O
milagre da capital
da velocidade
Numa pista esburacada do interior paulista
são forjadas as medalhas do atletismo
brasileiro em Sydney

Sérgio
Ruiz Luz, de Presidente Prudente
Fotos Antonio Milena
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treinador Jayme:
placas soltas
fazem da pista
um perigo |
Os
corredores americanos entraram na pista, no último domingo,
23, para definir os nomes da delegação dos Estados
Unidos nas Olimpíadas de Sydney, em setembro. O resultado
foi acompanhado com muito interesse na cidade de Presidente Prudente,
a 600 quilômetros de São Paulo. O lugar reúne
hoje a nata dos velocistas brasileiros com possibilidades de tentar
uma medalha nos Jogos da Austrália. Esse grupo comemorou
de forma discreta o surpreendente resultado da seletiva americana.
Ao tentar obter o índice para os 200 metros rasos, o superastro
Michael Johnson ficou no meio do caminho, literalmente. Caiu na
pista por causa de uma câimbra na coxa e teve de ser socorrido
por um médico. Outro bicho-papão da prova, Maurice
Greene, também não conseguiu cruzar a linha de chegada
por problemas físicos. "Sem a presença desses americanos,
a final dos 200 metros não tem mais favoritos", afirma o
técnico Jayme Netto Júnior, responsável pela
preparação dos corredores em Presidente Prudente.
"Nessa modalidade, podemos sonhar até com o primeiro lugar
do pódio."
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velocista Claudinei Quirino: chance de subir ao pódio
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Desde
os tempos do campeão olímpico Joaquim Cruz, o Brasil
não reúne uma geração tão talentosa
de corredores. A principal estrela é o paulista Claudinei
Quirino, 29 anos, especialista nos 200 metros rasos. Ele foi vice-campeão
no Mundial de Atletismo de Sevilha, disputado no ano passado. Atualmente
ocupa o segundo lugar no ranking internacional da competição.
A seu lado, em Presidente Prudente, treinam vários atletas
de peso. Um deles é André Domingos, 27 anos, outro
especialista nos 200 metros rasos. Domingos e Quirino também
são titulares da equipe brasileira no revezamento 4 X 100.
Falta ainda definir os dois nomes restantes para completar o time,
que é um dos favoritos a chegar ao pódio olímpico.
Uma dessas vagas deve ficar com mais um esportista preparado em
Presidente Prudente, o velocista Edson Ribeiro, 27 anos.
AP
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americano Michael
Johnson: contusão abre mais espaço para os brasileiros
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O fato de essa cidade do interior paulista ter forjado um time de
campeões intriga os especialistas do mundo inteiro. Nos últimos
meses, devido aos bons resultados obtidos pelos velocistas nos meetings
internacionais de atletismo, várias equipes européias
de televisão vieram conhecer as condições de
treinamento dos brasileiros. O espanto foi geral. A sala de musculação
utilizada por eles mais se parece com um depósito de ferro-velho,
com vidraças quebradas e pesos enferrujados. A pista em que
treinam é cheia de buracos. As placas que compõem
o piso se soltam com freqüência, produzindo resultados
desastrosos. Uma das vítimas foi o baiano Eronildes Araújo,
29 anos, que em 1997 rompeu o tendão de Aquiles ao correr
nessas condições. Ele é um dos favoritos na
prova dos 400 metros com barreiras em Sydney. Está recuperado,
mas preferiu mudar-se para São José do Rio Preto,
outra cidade do interior paulista. Agora é orientado a distância
pelo treinador Jayme Netto Júnior. Há anos os burocratas
do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp) prometem
liberar os 250.000 reais que faltam para
o início das obras de recapeamento do piso. O dinheiro nunca
saiu. "Rezo todos os dias para não me machucar aqui", afirma
Claudinei Quirino.
Antonio Milena
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| André
Domingos:
titular
do revezamento
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O
bom desempenho dos brasileiros, mesmo nessas condições,
deve-se em boa parte ao trabalho do técnico Jayme Netto Júnior.
Ex-competidor de decatlo, Netto treina atletas em Presidente Prudente
desde 1987. Auxiliado pelos bons laboratórios de avaliação
física da Universidade Estadual Paulista (Unesp), acabou
formando ali um centro de excelência capaz de atrair os melhores
velocistas do país. O restante do sucesso ocorre pela capacidade
de superação dos atletas. Claudinei passou a infância
num orfanato. No final do ano passado, por causa do fim de um namoro,
entrou em depressão profunda. Só recuperou a forma
e os bons resultados com tratamento psicológico. Edson Ribeiro
viu a mãe morrer atropelada na final da Copa de 1994. André
Domingos conheceu o pai recentemente, localizado no Canadá
pelo repórter Pedro Bassan, da Rede Globo. "Eles são
uns bravos", define o técnico Jayme Netto Júnior.
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