um é
convidado, os demais também têm de ser. São regras que, ao
dar peso igual a quem tem representatividade diferente, inviabilizam um bom formato
tanto para os debates quanto para as entrevistas. Para contornar tais imposições,
a Globo firmou acordos com Bivar e Eymael cobriria suas atividades de campanha,
em troca da renúncia a participar dos debates e das entrevistas. A emissora
acaba prestando um serviço suplementar à dupla. Não fossem
seus repórteres e técnicos a chamar atenção, eles
passariam despercebidos nas ruas. Os partidos de
Bivar (PSL) e Eymael (PSDC) nem têm mais representação no
Congresso. Elegeram apenas um deputado cada um em 2002, e tanto num caso como
no outro os eleitos bandearam-se para outros partidos. Como já tiveram
representação, porém, a Justiça Eleitoral entende
que seus candidatos continuam a fazer jus à cobertura televisiva. As emissoras
ficam na contingência de dar voz e imagem a pessoas que valem tanto para
o interesse público quanto os pedestres com que cruzam em suas caminhadas.
A lei proíbe também que se façam comentários, a favor
ou contra os candidatos, na televisão, em mais uma contribuição
para a escolha do eleitor às escuras. Já cansou ouvir que é
urgente uma reforma política. Já cansou, igualmente, ouvir que a
reforma não virá porque os encarregados de aprová-la, os
políticos, se aproveitam do sistema tal qual é. Que fazer? Nada.
A via insurrecional parece desaconselhável.
Na terça-feira 25, Luciano Bivar fez uma caminhada em Porto Alegre. Visitou
a Câmara dos Vereadores e o Clube dos Treze, que reúne os principais
clubes de futebol. Eymael esteve em Itu, no interior de São Paulo, onde
foi à escola que leva o nome do irmão diácono, já
falecido. Na quarta-feira 26, Bivar passou a manhã em São Paulo
e à tarde viajou para Limeira. Eymael dedicou o dia a João Pessoa.
Passeou pela cidade e visitou o Sindicato da Polícia Civil da Paraíba.
Na quinta 27, Luciano Bivar encontrou-se com empresários de Brasília.
José Maria Eymael fez caminhada em Campina Grande e jantou com políticos
locais. |