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Edição 1967 . 2 de agosto de 2006

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Saúde
Nem ervas, nem agulhas

Não há provas de que os tratamentos
alternativos para a menopausa são
eficazes, diz um levantamento americano


Anna Paula Buchalla

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Sem evidências
Quadro: Tempo demais

Há exatos quatro anos, a terapia de reposição hormonal foi posta na berlinda. O maior estudo sobre o uso de hormônio sintético para o combate dos sintomas da menopausa estava em andamento quando teve de ser interrompido três anos antes do previsto. O motivo: descobriu-se que as doses extras de hormônio estavam associadas ao aumento dos riscos de infarto, derrame e câncer de mama. O medo fez proliferar uma espécie de mercado paralelo da reposição hormonal. De acupuntura a ervas, passando pelas terapias comportamentais, qualquer novidade que se definisse "natural" tornou-se bem-vinda. Na semana passada, porém, uma notícia caiu como uma ducha de água fria sobre os defensores das terapias alternativas: não há provas confiáveis da sua eficácia e segurança. É o que revela a maior revisão de estudos sobre tratamentos alternativos e complementares já feita. O levantamento, publicado na última edição da revista científica americana Archives of Internal Medicine, avaliou setenta pesquisas antes de concluir que é preciso ter cautela em relação a esses métodos. Isso quer dizer que a terapia de primeira linha dos sintomas da menopausa continua a ser a tradicional reposição hormonal à base de estrógeno e de progesterona. Mas com uma diferença bastante significativa em relação ao passado – agora, prescrevem-se doses baixíssimas de hormônios pelo menor tempo necessário. "Além disso, tornou-se consenso entre os médicos que a reposição deve começar aos primeiros sintomas da menopausa", diz o ginecologista César Eduardo Fernandes, da Sociedade Brasileira do Climatério.

O anúncio da Archives of Internal Medicine de que as terapias alternativas não têm eficácia nem segurança comprovadas não significa a sua condenação. Quer dizer apenas que os estudos feitos até agora são inconclusivos. De fato, a maioria deles é de qualidade duvidosa, por não abarcar um grande universo de participantes ou por ter curta duração – duas condições indispensáveis a pesquisas sérias. Diante disso, recomenda-se não abusar dos remédios ditos naturais. Se mal utilizados, eles podem ser tão tóxicos quanto medicamentos da medicina alopática. As únicas substâncias que se mostraram efetivas para aliviar as ondas de calor e os suores noturnos das mulheres às voltas com a menopausa foram as formuladas à base de soja. Mas elas agem de forma paliativa, sem grandes benefícios para o coração e os ossos. Recentemente, o Ministério da Saúde brasileiro aprovou o uso de uma para o tratamento do climatério. Fabricado pelo laboratório Janssen-Cilag, o Soyfit é indicado para mulheres com sintomas leves.

Estima-se que, com o aumento da longevidade, uma mulher passe um terço de sua vida enfrentando sintomas da menopausa. O fim da fertilidade, a secura vaginal, as ondas de calor, os suores noturnos, a insônia – tudo isso representa um período intenso e cheio de significados. Muitas mulheres se surpreendem com a severidade dos sintomas num momento em que elas ainda estão no auge da vida profissional ou mesmo cuidando de filhos pequenos ou adolescentes, que requerem dedicação. Isso só serve para agravar ainda mais o cansaço, a irritação e as mudanças repentinas de humor. Ao que tudo indica, as ocidentais sofrem mais com os efeitos da menopausa. São poucas as mulheres japonesas, coreanas e do sul asiático que amargam os efeitos deletérios dessa fase. Os pesquisadores acreditam que as diferenças se devem, em parte, à cultura e ao estilo de vida. Já se sabe, por exemplo, que o tabagismo e a obesidade aumentam a predisposição às ondas de calor, por razões ainda não bem entendidas. As fumantes, aliás, podem entrar na menopausa até três anos antes das não-fumantes.

Em paralelo às discussões sobre o que funciona ou não contra os sintomas da menopausa, há uma corrente de médicos que propõe uma forma mais saudável de encarar esse período da vida. Esses especialistas defendem a "desmedicalização" dos sintomas. Alegam que, como os desconfortos não duram para sempre, o melhor é prescrever remédios apenas para as pacientes com manifestações severas que limitam a rotina. Para as outras, uma dieta saudável e a prática regular de exercícios físicos bastariam. O difícil é convencê-las. Uma em cada quatro mulheres que abandonaram a reposição hormonal por causa da polêmica em torno da terapia voltou a tomar remédios. E cerca de metade das americanas passou a recorrer a métodos complementares e alternativos. Sinal de que a maioria não quer saber de agüentar o tranco.

 
 
 
 
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