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Brasil
Mais que um
santinho eletrônico
A guerra eleitoral já começou na
internet. E em alta temperatura

Marcelo Marthe
André Nazareth/Strana
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| Cesar Maia em ação com seu laptop: a disputa
eleitoral em ebulição na internet |
Na semana passada, o prefeito
do Rio de Janeiro, Cesar Maia, foi vítima da ação
de hackers. Circulou pela rede uma versão falsificada de
seu Ex-Blog espécie de diário remetido pelo
político aos cadastrados em seu site. A mensagem continha
denúncias sobre sua administração e supostos
planos do prefeito para atacar adversários políticos,
tudo conforme e-mails que teriam sido trocados entre Maia e seus
correligionários e que os hackers teriam obtido. Maia
tornou-se protagonista desse caso por ser um entusiasta da internet.
Ele é um pioneiro no uso da rede como ferramenta administrativa
e nas batalhas políticas. Até o fim do ano passado,
manteve um diário eletrônico concorrido. Por considerar
que a página o estava absorvendo demais, passou a editá-la
sob a forma do Ex-Blog. O episódio da semana passada dá
uma idéia da temperatura que a disputa eleitoral pode atingir
na internet nos próximos meses. "Com a proibição
de cartazes, outdoors e showmícios, a internet virou um canal
estratégico para os candidatos fazerem campanha, no bom e
no mau sentido", diz o cientista político Rubens Figueiredo.
A rede está livre da maior
parte das restrições que pesam sobre a propaganda
nos demais meios de comunicação. Um blog petista em
apoio à reeleição do presidente Lula traz,
por exemplo, vídeos vetados no horário partidário
na TV pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A internet tem, ainda,
a vantagem de ser uma ferramenta barata. "Ela eliminou os dois grandes
gargalos financeiros das campanhas: imprimir e distribuir material",
diz o especialista em marketing político Marco Iten. A rede
é um bom meio para atingir o público jovem, fatia
que ajuda decisivamente na propagação de informações
pelo boca-a-boca. A campanha da senadora Heloísa Helena à
Presidência dispõe de recursos limitados (o site de
seu partido, o PSOL, é tão precário que até
pouco tempo atrás nem sequer mencionava sua candidatura).
Mas seus partidários vêm driblando isso com a veiculação
de filmetes de propaganda no site de vídeos YouTube. Outro
campo de batalha é o Orkut. Na rede de relacionamentos, comunidades
pró e contra os candidatos medem suas forças. Até
a semana passada, a maior brigada pró-Lula ostentava menos
pessoas do que o grupo auto-intitulado "Eu odeio o Lula", com 48.000
membros.
O número de participantes
nas comunidades do Orkut serve como lembrete de que a internet ainda
tem penetração limitada no Brasil. Enquanto cerca
de 30 milhões assistem ao programa eleitoral gratuito na
televisão, um blog político bem-sucedido como o de
Cesar Maia tem público médio de 30.000 pessoas. Mas
as informações e opiniões ali veiculadas podem
repercutir e incomodar. Na quinta-feira passada, por determinação
de uma juíza eleitoral do Mato Grosso, a senadora petista
Serys Slhessarenko, suspeita de envolvimento no escândalo
dos sanguessugas, ganhou um direito de resposta no blog do jornalista
Ricardo Noblat. Os estragos causados pela guerrilha política
via internet podem perturbar mais ainda. Intimamente ligado à
polêmica sobre os e-mails de Cesar Maia, por exemplo, está
o blog Pero Vaz de Caminha, mantido por simpatizantes do prefeito,
cuja função básica é lançar provocações
ao candidato do PMDB ao governo carioca, Sérgio Cabral Filho.
Para livrar-se de seus ataques, Cabral acionou a Justiça
Eleitoral, que proibiu a veiculação da página
(mas ela continuava na rede até a sexta 28). Em reportagem
publicada na semana passada pela revista Veja Rio, que circula
com VEJA no Rio de Janeiro, Maia admitiu que alimenta a equipe do
Pero Vaz de Caminha com informações. O blog é
feito por partidários do prefeito abrigados numa certa JCM
sigla que seus coordenadores definem como Juventude Cesar
Maia, mas o próprio prefere chamar de Juventude Cidade Maravilhosa.
"Insisto: não criei e não administro o blog. Apenas
repasso as dezenas de notas que me chegam, sem nem sequer fazer
edição", diz o prefeito.
Na versão pirata do Ex-Blog
de Cesar Maia que circulou na semana passada, uma mensagem que seria
de autoria do político e uma página de internet anexada
a ela indicariam que ele é de fato o mentor de todos os ataques
realizados contra Sérgio Cabral. Os hackers que clonaram
o Ex-Blog divulgaram, ainda, trechos de um diálogo que demonstraria
a existência de uma funcionária-fantasma recebendo
vencimentos da Secretaria de Saúde carioca. "Bola n'água",
diz o prefeito. "Ela está há mais de um ano de licença
e sem vencimentos." Em outros e-mails, sugere-se que ele e seus
aliados planejaram formas pouco lisonjeiras de atingir Denise Frossard,
candidata ao governo do Rio pelo PPS e a quem Maia hoje apóia.
Maia afirma que a violação de sua correspondência
teria partido de "hackers-policiais" (da Polícia Civil carioca,
aponta ele) a serviço de "alguém importante do PMDB".
No momento, o caso é investigado pela Polícia Federal.
Apesar de tudo, Cesar Maia não pretende reduzir o seu uso
da internet. "Esse é meu meio de comunicação",
afirma. E cada vez mais políticos vão se juntar a
ele.
Com reportagem de Anna
Carolina Mello
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