A elite de
mãos ao alto
Ladrões
de terno e gravata fazem
a limpa num dos prédios mais seguros
de São Paulo, onde cada apartamento
custa 3 milhões de dólares

Alessandro
Duarte e Luísa Alcalde
Ricardo Benichio
 |
Mario Rodrigues
 |
Os
criminosos usaram
fitas adesivas
para amarrar
os moradores e
um martelo e um maçarico
alimentado por
botijões de gás e
de oxigênio para arrombar
cofres com
jóias e dólares.
Ao final, os bandidos
deixaram o
material não utilizado
na garagem
do edifício |
Até
a última sexta-feira, os moradores do Condomínio Villa
América, no bairro dos Jardins, em São Paulo, imaginavam
que pelo menos dentro de casa estavam a salvo da onda de assaltos
que assola as grandes cidades brasileiras. O Villa América
é um edifício de 27 apartamentos de alto luxo e parece
uma fortaleza residencial. Ali, divididos em turnos, vinte homens
armados fazem a segurança. A parte externa é monitorada
permanentemente por quinze câmaras. As cabines dos porteiros
e vigias são blindadas. O elevador é acionado por
meio de uma senha para cada apartamento. Como em edifícios
comerciais, a entrada de visitantes só é permitida
mediante a entrega de um documento de identidade. A preocupação
com a segurança é tão grande que, certa vez,
um técnico da Telefônica que trabalhava num poste em
frente ao Villa América foi parar na delegacia porque os
guardas suspeitaram de sua conduta.
Ricardo Benichio
 |
| Porta
da garagem do Villa América: os bandidos podem ter entrado
no porta-malas
do carro de
um morador |
Todo esse aparato não foi suficiente para impedir que quinze
homens encapuzados e vestidos com terno e gravata realizassem um
assalto espetacular no Villa América na madrugada de quinta
para sexta-feira. Os assaltantes estavam armados com metralhadoras,
pistolas e revólveres e comunicavam-se por rádio.
Até a noite de sexta-feira, a polícia ainda não
sabia como o assalto havia começado. Duas hipóteses
estavam sendo estudadas. "Das duas uma, ou um bandido rendeu algum
morador na rua e entrou escondido no porta-malas de um carro ou
houve ajuda de algum funcionário", diz a delegada Nair Silva
de Castro Andrade, responsável pelas investigações.
O que se sabe é que, às 4 horas da madrugada, os quinze
assaltantes já estavam dentro do prédio, haviam rendido
todos os funcionários e começaram a invadir os apartamentos.
Além do armamento pesado, os criminosos levaram um maçarico
alimentado por botijões de gás e oxigênio para
abrir os cofres. No assalto, ninguém foi machucado.
Regis Filho
 |
| O
Villa América abriga alguns dos maiores empresários
da cidade, como Ivoncy Ioschpe |
A polícia paulista não conseguiu ouvir todos os moradores
assaltados. Não tem, portanto, um levantamento do total roubado.
Mas os primeiros depoimentos recolhidos dão uma boa idéia
da limpa feita pelos ladrões. De um apartamento, saiu um
cofre inteiro. De outro foram levados dois relógios, um Cartier
em ouro branco e um Rolex, um anel de brilhantes com duas safiras,
um colar de pérolas e uma gargantilha de brilhantes, num
total estimado em 200.000 reais. Multipliquem-se
os valores levados deste único apartamento pelo número
de residências assaltadas e a quantia roubada em todo o prédio
pode chegar a 3 milhões de reais. Ou muito mais que isso.
Da garagem, ainda foram levados um Mercedes e o Gol de um dos porteiros.
Executado
com perfeição, do planejamento à fuga, o assalto
mostra que a ousadia dos bandidos chegou a um ponto tal que nem
as casas dos integrantes do topo da pirâmide social brasileira,
gente com todas as condições para pagar por segurança,
estão livres da criminalidade e da violência urbana.
O Condomínio Villa América, erguido há seis
anos, é um dos mais caros e luxuosos edifícios de
São Paulo. Ali, os apartamentos valem entre 2,5 e 3 milhões
de dólares, dependendo do andar. Entre os moradores, há
fortunas respeitáveis como o dono do grupo Iochpe, Ivoncy
Iochpe, o ex-presidente da rede de lojas de decoração
Artefacto, Albino Bacchi, e a ex-mulher do fazendeiro Olacyr de
Moraes, Edna. O empreiteiro Walduck Wanderley, dono do Mercedes
roubado na garagem e da construtora Cowan, de Belo Horizonte, uma
das maiores do país, mantém um apartamento no prédio
para se hospedar quando está em São Paulo. Cada morador
paga 6.000 reais mensais de condomínio.
Desse total, 40% são destinados às despesas com segurança.
Mario Rodrigues
 |
| Lírio
Parisotto, presidente
da Videolar:
salvo por não
ter atendido ao
interfone |
Os apartamentos têm cinco salas e cinco suítes espalhadas
por 750 metros quadrados. Só a suíte principal tem
110 metros quadrados, tamanho de um apartamento de três dormitórios
de classe média. Há obras de arte valiosas em quase
todos os apartamentos. O empresário Lírio Parisotto,
presidente da Videolar e morador do 22º andar do Villa América
desde sua inauguração, tem telas de Picasso, Portinari
e Di Cavalcanti nas paredes. No subsolo do prédio, ficam
uma piscina aquecida coberta por fibra de vidro e uma sala de ginástica
de dar inveja a algumas academias. No hall de entrada do Villa América,
feito de mármore importado e coberto de tapete vermelho,
os visitantes são recebidos por uma recepcionista bilíngüe.
Ao lado da garagem, repleta de automóveis Porsche, Mercedes
e BMW, há uma sala exclusiva para abrigar motoristas, dois
ou três em média por apartamento.
Roberto Loffel
 |
| Albino
Bacchi, ex-presidente
da loja de
decorações Artefacto,
mora na cobertura
dúplex: condomínio
de 8
000 reais |
Assim que furaram o bloqueio da segurança e entraram no condomínio,
por volta das 3h30 da madrugada, os criminosos correram para a sala
de monitoramento das câmaras do circuito interno de TV, renderam
o funcionário responsável por acompanhar os monitores
e o forçaram a chamar o gerente do condomínio, Romeu
Buch. O gerente foi obrigado então a ligar de apartamento
em apartamento com a desculpa de que haveria problemas na caldeira
e era necessário checar os registros e encanamentos. Quem
abria a porta tinha o apartamento invadido por seis homens. O grupo
se dividiu e assaltou várias residências ao mesmo tempo.
Os moradores eram levados para a garagem, onde ficavam sob a vigilância
de outros integrantes da quadrilha.
A
executiva Liziane Gurgel Rocha Kanne, moradora do 16º andar,
estava dormindo com o marido quando seu quarto foi invadido por
seis criminosos. Sua empregada abrira a porta enganada pela conversa
da pane na caldeira. Foi levada para junto dos outros moradores
na garagem com os filhos. "Os assaltantes pareciam muito profissionais",
conta a moradora. "Estavam calmos, eram educados e diziam o tempo
todo que não iam fazer nada conosco. Estavam bem vestidos,
não tinham jeito de drogados e evitavam mostrar armas para
as crianças. Eles nos amordaçaram e amarraram nossas
mãos e pés com fitas isolantes enquanto levavam as
coisas." Liziane não consegue entender como os ladrões
chegaram até ela. "O esquema de segurança do prédio
é até exagerado", diz. "Existem códigos para
uma pessoa passar de um ambiente a outro. Aqui, geralmente, nem
fruteiro entra para entregar nada."
Nelio Rodrigues
 |
| Walduck
Wanderley, dono da construtora Cowan: Mercedes roubado e já
encontrado |
Só escapou do assalto quem não atendeu ao chamado
do gerente. O empresário Lírio Parisotto foi acordado
pelo toque do interfone de madrugada. Mas preferiu não atender.
Por muito pouco, o apartamento do dono de uma das maiores empresas
de segurança do Brasil também não foi assaltado.
Manuel Correia Botelho, dono da Pires Serviços Gerais, mora
no 12º andar. Há dois meses em Portugal, Botelho deixou
o apartamento com a empregada Simone de Oliveira Loyola. O interfone
tocou insistentemente, mas Simone não atendeu. "Apesar de
toda a segurança do prédio fiquei desconfiada", diz
ela. "Era muito tarde para chegar alguém. Salvei a casa da
patroa."
Depois
de assaltar os quinze apartamentos em que o interfone foi atendido,
os bandidos fugiram levando o Mercedes e o Gol da garagem e um Fiat
Prêmio de um entregador de jornais que chegou na hora em que
se retiravam do prédio. Deixaram na garagem o maçarico
e os botijões de gás e de oxigênio. O assalto
foi comunicado à polícia em seguida, mas os assaltantes
já estavam longe. No meio da tarde de sexta-feira, o Mercedes
foi encontrado em Pirituba, Zona Norte da capital paulista. A polícia
trabalha com a hipótese de a quadrilha ser a mesma que assaltou
o prédio em que mora o jornalista Paulo Henrique Amorim,
em abril, e o shopping Eldorado, há quatro semanas. Os métodos
são parecidos. No primeiro caso, criminosos muito bem vestidos
e em grande número assaltaram andar por andar. No shopping
Eldorado, também foi deixado um maçarico. A quadrilha
seria formada por cinco ex-assaltantes de banco, que no último
ano se especializaram em assaltar condomínios de luxo. Como
nos filmes, o restante da quadrilha é cooptado a cada assalto.
Com
reportagem de Juliana Lopes e Rosana
Zakabi
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