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A
agonia do Concorde
Tragédia
aérea na França deixa
rastro de dúvidas sobre o futuro
dos vôos supersônicos

Ricardo
Amorim
Reuters

O
desastre registrado por fotógrafos
amadores: o
fogo começou ainda com
o avião na pista e
provocou a sua queda sobre
o restaurante de um
hotel próximo a Paris
|
AP
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O
Concorde é um avião tão belo que nunca deixa
de ser notado quando cruza os ares. Na semana passada, essa admiração
produziu as imagens mais impressionantes já registradas de
um acidente aéreo. Em busca de ângulos privilegiados
do único supersônico de passageiros em operação,
fotógrafos e cinegrafistas amadores acabaram flagrando os
últimos momentos do vôo 4590 da Air France. Com as
turbinas em chamas, o pássaro desgovernado espatifou-se sobre
um pequeno hotel nos arredores de Paris. A tragédia matou
114 pessoas: 100 passageiros, nove tripulantes e cinco outras que
estavam no restaurante do Hotelissimo, um dois-estrelas localizado
na pacata Gonesse, a 15 quilômetros do centro da capital francesa.
O Concorde ia em direção a Nova York, aonde deveria
chegar três horas e meia depois de ter deixado o Aeroporto
Charles de Gaulle. Uma sucessão de problemas técnicos,
que começaram ainda no solo, provocou a primeira queda dessa
aeronave capaz de cruzar o Oceano Atlântico na metade do tempo
gasto pelos outros jatos. Foi o primeiro acidente com vítimas
fatais registrado nos 31 anos de história do Concorde. Além
de manchar a reputação do modelo, a tragédia
deixou um rastro de incerteza sobre esse projeto ambicioso saído
da prancheta de engenheiros franceses e ingleses na década
de 60.
As
primeiras análises da caixa-preta na qual estão registradas
as conversas entre o piloto e a torre de controle, além das
evidências deixadas no local do acidente, forneceram algumas
pistas para o esclarecimento dos motivos da tragédia. Na
aceleração para a partida, uma das quatro turbinas
começou a pegar fogo (veja quadro). A turbina vizinha
também entrou em pane. Com metade da força propulsora,
o avião perdeu a estabilidade num momento em que era impossível
abortar a decolagem. O piloto tentou uma alternativa de emergência,
conduzindo a aeronave para um aeroporto vizinho, o Le Bourget, a
6 quilômetros de distância. Antes de chegar ao destino,
o Concorde tombou para a esquerda e se espatifou sobre o Hotelissimo.
A remoção dos 114 corpos carbonizados levou quase
quatro dias e a maioria deles só poderá ser identificada
por meio de exames de DNA e da arcada dentária.
Os investigadores encontraram pedaços de borracha na pista
do Charles de Gaulle, indicando que pelo menos um dos pneus do Concorde
estourou quando ele se preparava para subir. Uma das hipóteses
para o fogo na turbina é que um fragmento de pneu tenha entrado
no motor e provocado as chamas. Não está descartada
também a possibilidade de um vazamento de combustível
ter causado o incêndio. Outro ponto que vai ser estudado é
o conserto do reverso de uma das turbinas, executado minutos antes
da decolagem. Utilizada para ajudar o processo de frenagem do avião
durante o pouso, a peça foi a mesma que provocou a queda
do Fokker 100 da TAM em outubro de 1996, na cidade de São
Paulo. O reparo feito às pressas no Concorde pode ter originado
a tragédia. No final de agosto, a comissão de investigação
dará o relatório final sobre o acidente que deixou
de luto a Alemanha e a França.
AFP
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AP
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AP
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O
que restou do bico do Concorde, o resgate
dos
corpos e a montanha de escombros: o
avião levava 100 passageiros e nove tripulantes
e no solo destruiu um prédio de dois
andares, matando outras cinco pessoas |
Até
a semana passada, o Concorde tinha um dos melhores retrospectos
de segurança do mundo aeronáutico. Curiosamente, na
segunda-feira 24, um dia antes do desastre, a história começou
a mudar. A British Airways, única companhia além da
Air France a operar esse tipo de aeronave, comunicou ter encontrado
microfissuras nas asas de seus sete Concorde, mas garantiu que isso
não coloca em risco os passageiros. As rachaduras realmente
nada tiveram a ver com o desastre francês, mas fazem parte
de uma macabra coincidência. Embora tenha representado um
notável marco tecnológico no fim da década
de 60, o avião nasceu fadado ao fracasso comercial. Para
recuperar o investimento de 3 bilhões de dólares no
projeto, o consórcio franco-britânico responsável
por sua construção precisava vender mais de 200 unidades.
Antes do início de sua operação comercial,
em 1976, já ficou claro que o modelo supersônico tinha
vocação para se transformar no grande mico da aviação
moderna.
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Aperto
supersônico
Pouco
espaço para os passageiros é compensado com
mordomias e ausência de turbulências
Na
altitude de 18 000 metros, o Concorde fica acima das nuvens
e das grandes correntes de ar. Por isso, o avião não
balança
O
Concorde tem um corredor estreito: são apenas 2,5 metros
de uma janela a outra. Suas poltronas têm 60 centímetros
de largura, bem menos do que o conforto oferecido na classe
executiva dos aviões comuns
Em
todos os aeroportos com serviço de Concorde, há
uma sala especial para os passageiros. Eles podem chegar com
apenas alguns minutos de antecedência do embarque e
são recepcionados com canapês e champanhe
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Graças
aos quatro beberrões motores Rolls-Royce instalados em suas
asas, o Concorde tem um custo operacional quatro vezes maior que
o dos jatos convencionais. Com a crise do petróleo, a maioria
das empresas que haviam feito encomendas pulou fora do negócio.
Só a British Airways e a Air France mantiveram os pedidos.
O resultado é que menos de vinte unidades foram vendidas.
Poucas rotas revelaram-se lucrativas. A linha que levava passageiros
do Rio de Janeiro para Paris deixou de operar em 1982, pois só
conseguia decolar com 40% de sua ocupação. E ainda
por cima, devido à limitada autonomia de vôo, o avião
era obrigado a fazer uma escala para reabastecimento em Dacar, no
Senegal. Restam hoje apenas duas linhas comerciais: ParisNova
York e LondresNova York. Por causa do alto preço das
passagens, cerca de 10.000 dólares, quase o dobro do cobrado
na classe executiva de um jato convencional, os vôos são
freqüentados apenas por turistas endinheirados, estrelas de
cinema, astros do rock e personalidades do esporte. O papa João
Paulo II já viajou, em maio de 1989, no mesmo Concorde que
se acidentou na semana passada.
O modelo foi desenhado numa época de tamanho entusiasmo com
a velocidade que se falava seriamente na criação de
linhas regulares de aviões para a Lua até o ano 2001.
Temerosos da concorrência tanto de americanos quanto de russos,
que investiam em projetos semelhantes, ingleses e franceses acabaram
se precipitando para lançar seu Concorde. Mesmo com a demanda
por vôos supersônicos abaixo do esperado, não
era possível aumentar a limitada capacidade de apenas 100
passageiros dos aviões. Para isso, seria preciso desenhar
um novo modelo. Foi um caso clássico de modelo bonito, porém
ordinário. Nos últimos anos, o consórcio formado
pelo governo francês e por empresas privadas até anunciou
que estava trabalhando na confecção de um Concorde
II. Ninguém acredita mais nisso, pois o sonho supersônico
anda na contramão das tendências modernas da aviação.
Fabricantes como a Boeing e a Airbus estão lançando
modelos cada vez mais espaçosos. Esses verdadeiros transatlânticos
dos ares têm capacidade para mais de 500 pessoas e lugar para
academias de ginástica, lanchonetes, cassinos e quartos privados,
entre outras mordomias. Ao contrário do que imaginam alguns,
não é o acidente da semana passada que vai condenar
o Concorde. Ele está se tornando obsoleto a partir do momento
em que a indústria do transporte aéreo concluiu que
apinhar o maior número possível de passageiros dentro
do avião é mais lucrativo que a rapidez do vôo.
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