Um
filósofo explosivo
O alemão Friedrich Nietzsche morreu há
100 anos, mas continua a fazer barulho

Carlos
Graieb
"Eu
não sou um homem, sou dinamite": assim falou Friedrich Nietzsche,
e tinha completa razão. De todos os filósofos modernos,
ele foi, de longe, o mais explosivo. Política e psicanálise,
teologia e literatura, teatro e música popular as
mais diversas áreas da cultura têm estilhaços
de seu pensamento encravados nelas, como foco de polêmica
ou fonte de inspiração. Assim como é possível
encontrar referências a ele em tratados obscuros sobre metafísica,
também é possível vê-lo citado nos filmes
de Eddie Murphy e nas entrevistas de Caetano Veloso. Você,
por exemplo, certamente já esteve diante de uma idéia
de Nietzsche. Ou será que nunca ouviu frases como "Deus está
morto" e "Além do bem e do mal"? Cem anos depois de sua morte,
em agosto de 1900, Nietzsche está longe de ser uma figura
relegada ao passado. Ele não sai de cartaz, e basta uma visita
às livrarias brasileiras para se dar conta desse fato. Duas
novas traduções do filósofo alemão estão
chegando às prateleiras: Humano, Demasiado Humano (tradução
de Paulo César de Souza; Companhia das Letras; 349 páginas;
33 reais) e Crepúsculo dos Ídolos (tradução
de Marco Antônio Casanova; Relume-Dumará; 215 páginas;
15 reais). Além disso, há lançamentos sobre
sua obra de textos de apresentação, como Nietzsche,
do brasileiro Oswaldo Giacoia Junior, até estudos clássicos,
como Nietzsche Metafísica e Niilismo, do alemão
Martin Heidegger.
Afinal de contas, quais são as causas de tanto fascínio
por Nietzsche? De maneira bastante esquemática, talvez se
pudesse dizer que ele identificou a crise que se fazia sentir em
seu tempo e ainda hoje não se esgotou: o esgarçamento
das tradições, a perda de crenças ancestrais.
Mas, em vez de tentar mascarar essa situação, Nietzsche
decidiu levá-la às últimas conseqüências.
Em outras palavras, abraçou um projeto radical de crítica
de todas as esferas da cultura. Nietzsche não deixou repousar
nenhum fundamento da moral e da religião. Derrubou a noção
de verdade absoluta. Procurou trazer à tona o substrato de
pulsões e instintos subjacentes às ações
humanas (não é por acaso, aliás, que o pai
da psicanálise, Sigmund Freud, considerava Nietzsche um de
seus precursores). Realizada essa tarefa crítica, porém,
Nietzsche tentou propor novos valores. Era preciso encontrar outras
formas de viver ao homem ocidental.
Todos
esses temas aparecem nas obras em lançamento. Em Crepúsculo
dos Ídolos, escrito em 1888, ele anuncia, desde o princípio,
que o livro deve ser tomado como "uma grande declaração
de guerra" e seus alvos primários são os "mitos" da
metafísica, da religião e da moralidade. O texto começa
com um pesado ataque a Sócrates, o fundador da filosofia
ocidental. Datado de dez anos antes, Humano, Demasiado Humano
também tem um severo núcleo de crítica.
Foi nesse livro, por exemplo, que Nietzsche defendeu pela primeira
vez sua doutrina do perspectivismo, a idéia de que não
há verdades definitivas, apenas interpretações
sobre a realidade, condicionadas pelo ponto de vista de quem as
propõe. Por outro lado, já no subtítulo Nietzsche
anuncia que aquele é "um livro para espíritos livres".
Eles são aqueles que abandonarão as verdades herdadas,
em favor de uma vida de contínua experimentação
e aventura. É o lado "construtivo" de seu pensamento
e também o de mais forte apelo popular.
Citações
falsificadas Tão importante quanto os seus temas
foi o formato do pensamento de Nietzsche. Distante do estilo descarnado
de um Kant, por exemplo, ele se regozijava nas metáforas,
nos vôos de retórica e na musicalidade da língua
alemã. Por sua força literária Nietzsche influenciou
grandes escritores do século XX, como o austríaco
Rainer Maria Rilke, o francês Albert Camus e o alemão
Thomas Mann. Mas a questão estilística que sempre
levantou mais debates foi sua opção pelo aforismo.
Embora seus primeiros livros tenham sido escritos como dissertações,
a partir de Humano, Demasiado Humano ele optou por essa forma
curta, lapidar. E nunca mais a abandonou. Nietzsche era um inimigo
ardente dos grandes sistemas teóricos. "Desconfio de todos
os homens que têm sistemas", escreve ele em Crepúsculo
dos Ídolos. Em outras palavras, o pensamento fragmentário,
e muitas vezes contraditório, fazia parte de seu projeto
filosófico.
A
respeito de vários assuntos, Nietzsche defendeu o pró
e o contra. Não à toa, quase todos os movimentos culturais
e políticos concebidos no século XX se apropriaram
de idéias do filósofo. O exemplo mais célebre
é, sem dúvida, o do nazismo. Amparados em passagens
de seus livros que fazem um elogio da força, da virilidade,
da "vontade de poder", e ainda em páginas nas quais ele falou
de questões raciais e do judaísmo, muitos intelectuais
nazistas citaram Nietzsche à farta, adotando-o como uma espécie
de ideólogo. No curso das últimas décadas,
porém, diversos estudiosos mostraram que quase todas as citações
de Nietzsche feitas por nazistas foram falsificadas ou arrancadas
de seu contexto. Um exemplo clássico está no aforismo
475 de Humano, Demasiado Humano, em que Nietzsche ataca não
apenas o nacionalismo, mas também o anti-semitismo
dois dos principais pilares da política do III Reich. Recortado
e remontado, o texto sempre apareceu nos panfletos nazistas como
se afirmasse exatamente o contrário. Nietzsche, é
claro, não estava vivo para assistir a esse uso distorcido
de seus textos. Mas não é difícil imaginar
o que teria dito. Ele não queria discípulos, bem ou
mal intencionados. A lição mais importante de sua
obra é a de que é necessário pensar com independência.
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Nietzschiano
é
o que não falta
Sigmund
Freud teve em Nietzsche um precursor. O pai da psicanálise,
no entanto, não gostava de ler o filósofo. "Ele
me bloqueia", admitiu Freud
Para
o filósofo alemão Martin Heidegger, o autor
de
Crepúsculo dos
Ídolos pôs um
ponto final no
pensamento metafísico
O
romancista alemão Thomas Mann baseou sua obra-prima,
Doutor Fausto, na vida e na obra de Nietzsche: "Ele
foi um resumo do espírito europeu"
Caetano
Veloso se diz
um nietzschiano. Dois fãs já escreveram
uma tese estranhíssima sobre a
influência do filósofo
nas letras
do músico
Até
o comediante americano
Eddie Murphy,
quem diria, resolveu tirar uma casquinha de Nietzsche.
Ele o cita no filme Um Príncipe em Nova York
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