Geral Sociedade

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Descoberta a 17a lua de Júpiter
A estação espacial ganha mais um módulo
Mais barata, a Maserati com tecnologia de Ferrari
Viciada distribui camisinhas e seringas a drogados
Presidente Prudente prepara atletas para Sydney
O sucesso de um vestido de Versace
Sapatos seguem a moda e só servem para uma estação
Nova espécie de dinossauro descoberta no Ceará
O senador Pedro Simon caminha 136 quilômetros
Stephen King vende livro por capítulos na rede mundial
Assalto cinematográfico em prédio de São Paulo
A queda do Concorde
Economia e Negócios
Guias
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura e Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

A elite de mãos ao alto

Ladrões de terno e gravata fazem
a limpa num dos prédios mais seguros
de São Paulo, onde cada apartamento
custa 3 milhões de dólares


Alessandro Duarte e Luísa Alcalde

 
Ricardo Benichio
Mario Rodrigues
Os criminosos usaram fitas adesivas para amarrar os moradores e um martelo e um maçarico alimentado por botijões de gás e de oxigênio para arrombar cofres com jóias e dólares.
Ao final, os
bandidos deixaram o material não utilizado na garagem do edifício

Até a última sexta-feira, os moradores do Condomínio Villa América, no bairro dos Jardins, em São Paulo, imaginavam que pelo menos dentro de casa estavam a salvo da onda de assaltos que assola as grandes cidades brasileiras. O Villa América é um edifício de 27 apartamentos de alto luxo e parece uma fortaleza residencial. Ali, divididos em turnos, vinte homens armados fazem a segurança. A parte externa é monitorada permanentemente por quinze câmaras. As cabines dos porteiros e vigias são blindadas. O elevador é acionado por meio de uma senha para cada apartamento. Como em edifícios comerciais, a entrada de visitantes só é permitida mediante a entrega de um documento de identidade. A preocupação com a segurança é tão grande que, certa vez, um técnico da Telefônica que trabalhava num poste em frente ao Villa América foi parar na delegacia porque os guardas suspeitaram de sua conduta.


Ricardo Benichio
Porta da garagem do Villa América: os bandidos podem ter entrado no porta-malas do carro de um morador


Todo esse aparato não foi suficiente para impedir que quinze homens encapuzados e vestidos com terno e gravata realizassem um assalto espetacular no Villa América na madrugada de quinta para sexta-feira. Os assaltantes estavam armados com metralhadoras, pistolas e revólveres e comunicavam-se por rádio. Até a noite de sexta-feira, a polícia ainda não sabia como o assalto havia começado. Duas hipóteses estavam sendo estudadas. "Das duas uma, ou um bandido rendeu algum morador na rua e entrou escondido no porta-malas de um carro ou houve ajuda de algum funcionário", diz a delegada Nair Silva de Castro Andrade, responsável pelas investigações. O que se sabe é que, às 4 horas da madrugada, os quinze assaltantes já estavam dentro do prédio, haviam rendido todos os funcionários e começaram a invadir os apartamentos. Além do armamento pesado, os criminosos levaram um maçarico alimentado por botijões de gás e oxigênio para abrir os cofres. No assalto, ninguém foi machucado.



Regis Filho
O Villa América abriga alguns dos maiores empresários da cidade, como Ivoncy Ioschpe


A polícia paulista não conseguiu ouvir todos os moradores assaltados. Não tem, portanto, um levantamento do total roubado. Mas os primeiros depoimentos recolhidos dão uma boa idéia da limpa feita pelos ladrões. De um apartamento, saiu um cofre inteiro. De outro foram levados dois relógios, um Cartier em ouro branco e um Rolex, um anel de brilhantes com duas safiras, um colar de pérolas e uma gargantilha de brilhantes, num total estimado em 200.000 reais. Multipliquem-se os valores levados deste único apartamento pelo número de residências assaltadas e a quantia roubada em todo o prédio pode chegar a 3 milhões de reais. Ou muito mais que isso. Da garagem, ainda foram levados um Mercedes e o Gol de um dos porteiros.

Executado com perfeição, do planejamento à fuga, o assalto mostra que a ousadia dos bandidos chegou a um ponto tal que nem as casas dos integrantes do topo da pirâmide social brasileira, gente com todas as condições para pagar por segurança, estão livres da criminalidade e da violência urbana. O Condomínio Villa América, erguido há seis anos, é um dos mais caros e luxuosos edifícios de São Paulo. Ali, os apartamentos valem entre 2,5 e 3 milhões de dólares, dependendo do andar. Entre os moradores, há fortunas respeitáveis como o dono do grupo Iochpe, Ivoncy Iochpe, o ex-presidente da rede de lojas de decoração Artefacto, Albino Bacchi, e a ex-mulher do fazendeiro Olacyr de Moraes, Edna. O empreiteiro Walduck Wanderley, dono do Mercedes roubado na garagem e da construtora Cowan, de Belo Horizonte, uma das maiores do país, mantém um apartamento no prédio para se hospedar quando está em São Paulo. Cada morador paga 6.000 reais mensais de condomínio. Desse total, 40% são destinados às despesas com segurança.


Mario Rodrigues
Lírio Parisotto, presidente da Videolar: salvo por não ter atendido ao interfone


Os apartamentos têm cinco salas e cinco suítes espalhadas por 750 metros quadrados. Só a suíte principal tem 110 metros quadrados, tamanho de um apartamento de três dormitórios de classe média. Há obras de arte valiosas em quase todos os apartamentos. O empresário Lírio Parisotto, presidente da Videolar e morador do 22º andar do Villa América desde sua inauguração, tem telas de Picasso, Portinari e Di Cavalcanti nas paredes. No subsolo do prédio, ficam uma piscina aquecida coberta por fibra de vidro e uma sala de ginástica de dar inveja a algumas academias. No hall de entrada do Villa América, feito de mármore importado e coberto de tapete vermelho, os visitantes são recebidos por uma recepcionista bilíngüe. Ao lado da garagem, repleta de automóveis Porsche, Mercedes e BMW, há uma sala exclusiva para abrigar motoristas, dois ou três em média por apartamento.



Roberto Loffel
Albino Bacchi, ex-presidente da loja de decorações Artefacto, mora na cobertura dúplex: condomínio de 8 000 reais


Assim que furaram o bloqueio da segurança e entraram no condomínio, por volta das 3h30 da madrugada, os criminosos correram para a sala de monitoramento das câmaras do circuito interno de TV, renderam o funcionário responsável por acompanhar os monitores e o forçaram a chamar o gerente do condomínio, Romeu Buch. O gerente foi obrigado então a ligar de apartamento em apartamento com a desculpa de que haveria problemas na caldeira e era necessário checar os registros e encanamentos. Quem abria a porta tinha o apartamento invadido por seis homens. O grupo se dividiu e assaltou várias residências ao mesmo tempo. Os moradores eram levados para a garagem, onde ficavam sob a vigilância de outros integrantes da quadrilha.

A executiva Liziane Gurgel Rocha Kanne, moradora do 16º andar, estava dormindo com o marido quando seu quarto foi invadido por seis criminosos. Sua empregada abrira a porta enganada pela conversa da pane na caldeira. Foi levada para junto dos outros moradores na garagem com os filhos. "Os assaltantes pareciam muito profissionais", conta a moradora. "Estavam calmos, eram educados e diziam o tempo todo que não iam fazer nada conosco. Estavam bem vestidos, não tinham jeito de drogados e evitavam mostrar armas para as crianças. Eles nos amordaçaram e amarraram nossas mãos e pés com fitas isolantes enquanto levavam as coisas." Liziane não consegue entender como os ladrões chegaram até ela. "O esquema de segurança do prédio é até exagerado", diz. "Existem códigos para uma pessoa passar de um ambiente a outro. Aqui, geralmente, nem fruteiro entra para entregar nada."


Nelio Rodrigues
Walduck Wanderley, dono da construtora Cowan: Mercedes roubado e já encontrado


Só escapou do assalto quem não atendeu ao chamado do gerente. O empresário Lírio Parisotto foi acordado pelo toque do interfone de madrugada. Mas preferiu não atender. Por muito pouco, o apartamento do dono de uma das maiores empresas de segurança do Brasil também não foi assaltado. Manuel Correia Botelho, dono da Pires Serviços Gerais, mora no 12º andar. Há dois meses em Portugal, Botelho deixou o apartamento com a empregada Simone de Oliveira Loyola. O interfone tocou insistentemente, mas Simone não atendeu. "Apesar de toda a segurança do prédio fiquei desconfiada", diz ela. "Era muito tarde para chegar alguém. Salvei a casa da patroa."

Depois de assaltar os quinze apartamentos em que o interfone foi atendido, os bandidos fugiram levando o Mercedes e o Gol da garagem e um Fiat Prêmio de um entregador de jornais que chegou na hora em que se retiravam do prédio. Deixaram na garagem o maçarico e os botijões de gás e de oxigênio. O assalto foi comunicado à polícia em seguida, mas os assaltantes já estavam longe. No meio da tarde de sexta-feira, o Mercedes foi encontrado em Pirituba, Zona Norte da capital paulista. A polícia trabalha com a hipótese de a quadrilha ser a mesma que assaltou o prédio em que mora o jornalista Paulo Henrique Amorim, em abril, e o shopping Eldorado, há quatro semanas. Os métodos são parecidos. No primeiro caso, criminosos muito bem vestidos e em grande número assaltaram andar por andar. No shopping Eldorado, também foi deixado um maçarico. A quadrilha seria formada por cinco ex-assaltantes de banco, que no último ano se especializaram em assaltar condomínios de luxo. Como nos filmes, o restante da quadrilha é cooptado a cada assalto.

Com reportagem de Juliana Lopes e Rosana Zakabi

Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Assalto de cinema

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco