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Martírio na Índia

Os fundamentalistas hindus, que já atacaram
os muçulmanos, agora caçam os cristãos

A Índia é um país de profundas rivalidades religiosas, que com freqüência explodem em banhos de sangue e selvageria. A violência, na maioria das vezes, ocorre entre os hindus (80% da população) e os muçulmanos, que representam 14% do 1 bilhão de habitantes do país, o segundo mais populoso do mundo. Nos últimos meses, a intolerância religiosa tomou outro rumo. Desde o ano passado multiplicaram-se as agressões contra a minoria cristã (apenas 2%), com assassinatos de padres e pastores, rapto e estupro de religiosas e ataques a igrejas, cemitérios e escolas, que deixaram dezenas de feridos e um rastro de destruição. O último assassinato de grande repercussão ocorreu no início deste mês. Um padre jesuíta foi morto a tiros na cidade de Ranchi, no sul do país. No mês anterior outros dois padres foram assassinados e ocorreram cinco atentados a bomba a igrejas em três Estados, entre eles Goa, que foi colônia portuguesa até os anos 60 e abriga considerável comunidade católica. O episódio mais chocante aconteceu no ano passado: um missionário australiano foi queimado vivo com os filhos, de 8 e 10 anos, dentro do carro.

A violência contra os cristãos coincide com o avanço eleitoral do BJP, partido que defende a supremacia hinduísta. Desde o início do ano foram registrados ataques a cristãos em pelo menos oito dos 25 Estados indianos. Um relatório da Human Rights Watch, entidade americana de defesa de direitos civis, computou mais de 100 investidas contra cristãos desde que o BJP chegou ao poder, em 1998. O estudo acusa o governo de incitar a agressividade dos hindus contra a minoria cristã e diz que a Justiça demonstra certa condescendência com os extremistas. Na semana passada, um tribunal de Bombaim absolveu Bal Thacqueray, líder de outro partido hinduísta radical, o Shiv Sena, acusado da morte de 800 muçulmanos em conflitos religiosos ocorridos em 1992.

A intolerância religiosa é uma constante na História da Índia. Os ingleses, que colonizaram o país no século XIX, separaram as comunidades hindus, as muçulmanas e as das demais religiões. Garantiram uma paz relativa, mas aprofundaram as diferenças. Os pais da independência queriam criar um Estado laico, que abolisse as diferenças de castas e de religião. Não deu certo porque os militantes muçulmanos preferiram criar seu próprio país, o Paquistão. Seguiu-se uma transferência em massa da população de um lado para o outro, com 2 milhões de mortos. A sociedade indiana continua profundamente marcada e dividida pela religião. O próprio Gandhi costumava pregar valores hinduístas em seus discursos políticos, embora incluísse também citações do Corão e da Bíblia. Um país segmentado em castas, etnias e religiões, onde se falam 24 idiomas e que apresenta profundas desigualdades sociais, com 35% da população imersa em pobreza absoluta, a Índia tem sido um terreno fértil para a violência de toda natureza.

 

As vítimas da violência

O fanatismo é responsável pelo assassinato de importantes líderes indianos

Mahatma Gandhi, líder espiritual que ajudou a conquistar a independência do país, em 1947, foi assassinado um ano depois por um nacionalista no auge de conflitos entre a maioria hinduísta e a minoria muçulmana.

Indira Gandhi ocupou o cargo de primeira-ministra do país quatro vezes. Foi morta em 1984 por guarda-costas integrantes da seita sikh para vingar a invasão do Templo Dourado de Amritsar.

Rajiv Gandhi, filho de Indira e ex-primeiro-ministro, governou o país num período marcado por agitações étnicas. Foi assassinado durante a campanha política, em 1991, por separatistas da minoria étnica tâmil.

As indianas na passarela

AFP
Lara Dutta: miss Universo e futura atriz


A mesma Índia dos conflitos religiosos oferece agradáveis surpresas. Quem poderia imaginar que o país dominado por uma tradição religiosa e política tão puritana pudesse destacar-se como um campeão de vitórias em concursos de beleza? Pois a miss Universo 2000, eleita há duas semanas, é a indiana Lara Dutta. Nos últimos seis anos, cinco representantes da Índia arrebataram a coroa e o cetro de concursos de miss Universo ou miss Mundo, os dois mais prestigiados certames de beleza internacionais. Com esses resultados, a Índia já ameaça a primazia da Venezuela, outro país em que ganhar concurso de miss arrebata paixões de Copa do Mundo. Apenas uma geração atrás, a simples idéia de expor a beleza de uma mulher ao escrutínio público era considerada licenciosa. Hoje, o país faz o que pode para consagrar a beleza de suas mulheres. A despeito da oposição de grupos religiosos e de feministas radicais, os organizadores do concurso Miss Índia recebem milhares de inscrições de candidatas a cada ano. A triagem inicial deixa 600 no páreo e, depois de várias seletivas, trinta são escolhidas para a disputa final.

A beleza da mulher indiana pode ser explicada, em parte, pela estatística. Com 1 bilhão de habitantes, a segunda maior população do mundo, é natural que, descartando milhões de feias, ainda sobre muita beldade. O interesse crescente pela beleza operou transformações como o surgimento de academias de ginástica nas grandes cidades e a popularização das cirurgias plásticas. Fez ainda explodir o consumo interno de cosméticos, um mercado que movimenta 1,5 bilhão de dólares por ano. As vendas crescem à assombrosa taxa de 20% anuais, o dobro do previsto para os Estados Unidos e a Europa, regiões onde vive gente bem mais endinheirada. Como em qualquer parte do mundo, o sonho das misses indianas é virar modelo ou atriz. O mercado de atrizes também está em alta. A Índia é um dos maiores produtores de filmes do planeta. De modo geral, são obras açucaradas, com histórias banais, mas com enorme aceitação doméstica e entre as comunidades hindus de outros países, como a da Inglaterra, maior importador desses filmes. Hollywood que se cuide. O pólo indiano de cinema está produzindo em média 600 filmes por ano, uma indústria de 1,1 bilhão de dólares. Por isso, Bombaim, a sede das produtoras, é chamada de Bollywood. Ao sucesso no mundo do entretenimento soma-se o destaque como centro de excelência em computação. Suas universidades formam a cada ano 240 000 técnicos na área de informática. Muitos vão trabalhar em países carentes de mão-de-obra qualificada, como Alemanha e Estados Unidos. A Índia investe pesado na formação de cientistas, a ponto de figurar na lista de nações detentoras do Prêmio Nobel e de ter número de Ph.Ds. só inferior ao dos Estados Unidos.

 

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