|
|
Brasil 54
000 votos por dia É o que
Alckmin precisa conquistar até o dia 1º de outubro para chegar
ao segundo turno. Nos últimos quarenta dias, o tucano ganhou uma
média diária de 170 000 eleitores
 Marcelo
Carneiro e Camila Pereira
A
semana passada reservou uma boa notícia para Geraldo Alckmin. De acordo
com pesquisa Ibope divulgada na última terça-feira, o candidato
do PSDB conseguiu diminuir a distância que o separa do presidente Lula.
No início de junho, um levantamento do mesmo instituto dava 48% das intenções
de voto a Lula e apenas 19% a Alckmin. Na semana passada, o presidente continuava
na dianteira, mas com um índice menor (44%), e Alckmin subia para 27%.
Em valores porcentuais, a diferença entre os dois candidatos diminuiu 12
pontos. A partir desses dados, VEJA transformou as porcentagens em números
absolutos. O resultado mostra que, em um período de um mês e meio,
enquanto Lula perdeu 8,8 milhões de votos, o tucano conquistou 7,4 milhões
de eleitores 170.000 por dia. A performance não é suficiente
para abalar o favoritismo de Lula, mas sinaliza que a candidatura tucana conseguiu
embarcar em uma trajetória ascendente e diminuir bastante as chances
de o presidente liquidar a fatura já no dia 1º de outubro. Hoje, para
"cavar" um segundo turno, Alckmin precisa ganhar, em média, 54.000 votos
por dia menos de um terço do que vem conquistando diariamente, desde
o início oficial da campanha. Se mantiver esse número mínimo
de 54.000 votos diários, chegará ao dia 15 de agosto, quando estréia
o horário gratuito, precisando de 2,6 milhões de votos para alcançar
o segundo turno. Para conquistá-los usando só o tempo do programa
eleitoral (527 minutos, distribuídos entre os dias 15 de agosto e 28 de
setembro), Alckmin terá de ganhar 5.000 eleitores por minuto.
Os números da pesquisa Ibope tiveram ainda o efeito de esfriar a candidatura
Heloísa Helena. A candidata do PSOL, que tinha 6% das intenções
de voto na pesquisa anterior do mesmo instituto, apareceu com 8% uma oscilação
que não chega a ultrapassar a margem de erro da pesquisa. Em levantamento
anterior, do Datafolha, divulgado há duas semanas, a senadora por Alagoas
alcançava a marca de dois dígitos (10%) e registrava um crescimento
de 4 pontos porcentuais. Além de animarem a campanha do pequeno PSOL, os
números do Datafolha, na ocasião, ajudaram a difundir uma tese:
a de que a possibilidade de um segundo turno dependia do crescimento de Heloísa
Helena. O segundo turno ocorre quando a soma dos votos válidos do candidato
mais bem colocado no primeiro turno é menor que a dos demais concorrentes.
É evidente que, à medida que a senadora aumenta seus índices,
também diminui a distância que separa Lula dos demais candidatos.
É um erro, no entanto, supor
que a candidatura da musa do PSOL seja hoje o principal fator a determinar a existência
de um segundo turno. Uma análise das duas pesquisas mais recentes do Ibope
mostra que não foram os 2 pontos a mais de Heloísa Helena os responsáveis
pela aproximação entre os índices de Lula e a soma das intenções
de voto de seus adversários. No início de junho, essa distância
era de 20 pontos porcentuais. Na pesquisa da semana passada, ela havia diminuído
para 6 pontos porcentuais. Isso significa que, nesse período, a vantagem
de Lula sobre os demais candidatos encolheu 14 pontos 8 deles vieram da
subida de Alckmin e 4 da queda de Lula. Ou seja, a possibilidade de ocorrer um
segundo turno deve-se, sobretudo, ao crescimento do tucano nas pesquisas.
Para os integrantes da campanha de Heloísa Helena, os resultados do Ibope
foram particularmente frustrantes por um motivo: uma subida maior nesta fase poderia
servir de "colchão" para uma provável estagnação da
candidata a partir de 15 de agosto. É nessa data que terá início
o programa eleitoral na TV, no qual a senadora tem exíguos dois minutos,
contra quinze de Lula e 21 de Alckmin. "Para crescer, Heloísa Helena precisa
de mais visibilidade", diz o analista político Gaudêncio Torquato.
Já em relação à candidatura Alckmin, a expectativa
aponta para o sentido inverso. Como o tucano terá o maior tempo de TV entre
todos os candidatos, ele deverá aumentar de forma significativa seu índice
de conhecimento entre o eleitorado. Lula é conhecido por 95% dos eleitores
brasileiros, segundo pesquisa do Ibope feita em junho. Já o porcentual
de conhecimento de Alckmin está em 53%. Os comandantes da campanha tucana
contam com a ampliação desse índice para incrementar a candidatura
do ex-governador paulista. Os aliados de Alckmin também estão animados
com a possibilidade de que, num eventual e cada vez mais provável segundo
turno, a maior parte dos votos dados a Heloísa Helena sobre para o ex-governador.
Pelo último levantamento do Datafolha, 39% dos eleitores da senadora que
assumiram ainda não ter certeza de seu voto apontam Alckmin como segunda
opção. Apenas 21% afirmam que votariam em Lula.
Mas o Ibope também trouxe más notícias para o tucano. A pior
delas é que, no Nordeste, ele continua perdendo feio para Lula. Enquanto
o presidente descansa sobre 66% de intenções de voto, Alckmin tem
míseros 13 pontos. "Nosso desafio agora é fazer a máquina
dos partidos aliados no Nordeste ser acionada ainda antes do início do
programa de televisão", diz o senador Jorge Bornhausen, do PFL, um dos
principais comandantes da campanha tucana. Embora a candidatura de Alckmin ainda
encontre resistências mesmo entre aliados (a ex-governadora do Maranhão
pelo PFL, Roseana Sarney, por exemplo, declarou que insiste em se manter neutra
na disputa), os ventos favoráveis que vêm soprando em sua direção
animaram correligionários que, até recentemente, haviam manifestado
apoio apenas discreto a ela. É o caso do candidato à reeleição
para o governo de Minas, Aécio Neves. Quando foi à cidade de Governador
Valadares como pré-candidato, em maio, Alckmin patinava num patamar de
20% nas pesquisas. Aécio não pôde recebê-lo: estava
inaugurando uma obra em São João Del Rey. Há duas semanas,
quando o Datafolha já apontava a subida do tucano, o governador mineiro
encontrou tempo para acompanhá-lo no estado não uma, mas
duas vezes. Os milagres que as pesquisas não fazem. Com
reportagem de Renato Piccinin |