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Especial Existe
guerra justa? O sofrimento e a
destruição causados pela ofensiva de Israel contra o Hezbollah,
que atinge sobretudo a população civil, começam a mudar
a visão que o mundo tem desse conflito. A questão, que fica
cada vez mais aguda, é: por mais que tenha os motivos certos para retaliar
seus agressores, Israel não pode lutar uma guerra suja  Diogo
Schelp
Hassan
Ammar/AFP
 | EM
ESCOMBROS Moradores procuram sobreviventes em
meio aos escombros de um edifício destruído por ataque aéreo israelense em Tiro,
no sul do Líbano: foguetes que atingem Haifa, em Israel, são disparados dessa
cidade portuária |
Existem
razões justas, baseadas na lei moral e nas regras internacionais, para
iniciar uma guerra. Israel as teve todas ao revidar as agressões dos terroristas
islâmicos instalados no seu vizinho do norte, o Líbano. O trágico
é que, por mais justas e embasadas que sejam as razões para disparar
os canhões, quando eles começam a vomitar fogo o inferno se instala
e consome igualmente vidas inocentes e de combatentes. Em sua terceira semana,
o conflito entre Israel e a milícia do Hezbollah, o "Partido de Deus",
parece estar apenas no começo. Apesar do nome, o Hezbollah nada tem de
sagrado. É uma falange sanguinária montada com dinheiro do Irã
e armas fornecidas pela Síria. Seu objetivo imediato é matar israelenses,
sendo-lhes indiferente se os alvos são civis ou militares. Seu objetivo
final é converter ou matar todos os que não pensem como seus líderes.
O duplamente trágico no atual estágio da guerra iniciada por Israel
deriva do fato de que, mesmo sem ser esse seu objetivo, as ações
militares de Israel estão matando civis inocentes e, aos olhos do mundo,
os justos começam a se assemelhar aos sicários que eles se propuseram
a punir. O número de mortos
cresce, e não existe até agora um claro vencedor. Os civis pagam
o preço mais alto. Pelas estimativas da sexta-feira passada, 800.000 libaneses,
numa população de 4 milhões, foram forçados a abandonar
suas casas e mais de 400 foram mortos. As cidades costeiras de Tiro e Sidon estão
abarrotadas com mais de 100.000 refugiados. Israel sofre também, ainda
que seu total de mortos seja dez vezes menor que o libanês. Ao menos 2.300
mísseis e foguetes lançados pelo Hezbollah já caíram
em cidades e povoados israelenses, obrigando mais de 1 milhão de pessoas
a procurar os abrigos antiaéreos. O balanço desproporcional em número
de vítimas e nas dimensões da destruição está
agora no centro de um complicado dilema ético que vai além do habitual
debate entre Israel e seus detratores. Diz respeito ao seguinte: uma guerra continua
justa se for lutada de modo sujo? Hassan
Ammar/AFP
 | INIMIGO
INVISÍVEL Foguete do Hezbollah é lançado de uma
base numa zona residencial de Tiro, no Líbano: a dificuldade de Israel em localizar
bases de lançamento pode prolongar o conflito |
Do ponto de vista das regras internacionais, todo Estado tem o direito e o dever
de preservar a vida de seus cidadãos de ataques externos. A ofensiva israelense
no território libanês é justa, ao menos no que diz respeito
a sua motivação. Se o Hezbollah atravessou uma fronteira internacional
e seqüestrou dois soldados (como fez três semanas atrás) e há
anos lança regularmente foguetes sobre as cidades israelenses, é
um direito de Israel usar a força para tentar eliminar esse grupo ou, pelo
menos, reduzir sua campanha terrorista. A moralidade da ofensiva torna-se nebulosa,
contudo, quando Israel usa bombas de fragmentação em áreas
populosas, ataca estradas e centrais elétricas que, apesar de terem algum
uso militar, são vitais para a população civil. A quase universal
compreensão com que o Estado judeu contou nos primeiros dias de confronto,
até mesmo em alguns países árabes, está agora virada
de cabeça para baixo. A mudança deve-se exclusivamente ao sofrimento
imposto à população do Líbano, da qual o Hezbollah
representa apenas uma ínfima parcela. Gil
Cohen Magen/Reuters
 | CONFLITO
MENTAL Soldado israelense descansa sobre um tanque
em Rosh Hanikra, próximo à fronteira com o Líbano: Israel teve perdas pesadas
nas primeiras batalhas em terra com o Hezbollah |
Pelas normas internacionais, a maneira de fazer uma guerra é considerada
justa quando preenche três requisitos: a resposta deve ser proporcional
à ameaça ou agressão, não se pode usar força
excessiva e os ataques têm de ser direcionados aos combatentes inimigos,
e não aos civis. A proporcionalidade de um conflito não é
julgada apenas pela agressão sofrida. Há dois outros fatores igualmente
importantes. O primeiro são as dimensões da ameaça (a chuva
de foguetes e mísseis lançados contra o território israelense
dá a dimensão do enorme perigo representado pelo Hezbollah). O segundo
leva em conta a destruição que a guerra causa, em comparação
aos benefícios que pode trazer. Se o Hezbollah for destruído ou
contido, argumentam os israelenses, os benefícios serão enormes.
Não apenas para Israel, mas também para o Líbano e para os
outros países da região, ameaçados pelo extremismo islâmico
patrocinado pelo Irã. Andreas
Solaro/WPN
 | ESPERANÇA
ADIADA Condoleezza Rice e o premiê libanês Fouad
Siniora: sem acordo em Roma |
A questão da proporcionalidade cobre apenas uma parte da discussão
ética. Desde o fim da II Guerra, o mundo tem colocado ênfase na diplomacia
e na jurisprudência para a solução de litígios. O conceito
moderno é que a guerra deve ser o último recurso, depois de todos
os outros terem se esgotado. Uma série de acordos internacionais
a Convenção de Genebra é a mais conhecida tenta colocar
ordem numa questão que já era discutida nos tempos da conquista
da Gália por Júlio César: na guerra vale tudo? A resposta
ética é não. Mesmo que se entenda que o soldado, no meio
da balaceira, não hesite em usar sua arma mais poderosa, certas regras
separam a civilização da barbárie. As questões essenciais
são a imunidade do não combatente, a proteção aos
feridos e a garantia de bom tratamento aos prisioneiros. Tyler
Hicks/The New York Times
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Kevin Frayer/AP
 | SOFRIMENTO
NO LÍBANO Os ataques aéreos israelenses
foram mais letais no sul do Líbano, região onde xiitas são
maioria. Em Tiro, o socorro à vítima de bombardeio (no alto)
e os destroços de escola religiosa mantida pelo Hezbollah (acima).
Abaixo, libanês carrega o corpo da filha de 8 anos após identificá-la
em um hospital. A menina tinha sido morta num ataque aéreo dias antes.
| Mohammed Zaatari/AP
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Essas regras básicas surgiram no século IV, nas obras de Santo Agostinho,
que tratou do conceito da guerra justa de acordo com a moralidade cristã.
Quem transformou o assunto em uma questão de direito, lançando as
bases do que seria uma "lei da guerra", foi o jurista holandês Hugo Grotius,
no século XVII. Grotius defendeu a necessidade de alguma moderação
nos conflitos, recomendando práticas como a preservação das
riquezas arquitetônicas e obras de arte encontradas no território
inimigo e o cuidado com a vida dos civis. Se não respeitar essas regras,
Israel se igualará a seus inimigos, os terroristas. Na sexta-feira passada,
surgiu o primeiro fio de esperança: um plano de cessar-fogo proposto pelos
Estados Unidos e por outros países, que deverá ser submetido ao
Conselho de Segurança das Nações Unidas nesta semana. O resultado
dessa iniciativa depende de várias questões fundamentais, alinhadas
a seguir. O CULPADO
PELO COMEÇO DA GUERRA É O HEZBOLLAH
Nem sempre é fácil identificar o responsável por um novo
surto de violência no Oriente Médio. Na guerra no Líbano,
no entanto, há o consenso de que o Hezbollah bateu primeiro. Em 12 de julho,
seus guerrilheiros cruzaram a fronteira, mataram três soldados israelenses
e seqüestraram dois. Desde que se retirou do sul do Líbano, há
seis anos, o Exército israelense reagia com moderação às
provocações do Hezbollah.
A ESTRATÉGIA MILITAR DE
ISRAEL É DUVIDOSA O primeiro-ministro
Ehud Olmert persegue dois objetivos principais no Líbano. O primeiro é
usar o poderio aéreo para causar o maior estrago possível na estrutura
militar, nas vias de transporte e de comunicação do Hezbollah antes
de arriscar a vida de soldados israelenses em combates de infantaria. O segundo
objetivo é demonstrar de forma enfática o poder de fogo israelense,
de forma a persuadir o inimigo de que não vale a pena insistir em futuras
agressões. Ambas as metas esbarram no mesmo problema: a dificuldade de
derrotar uma força guerrilheira que conhece bem o campo de batalha e tem
o apoio da população.
O HEZBOLLAH, O HAMAS E A AL QAEDA
REZAM PELA MESMA CARTILHA O Hezbollah,
o Hamas e a Al Qaeda compartilham a abominável estratégia do homem-bomba.
Em princípio, esses movimentos radicais islâmicos querem a destruição
do Estado de Israel e a construção de Estados teocráticos.
Aí começam as diferenças. A Al Qaeda é um movimento
global, sem vínculos territoriais ou nacionais. Seu objetivo é um
califado mundial e a destruição de seu pior inimigo, a vertente
xiita do Islã. O Hezbollah representa a comunidade xiita do Líbano,
tem um braço político, com participação no governo
libanês, e outro social. O Hamas ganhou as últimas eleições
palestinas. Apesar da atual aliança tática e do inimigo em comum,
a tensão entre o Hamas e o Hezbollah é grande e reflete o profundo
racha dentro do mundo muçulmano. O Hezbollah é uma criação
dos aiatolás do Irã. O Hamas foi financiado pelos xeques sunitas
da Arábia Saudita, cujo maior inimigo são exatamente os xiitas iranianos.
RETIRADAS UNILATERAIS
FORAM UMA BOA IDÉIA, MAS NÃO DERAM CERTO
Israel deixou a faixa de segurança que ocupava no sul do Líbano
em 2000. No ano passado saiu da Faixa de Gaza, depois de 38 anos de ocupação.
O governo israelense promoveu todos esses recuos de forma unilateral. Resultado:
o Hezbollah, que passou dezoito anos combatendo a presença de tropas israelenses
no território libanês, saiu do episódio com pose de vencedor.
Desde então Israel assistiu impotente à corrida do Hezbollah para
construir bunkers, abrigos e armar-se com a ajuda do Irã. Na Faixa de Gaza,
sem os israelenses para combater, seis ou sete grupos armados passaram a lutar
uns com os outros, levando o caos à região. Hoje se vêem confirmadas
as previsões pessimistas dos críticos tanto da direita quanto da
esquerda israelense. ACORDO
NO LÍBANO É POSSÍVEL, MESMO SEM SOLUÇÃO PARA
A ENCRENCA PALESTINA Oficialmente,
Israel e Líbano estão em estado de guerra desde 1948. Ambos assinaram
o armistício de 1949, que estabeleceu as fronteiras entre os dois países.
Com uma grande minoria cristã e forte influência ocidental, o Líbano
pode ser considerado o menos hostil e o mais fraco vizinho árabe de Israel.
Na verdade, as invasões e os ataques israelenses nunca foram exatamente
contra o Estado libanês, mas contra o Estado dentro do Estado criado pelos
palestinos, em 1982, e agora contra o Estado dentro do Estado criado pelo Hezbollah.
O governo libanês sempre repete que será o último país
árabe a assinar a paz com Israel, para não ser acusado de traidor
pelos demais. Por sua vez, o Hezbollah condiciona a convivência pacífica
com os israelenses à solução do problema palestino. Objetivamente,
Israel e Líbano podem chegar a um compromisso em torno de assuntos concretos
sem um tratado formal de paz. A
GUERRA NO LÍBANO REFLETE A DIVISÃO NO MUNDO MUÇULMANO
Qualquer solução para afastar o perigo do Hezbollah provavelmente
teria o apoio de três influentes países de maioria sunita: o Egito,
a Arábia Saudita e a Jordânia. Os governos desses três países
apressaram-se, logo de início, a criticar o ataque do grupo xiita libanês
que deu início à guerra. O governo do Irã, de maioria xiita,
tem se empenhado em aumentar seu poder regional influenciando grupos da mesma
facção islâmica, como o Hezbollah, no Líbano, e os
políticos xiitas que atualmente dominam o governo iraquiano. Kevork
Djansezian/AP
 | P.Lpo.
Photographi Section
 | 2006 | 1982 | | O
ETERNO RETORNO. Estragos causados por bombardeio
israelense na periferia sul de Beirute na semana passada, à esquerda, e nos anos
80. |
O
EQUILÍBRIO CONFESSIONAL NO LÍBANO ESTÁ AMEAÇADO
O equilíbrio entre dezessete confissões religiosas era a grande
façanha daquele país até meses atrás. Agora, há
dúvidas se o delicado equilíbrio pode sobreviver à guerra
provocada pelo Hezbollah. No Líbano, há cinco subdivisões
entre os muçulmanos, e doze entre os cristãos. Um em cada dez habitantes
é refugiado palestino. Na guerra civil, que castigou o país de 1975
a 1990 e causou a morte de 150.000 pessoas, as rixas entre os grupos sectários
foram alimentadas por interesses externos. A Síria, os palestinos e Israel
tomaram partido e acabaram por participar diretamente do conflito. O acordo de
paz que pôs fim à guerra foi sacramentado por um líder carismático,
o primeiro-ministro Rafik Hariri, assassinado no início de 2005. Muçulmano
sunita, Hariri assumiu a chefia do governo em 1992. Sob o seu comando, Beirute
voltou a atrair turistas e investimentos estrangeiros. Sobrou uma encrenca sem
solução: todas as milícias foram desarmadas, exceto o Hezbollah.
TROPAS DE PAZ NUNCA DERAM CERTO NO ORIENTE MÉDIO
A proposta de cessar-fogo que
os Estados Unidos e outros países devem apresentar, nesta semana, ao Conselho
de Segurança das Nações Unidas prevê o envio de tropas
internacionais para o sul do Líbano. A missão dessas forças
seria ajudar o governo libanês a desarmar o Hezbollah e garantir a chegada
de ajuda humanitária. A solução é atraente mas de
difícil execução. Se a guerra parar agora, a guerrilha xiita
conserva boa parte de sua força militar e de seu prestígio popular
e político. Em outras palavras, só entregará as armas se
quiser. SÓ
A VITÓRIA INCONTESTE INTERESSA A ISRAEL
Israel embarcou nesta guerra para impor sua autoridade no sul do Líbano.
Seu objetivo é claro: destruir a capacidade ofensiva do Hezbollah de tal
maneira que o grupo leve anos para se recuperar e, de preferência, nunca
o faça. Que alternativa poderia ser considerada uma vitória para
Israel? Talvez um acordo de cessar-fogo para desarmar o Hezbollah aos poucos e
restituir ao Estado libanês o controle de todo o seu território.
Isso dificilmente poderia ser feito sem a supervisão de uma força
internacional e sem a concordância tácita da Síria.
SE O HEZBOLLAH VENCER A GUERRA, O ORIENTE
MÉDIO MUDA PARA PIOR Quanto
mais a guerra se estende e o número de baixas israelenses aumenta, mais
o Hezbollah ganha crédito como a única força árabe
a derrotar os israelenses. Se isso acontecer, será um desastre para o Oriente
Médio. Os terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica interpretariam
o sucesso do Hezbollah como se fosse deles próprios. Isso estimularia novos
atentados palestinos e o crescimento do extremismo islâmico na Jordânia,
no Egito e na Arábia Saudita, países aliados dos Estados Unidos.
O governo de Israel fez uma aposta pesada ao mergulhar tão fundo na guerra
contra o Hezbollah. Se fracassar, o mundo todo terá o que lamentar. David
Furst/AFP
 | David
Guttenfelder/AP
 | MORTES
EM ISRAEL Soldados conduzem os corpos de guerrilheiros
do Hezbollah para dentro das fronteiras de Israel. Eles podem ser usados em futura
troca de prisioneiros. Acima, judeus ortodoxos dançam perto da fronteira libanesa
para manifestar apoio aos soldados. Abaixo, soldados levam colega ferido em combate
no sul do Líbano para atendimento médico. | David
Furst/AFP
 |
ENTREVISTA "O
ataque do Hezbollah foi uma aventura inaceitável Andreas
Solaro/WPN
 | | Mallat:
candidato a presidente |
Advogado
especializado em direitos humanos, Chibli Mallat, 46 anos, é candidato
independente à Presidência do Líbano. Segundo as sondagens,
ele tem boas chances nas eleições previstas para 2007. Em entrevista
ao editor Diogo Schelp, Mallat analisa o conflito em seu país.
O
que fazer para acabar com essa guerra? Minha proposta é um plano
de cessar-fogo aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU. Precisaria oferecer
condições aceitáveis tanto para o governo israelense como
para o libanês. O primeiro passo seria a rendição do Hezbollah.
Os soldados israelenses seqüestrados seriam entregues ao governo libanês,
que por sua vez retomaria o controle total do território nacional. O cessar-fogo
entraria em vigor quando isso acontecesse e os soldados seqüestrados seriam
devolvidos a Israel. O segundo passo seriam negociações entre o
Líbano e Israel envolvendo vários temas. Alguns simbólicos,
como a libertação de libaneses presos em Israel. Outros são
mais complicados, como a definição de fronteira, o uso de recursos
hídricos e os refugiados palestinos. O terceiro passo estaria relacionado
aos países que se beneficiam com essa guerra: a Síria e o Irã.
Precisamos impedir que sabotem as negociações.
É realista pensar que o Hezbollah vá se render?
Sim. Cresce a opinião de que o Hezbollah não pode fazer todo o país
pagar por sua guerra. A maioria dos libaneses não apóia o Hezbollah
nesse conflito. O Hezbollah pode não concordar que o governo libanês
tome as rédeas da situação, mas ele está isolado.
Duvido que seus líderes queiram assumir o risco de alienar o resto da população
libanesa. O Hezbollah teria
justificativa para existir sem a luta contra Israel? Sim. O Hezbollah
tem duas facetas. Uma é a revolucionária, que age à margem
do Estado, como faziam os movimentos esquerdistas dos anos 60. A outra é
a faceta política, com membros no Parlamento e ministros no governo. O
grupo tem muito a perder com a guerra, pois não é uma pequena célula
guerrilheira sem compromisso com nada. Por isso, os ataques contra os soldados
israelenses foram, na minha opinião, uma aventura inaceitável.
É possível uma negociação
entre o Líbano e Israel que exclua a Síria? Não é
fácil. A Síria e o Irã financiaram o Hezbollah e têm
razões e meios para boicotar qualquer tentativa de acordo. Mas certas coisas
podem ser usadas como moeda de troca com a Síria. Os sírios querem
as Colinas de Golã, ocupadas por Israel. Poderiam pedir para incluir esse
assunto nas negociações. É
possível negociar com o Hamas ou o Hezbollah? São situações
diferentes. Na minha opinião, é errada a postura de Israel, da União
Européia e dos Estados Unidos de não conversar com o Hamas. Afinal,
ele governa a Autoridade Palestina. A questão Israel-Palestina, no entanto,
é tão intrincada que eu não consigo sequer pensar em uma
solução. O caso do Hezbollah é, de certa forma, mais simples.
O Hezbollah não quer negociar com Israel, quer que o governo libanês
o faça. Israel com certeza adoraria negociar com o governo libanês.
A dificuldade é que, do jeito que as coisas estão, as conversações
não podem ser feitas diretamente, precisam da intermediação
das Nações Unidas. Como
está a relação das diferentes facções religiosas
do Líbano com os xiitas? Há muita tensão. Do ponto
de vista sectário, religioso, os sunitas, os drusos e os cristãos
estão todos contra o Hezbollah e os xiitas. Muitos, sou obrigado a dizer,
gostariam que Israel vencesse. Afinal, o Hezbollah nos arrastou para uma guerra
que não queremos e estão continuando com ela. Ninguém foi
consultado. | |
ARTIGO/ALAN DERSHOWITZ O
conceito de reação razoável e a lógica do terrorismo Divulgação
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Nenhuma
democracia no mundo toleraria que mísseis fossem atirados contra seu território
sem tomar uma medida "razoável" para conter os ataques. A questão
levantada pela ação israelense no Líbano são os limites
desse "razoável". A resposta, de acordo com as leis da guerra, define como
"razoável" atacar alvos militares, fazendo todos os esforços possíveis
para reduzir o número de vítimas civis. Se não houver como
alcançar os objetivos predeterminados sem evitar essas baixas, o número
de vítimas deve ser proporcional à quantidade de pessoas que teriam
sido atingidas caso não houvesse uma ação militar preventiva.
Em Israel, a força aérea,
as instalações nucleares e as bases militares estão localizadas
em lugares remotos, longe de tudo e de todos. Seus inimigos conseguiriam atacar
alvos militares israelenses sem causar "danos colaterais", ou seja, sem atingir
a população civil. Já o Hezbollah e o Hamas colocam intencionalmente
suas forças militares para operar muito próximas a áreas
densamente povoadas. Lançam mísseis para fazer o máximo possível
de vítimas civis entre os israelenses e, em seguida, escondem-se das retaliações
em meio à população civil. Se Israel decide não perseguir
os terroristas para não ferir inocentes, os primeiros saem ganhando. Continuam
livres para atacar os israelenses com foguetes. Se Israel ataca, causando vítimas
civis, os terroristas saem vitoriosos no campo da propaganda: a comunidade internacional
condena Israel por sua resposta "desproporcional". Esse coro encoraja os terroristas
a continuar a operar em áreas habitadas por civis.
Enquanto Israel faz tudo o que é razoável para minimizar as mortes
entre os civis nem sempre com sucesso , o Hezbollah e o Hamas querem
produzir o máximo de baixas dos dois lados. Os terroristas islâmicos,
como disse um diplomata há alguns anos, "são mestres na complicada
aritmética da dor... tanto as vítimas palestinas quanto as israelenses
servem à sua causa". O uso de civis como escudos e espadas requer uma reavaliação
das leis da guerra. Diferenciar combatentes de civis é fácil quando
os primeiros são parte de um exército uniformizado, que luta num
campo de batalha. No atual contexto, é mais complicado. Se existisse uma
linha contínua na qual pudéssemos classificar os civis, em um dos
extremos estariam os puros e inocentes bebês, reféns e outros
que não têm nenhum tipo de envolvimento com aqueles que instigam
o conflito. No outro extremo, os civis que abrigam terroristas, que os ajudam
a conseguir recursos e servem de escudo humano. No centro estariam aqueles que
dão apoio político ou espiritual ao terror.
As regras que regem a guerra e as considerações morais devem adaptar-se
a essas realidades. Uma analogia com as leis criminais americanas é elucidativa.
Se um ladrão de banco utiliza um refém para se proteger enquanto
atira nos policiais, esse ladrão é culpado de assassinato caso,
numa tentativa de fazê-lo parar, os policiais matem o refém acidentalmente.
O mesmo deveria valer para os terroristas que utilizam civis como escudos humanos
para atirar seus foguetes. Eles precisam arcar com a responsabilidade legal e
moral pelas vítimas civis, mesmo se a causa direta das mortes tiver sido
um foguete israelense. É preciso deixar Israel acabar a guerra que o Hamas
e o Hezbollah começaram, mesmo que isso signifique a morte de civis na
Faixa de Gaza e no Líbano. Uma democracia tem o direito de preferir a vida
de seus próprios inocentes civis à de um agressor. Especialmente
se os últimos são cúmplices de terrorismo.
O jurista americano
Alan Dershowitz é professor em Harvard | |
Esforços em vão
Quatro presidentes americanos se empenharam, com pouco sucesso, na busca de uma
solução para o conflito no Oriente Médio
Oded
Bality/AP
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JIMMY
CARTER
Ajudou Israel e o Egito a assinar o acordo de paz, em 1978
O QUE ACONTECEU:
Israel retirou-se da Península do Sinai e os dois países
estão em paz até hoje Divulgação
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RONALD
REAGAN
Enviou tropas de paz durante a guerra civil no Líbano
O QUE ACONTECEU:
241 soldados americanos foram mortos num atentado do Hezbollah, em 1983.
Com isso, os EUA abandonaram o país Bikem
Ekberzade/AP
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GEORGE
BUSH (pai)
Promoveu negociações entre Israel e os países árabes
em Madri, em 1991
O QUE ACONTECEU:
Ambos os lados solaparam as conversações, que não deram em
nada Jamison
C. Bazinet/AP
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BILL
CLINTON
Ajudou Israel e a OLP a assinar o reconhecimento mútuo em 1993
O QUE ACONTECEU:
A tentativa de um acordo definitivo fracassou em 2000, dando início
à segunda intifada | | |