|
|
André
Petry Preconceito, o eleito
"Só
um cego não percebe que parte do eleitorado torce, sim, o nariz para
Lula com base em velhos preconceitos: porque é nordestino, porque
vendeu amendoim no porto, porque foi operário, porque passou lua-de-mel
em Poços de Caldas, porque é monoglota"
Num país em que já há preconceitos de sobra contra
negros, homossexuais, mulheres, pobres , devia ser crime de lesa-pátria
fazer demagogia com preconceito. Mas é o que está acontecendo agora
mesmo nas fileiras do PT de Lula e do PSDB de Geraldo Alckmin. Sabe-se que a turma
tucano-pefelista acha que bulir com preconceito pode render dividendos eleitorais
e, por isso, já andou chamando Lula de bêbado e vagabundo. Lula,
por sua vez, acha que apresentar-se como vítima de preconceito pode lhe
dar voto. Na abertura de sua campanha, começou a fazer esse jogo. No seu
primeiro comício de campanha, no Recife, reclamou dos "preconceituosos"
que andam por aí "transmitindo ódio". Dois dias depois, ao inaugurar
seu comitê eleitoral em Brasília, voltou a se dizer alvo do preconceito.
"Neste país, não existe a cultura de aceitar as pessoas que representam
outras camadas da sociedade", disse, numa óbvia referência a si próprio.
Os dois lados estão tomando
banho de demagogia. Só um cego
não percebe que parte do eleitorado torce, sim, o nariz para Lula com base
em velhos preconceitos: porque é nordestino, porque vendeu amendoim no
cais do porto, porque foi operário, porque passou lua-de-mel em Poços
de Caldas ou porque é monoglota, usa metáforas rudimentares e seu
português exibe uma lataria dolorosamente avariada. O tucano-pefelismo,
que não tem demonstrado pudor de jogar abaixo da cintura, trabalha justamente
aí. Fica atiçando esses preconceitos mais ou menos latentes e, depois,
entra numa torcida silenciosa para que se ampliem e acabem por ceifar alguns votinhos
de Lula. Tática rasteira. Agora,
quando Lula insinua que sua reeleição está sob risco por
causa do preconceito, dá até para gargalhar.
Ora, o pedaço preconceituoso do Brasil, seja qual for seu tamanho, perdeu
na eleição de 2002. Ali, ficou provado que o eleitorado brasileiro
era, sim, capaz de eleger um nordestino, retirante, ex-operário e com pouco
estudo, numa manifestação democrática como poucos povos foram
capazes de promover no mundo. Na disputa eleitoral, Lula deu um baile, com quase
20 milhões de votos de vantagem sobre o tucano José Serra, cuja
biografia é quase um antídoto aos preconceitos socioeconômicos.
Então, o que aconteceu? Por que o mesmo país que não foi
preconceituoso em 2002 seria preconceituoso agora?
A resposta é simples: a ameaça à reeleição
de Lula, pelo menos à sua reeleição já no primeiro
turno, não tem nada a ver com preconceito. Tem a ver com mensalão,
organização criminosa, enriquecimento de Lulinha, valerioduto, propina,
caixa dois. Em suma, tem a ver com toda a bandalheira que o governo de Lula hospedou,
e promoveu, e sobre a qual o presidente não teve a coragem de falar com
a sociedade. Até hoje. Então,
é bom não se deixar enganar: há os preconceituosos que se
aproveitam da falência ética de Lula para reforçar um preconceito
que já existe e há os eticamente falidos que se aproveitam
do preconceito latente para se apresentar como anjos injustiçados. Os demagogos,
como sempre, estão todos simulando virtudes. |