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"A política é quase tão excitante como a guerra, e tão perigosa quanto ela. Na guerra, você pode ser morto apenas uma vez. Na política, várias." A frase é de Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês que morreu politicamente em algumas ocasiões, antes de ser entronizado como mito. Pois bem, deste ponto de vista o Brasil tem um presidente morto. Fernando Henrique Cardoso é, hoje, um espírito atormentado que busca reencarnar naquele governante do começo do primeiro mandato, por quem a maioria dos brasileiros nutria simpatia e até orgulho. Esta é a quarta morte política de FHC e também aquela da qual será mais difícil ele ressuscitar. O presidente morreu politicamente por um breve momento em 1995, com a descoberta de que o então presidente do Incra, Francisco Graziano, mandou grampear o telefone do embaixador Júlio César Gomes, chefe do cerimonial da Presidência. O imbróglio deu a impressão de que o Palácio do Planalto era um ninho de cobras que se mordiam sem o conhecimento do dono do pedaço. Como a história não passou de briga de comadres com interesses escusos, a crise foi superada rapidamente. Um segundo falecimento, mais duradouro, ocorreu em 1998, com a divulgação do conteúdo das malfadadas fitas do BNDES. Gravações clandestinas de conversas do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, André Lara Resende, e do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, colocaram sob desconfiança o processo de privatização, do qual ambos eram os principais articuladores. O conteúdo dos diálogos, num dos quais aparecia a própria voz do presidente, dava a entender que o Planalto favorecia determinados grupos. Que a venda de estatais, pedra angular do governo, era um jogo de cartas marcadas. Mendonça de Barros e Lara Resende demitiram-se, mas ainda assim o episódio fez a popularidade de FHC despencar como um Concorde avariado. Um ano atrás, a terceira morte. O então presidente do Banco Central, Chico Lopes, viu-se envolvido na suspeitíssima operação de salvamento dos bancos Marka e FonteCindam. Agora, no momento em que o presidente ensaiava renascer, graças ao sopro de vida dado pela recuperação da economia pós-crise cambial de 1999, eis que surge o fantasma de Eduardo Jorge a reconduzi-lo à morgue política. Segundo uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo, 45% dos entrevistados acreditam que a lama do caso EJ, como a imprensa o batizou, num paralelo com o caso PC, não suja apenas a ante-sala da Presidência da República. Acham eles que FHC está envolvido nas supostas irregularidades atribuídas a Eduardo Jorge. Por enquanto, não há prova alguma que incrimine o ex-assessor. Quanto ao presidente, não existem nem sequer fiapos de provas. Não importa. O que conta, para efeito de esfriamento político, é a percepção. O povaréu parece estar convicto de que, no mínimo, "o presidente deixa roubar", conforme a acusação oportunista produzida na semana passada pelo candidato Ciro Gomes. Algumas constatações podem ser extraídas desse retrospecto. É espantoso verificar que o maior inimigo do governo é invariavelmente o próprio governo. Todas as crises políticas foram geradas em suas entranhas, dado que talvez também sirva para ilustrar a incompetência da oposição. Outro dado surpreendente é que um governo do PSDB se veja inscrito em capítulos de fisiologismo. Logo o partido que foi fundado por ex-peemedebistas que queriam livrar-se de quaisquer associações com a turma de Orestes Quércia, o ex-governador paulista que não consegue sair do limbo da suspeição. Por fim, reconheça-se a inaptidão de Fernando Henrique Cardoso para exercer o poder quando ele atravessa zonas de turbulência. Desenvolto sob céu de brigadeiro, basta que nuvens turvem o horizonte para que ele se recolha, como um tucano acabrunhado. Prefere que tudo se resolva por si, imaginando ser tal milagre possível, a fazer valer a força de seu cargo, seja para dissipar dúvidas sinistras, seja para punir de maneira exemplar os responsáveis por elas. Com isso, alarga ainda mais o fosso de interrogações que o distancia da nação. O problema de FHC não é ter renegado o que escreveu, em seu namoro acadêmico com as teses socialistas, mas ter esquecido o que leu tão bem. O florentino Nicolau Maquiavel, por exemplo, autor de O Príncipe, clássico do pensamento político escrito no alvorecer do século XVI. O presidente é capaz de citar passagens do livro de cabeça, como aquela que recitou em maio de 1998, diante de uma platéia repleta de ex-chefes de Estado e empresários de alto coturno. "No momento das reformas, o político deve ser muito cuidadoso, porque os que melhor vão se beneficiar com as reformas ainda não sabem disso. E os que começam a perder sabem de imediato. Isso é Maquiavel", disse ele. Houvesse FHC recordado passagens maquiavélicas na hora de escolher seus assessores, provavelmente não teria sofrido tantas atribulações. Há um trecho de O Príncipe, em especial, que não deveria ter saído jamais de sua cabeça. É o que diz: "Não é de pouca importância a um governante a capacidade de escolher os ministros que são bons ou não, de acordo com a sabedoria do governante. E o primeiro julgamento que se faz da mente de um senhor é observando os homens que estão à sua volta. Quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputar sábio o governante, que os soube reconhecer capazes e fiéis. Mas, quando não o são, não é possível que se julgue bem o governante. Porque o primeiro erro que este comete está na escolha de quem o cerca".
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