Brasil FHC

Esta semana
Sumário
Brasil
Anatomia de um crime
As ligações de Eduardo Jorge com a construtora quebrada
O presidente não seguiu os ensinamentos de Maquiavel
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guias
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura e Castro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

As sucessivas mortes políticas do presidente
mostram que FHC infelizmente não assimilou
os ensinamentos do clássico O Príncipe


Mario Sabino

 
Ana Araújo
PASSADO E PRESENTE
O problema
de FHC não é ter renegado o que escreveu, mas ter esquecido o que leu tão bem

"A política é quase tão excitante como a guerra, e tão perigosa quanto ela. Na guerra, você pode ser morto apenas uma vez. Na política, várias." A frase é de Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês que morreu politicamente em algumas ocasiões, antes de ser entronizado como mito. Pois bem, deste ponto de vista o Brasil tem um presidente morto. Fernando Henrique Cardoso é, hoje, um espírito atormentado que busca reencarnar naquele governante do começo do primeiro mandato, por quem a maioria dos brasileiros nutria simpatia e até orgulho. Esta é a quarta morte política de FHC e também aquela da qual será mais difícil ele ressuscitar.

O presidente morreu politicamente por um breve momento em 1995, com a descoberta de que o então presidente do Incra, Francisco Graziano, mandou grampear o telefone do embaixador Júlio César Gomes, chefe do cerimonial da Presidência. O imbróglio deu a impressão de que o Palácio do Planalto era um ninho de cobras que se mordiam sem o conhecimento do dono do pedaço. Como a história não passou de briga de comadres com interesses escusos, a crise foi superada rapidamente. Um segundo falecimento, mais duradouro, ocorreu em 1998, com a divulgação do conteúdo das malfadadas fitas do BNDES. Gravações clandestinas de conversas do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, André Lara Resende, e do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, colocaram sob desconfiança o processo de privatização, do qual ambos eram os principais articuladores. O conteúdo dos diálogos, num dos quais aparecia a própria voz do presidente, dava a entender que o Planalto favorecia determinados grupos. Que a venda de estatais, pedra angular do governo, era um jogo de cartas marcadas. Mendonça de Barros e Lara Resende demitiram-se, mas ainda assim o episódio fez a popularidade de FHC despencar como um Concorde avariado.

Um ano atrás, a terceira morte. O então presidente do Banco Central, Chico Lopes, viu-se envolvido na suspeitíssima operação de salvamento dos bancos Marka e FonteCindam. Agora, no momento em que o presidente ensaiava renascer, graças ao sopro de vida dado pela recuperação da economia pós-crise cambial de 1999, eis que surge o fantasma de Eduardo Jorge a reconduzi-lo à morgue política. Segundo uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo, 45% dos entrevistados acreditam que a lama do caso EJ, como a imprensa o batizou, num paralelo com o caso PC, não suja apenas a ante-sala da Presidência da República. Acham eles que FHC está envolvido nas supostas irregularidades atribuídas a Eduardo Jorge. Por enquanto, não há prova alguma que incrimine o ex-assessor. Quanto ao presidente, não existem nem sequer fiapos de provas. Não importa. O que conta, para efeito de esfriamento político, é a percepção. O povaréu parece estar convicto de que, no mínimo, "o presidente deixa roubar", conforme a acusação oportunista produzida na semana passada pelo candidato Ciro Gomes.

Algumas constatações podem ser extraídas desse retrospecto. É espantoso verificar que o maior inimigo do governo é invariavelmente o próprio governo. Todas as crises políticas foram geradas em suas entranhas, dado que talvez também sirva para ilustrar a incompetência da oposição. Outro dado surpreendente é que um governo do PSDB se veja inscrito em capítulos de fisiologismo. Logo o partido que foi fundado por ex-peemedebistas que queriam livrar-se de quaisquer associações com a turma de Orestes Quércia, o ex-governador paulista que não consegue sair do limbo da suspeição. Por fim, reconheça-se a inaptidão de Fernando Henrique Cardoso para exercer o poder quando ele atravessa zonas de turbulência. Desenvolto sob céu de brigadeiro, basta que nuvens turvem o horizonte para que ele se recolha, como um tucano acabrunhado. Prefere que tudo se resolva por si, imaginando ser tal milagre possível, a fazer valer a força de seu cargo, seja para dissipar dúvidas sinistras, seja para punir de maneira exemplar os responsáveis por elas. Com isso, alarga ainda mais o fosso de interrogações que o distancia da nação.

O problema de FHC não é ter renegado o que escreveu, em seu namoro acadêmico com as teses socialistas, mas ter esquecido o que leu tão bem. O florentino Nicolau Maquiavel, por exemplo, autor de O Príncipe, clássico do pensamento político escrito no alvorecer do século XVI. O presidente é capaz de citar passagens do livro de cabeça, como aquela que recitou em maio de 1998, diante de uma platéia repleta de ex-chefes de Estado e empresários de alto coturno. "No momento das reformas, o político deve ser muito cuidadoso, porque os que melhor vão se beneficiar com as reformas ainda não sabem disso. E os que começam a perder sabem de imediato. Isso é Maquiavel", disse ele.

Houvesse FHC recordado passagens maquiavélicas na hora de escolher seus assessores, provavelmente não teria sofrido tantas atribulações. Há um trecho de O Príncipe, em especial, que não deveria ter saído jamais de sua cabeça. É o que diz: "Não é de pouca importância a um governante a capacidade de escolher os ministros – que são bons ou não, de acordo com a sabedoria do governante. E o primeiro julgamento que se faz da mente de um senhor é observando os homens que estão à sua volta. Quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputar sábio o governante, que os soube reconhecer capazes e fiéis. Mas, quando não o são, não é possível que se julgue bem o governante. Porque o primeiro erro que este comete está na escolha de quem o cerca".

 

Antídoto para o pessimismo

Está instalado em quatro prédios do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, um antídoto para quem começa a se desencantar com o Brasil dos dias atuais. A Mostra do Redescobrimento, a maior e mais pujante exposição de arte e cultura já montada no país, praticamente sem ajuda oficial, é uma revelação lisonjeira da alma nacional. Pronta para uma peregrinação por outras capitais brasileiras e pelos maiores museus do mundo, a exposição cobre 12.000 anos, exibindo desde fósseis da Idade da Pedra até obras de artistas contemporâneos. Entre as duas pontas, assiste-se a um desfile deslumbrante das manifestações artísticas que espelham a miscigenação da qual emergiu o Brasil, com as contribuições de imigrantes europeus, negros e índios. Nada retratou visualmente o país de forma tão abrangente e profunda quanto essa mostra. Ela exibe obras de coleções particulares e instituições públicas do mundo inteiro.

Visto pelo prisma daquelas 15.000 peças reunidas no Parque do Ibirapuera, o Brasil passou por um processo formativo bem mais sólido e complexo do que normalmente se pensa. Foi essa justamente a intenção dos organizadores da mostra, aglutinados em torno de Edemar Cid Ferreira, banqueiro e ex-presidente da Bienal de São Paulo, e do editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Nesse sentido educativo, a exposição é visita obrigatória para quem quer que se interesse pelas raízes e pelo destino do Brasil – porque um certo destino ali se insinua, a partir das demonstrações de exuberância, criatividade e mestiçagem. E muita gente está indo ver a alma brasileira na Mostra do Redescobrimento. Até a quarta-feira passada, 860.000 pessoas haviam comparecido à exposição desde que ela foi inaugurada, em abril. É o dobro da freqüência obtida pelas Bienais de São Paulo, realizadas no mesmo local. Até 7 de setembro, quando partes da mostra se transferirão para as outras capitais, terá facilmente ultrapassado 1,2 milhão de visitantes. No exterior, partes selecionadas da exposição serão exibidas em museus como o Guggenheim, de Nova York, o British Museum, de Londres, e o Jeu de Paume, de Paris.

Todas as manhãs, quarenta ônibus alugados pelos organizadores despejam nos salões do Ibirapuera 6.000 crianças trazidas de escolas públicas e mais de 1.000 moradores da periferia de São Paulo. À tarde, comparecem os pagantes. Há partes menos expressivas na mostra, como as ocupadas por material que imita a arte da moda em outros países. Há também seções com produções estrangeiras, como o esplendoroso módulo "O Olhar Distante", ocupado por artistas que retrataram o Brasil antigo e o moderno, como o holandês Frans Post, que pintou a primeira paisagem do país em 1637. Mas o grosso da exposição apresenta peças produzidas por brasileiros, de máscaras indígenas aos santos barrocos, passando até por uma estranha coleção de alto valor estético, com peças reunidas em sanatórios de doentes mentais pela psiquiatra Nise da Silveira, que integram o hoje famoso Museu de Imagens do Inconsciente, criado por ela em 1952, no Rio de Janeiro. O simples fato de uma mostra com essa complexidade e valor cultural ter sido montada no Brasil sem as trapalhadas da comemoração oficial dos 500 anos, em Porto Seguro, já seria por si só um contraponto saudável à sensação de que tudo no país, até a réplica da caravela de Cabral, parece destinado a vergonhoso naufrágio.

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco