Entre
a vida e o vício
Mesmo
drogada, Fátima Machado
distribui seringas para conter a Aids

Sérgio
Ruiz Luz, de Porto Alegre
Fotos Edson Vara
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Depois
de fumar um baseado,
Fátima começa o trabalho: camisinhas e seringas
para os usuários
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No
final do expediente,
não resiste e cheira cocaína: "Quero me
sentir útil" |
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Antes de encarar seu trabalho noturno, a agente de saúde
Fátima Machado, gaúcha de 40 anos, queima um cigarro
de maconha. "Isso me dá tranqüilidade para segurar a
barra que vem pela frente", explica ela. Depois de se abastecer
com duas caixas amarelas repletas de camisinhas e seringas, ela
entra numa perua Kombi, que sai sacolejando pelos becos, favelas
e outros lugares miseráveis de Porto Alegre. Trata-se de
uma autêntica via-crúcis pelo inferno das drogas. A
cada noite, a missão de Fátima é localizar
na cidade os viciados que injetam cocaína no corpo para oferecer-lhes
agulhas descartáveis e preservativos. Numa das primeiras
paradas no roteiro realizado na madrugada da terça-feira
da semana passada, a agente entrou num terreno baldio para se encontrar
com o mecânico Danilo, 47 anos. Sob um frio de 5 graus, ele
dormia numa tenda feita com sacos de plástico. Havia acabado
de aplicar cocaína na veia. Diante da chegada da visita,
ainda meio cambaleante, acendeu um toco de vela e apanhou uma garrafa
de Coca-Cola contendo dezenas de seringas usadas. Com uma luva descartável,
Fátima recolheu o material e entregou ao mecânico um
novo lote de agulhas. "Não tento catequizar ninguém
sobre o risco das drogas, pois sofro do mesmo vício", conta
a agente, que, muitas vezes, cheira uma carreira de pó no
final do expediente. "A luta aqui é contra outra doença,
a Aids."
Dois
em cada dez doentes brasileiros pegaram o vírus HIV utilizando
seringas contaminadas. Fátima faz parte de uma brigada de
300 agentes de saúde que trabalham no país na tentativa
de quebrar esse ciclo. Os resultados têm sido bons. As pesquisas
indicam que 60% dos viciados que participam dos programas deixaram
de dividir seringas. O Ministério da Saúde fornece
as camisinhas e as agulhas descartáveis. E as prefeituras
e ONGs que organizam esse tipo de ação se encarregam
de pagar um salário de 150 reais a cada um dos voluntários.
Os programas estão se alastrando no país. Já
são 35 as cidades que adotaram o modelo. O de Porto Alegre
existe há quatro anos e é considerado o mais eficiente
do Brasil. A equipe comandada por Fátima Machado tem quinze
agentes que distribuem 12.000 seringas
por mês na capital gaúcha. Foi um dos projetos pioneiros
a contratar usuários e ex-usuários de drogas para
realizar o trabalho de campo. "Só eles conseguem aproximar-se
dos viciados", diz José Ribeiro Siqueira Domiciano, coordenador
do programa em Porto Alegre.
Fátima Machado cumpre há mais de três anos essa
rotina. Quando começou a trabalhar como agente, parou de
injetar cocaína na veia. Diz que o incentivo definitivo para
a mudança veio quando começou a freqüentar de
cara limpa os barracos fétidos onde as pessoas se drogam.
Na capital gaúcha eles recebem o apelido de "bretes". O nome
vem do local onde o gado é confinado para tomar vacina. Geralmente
é uma área suja e malcheirosa, com manchas de sangue
espalhadas por todo lado. "Quando vi o nível de degradação
dos viciados, senti que estava olhando para o espelho", conta Fátima.
No auge de seu período de loucura, ela comprou um revólver
38 e participava de assaltos para sustentar o vício. Acabou
passando três anos no presídio. Depois de sair da cadeia,
casou-se com um representante comercial e começou a ter uma
vida mais estável. Após algum tempo, porém,
o casal afundou-se nas drogas. O marido da agente morreu há
três anos, de Aids. Fátima foi contaminada e toma remédios
diariamente para conter a evolução do vírus
HIV. "O trabalho que realizo hoje com os outros viciados me ajuda
a esquecer os problemas", afirma a agente. "Só quem chega
ao fundo do poço sabe o quanto é importante a sensação
de estar sendo útil a alguém."
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