
O
petista João Coser afirma que 72 obras
irregulares receberam verbas públicas
nos últimos anos

Flamínio
Fantini
Ana Araújo
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FALTA
CONTROLE
O
deputado João
Coser diz que
o país tem
controle débil
da execução do
Orçamento e precisa
de saídas para
estancar a
roubalheira de dinheiro
público
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Na volta do recesso do Congresso, nesta semana, o deputado federal
João Coser (PT-ES) vai procurar as principais lideranças
partidárias para propor uma providência que considera
decisiva. Ele quer descobrir um jeito de impedir que obras públicas
continuem a receber dinheiro do Orçamento mesmo depois de
levarem o carimbo de irregulares do Tribunal de Contas da União.
Advogado e técnico em contabilidade, com dois mandatos de
deputado estadual e dois de federal, o petista capixaba chegou a
essa encruzilhada por uma via singular. No segundo semestre de 1996,
Coser recebeu a incumbência de avaliar um dos capítulos
do Orçamento da União. Ficou encarregado de estudar
513 emendas contendo destinação de verbas. Uma delas
liberava 10 milhões de reais para o Fórum Trabalhista
de São Paulo, a obra mais controvertida dos últimos
tempos. Ele aprovou. A descoberta de que um petista havia emprestado
seu aval, sem saber, para liberar ainda mais dinheiro em benefício
da turma do juiz Nicolau dos Santos Neto aconteceu após a
tempestade em torno da assinatura que o presidente Fernando Henrique
Cardoso colocou sob iniciativa semelhante. Só que agora a
caneta era movida a tinta petista. Na semana passada, Coser concedeu
a VEJA a seguinte entrevista.
Veja
Como é que uma gangue consegue lesar os cofres
públicos em 169 milhões de reais, nas barbas das autoridades
todas da República, durante seis anos?
Coser
É difícil explicar, mas dessa história toda
fica uma lição importante para ser enfrentada imediatamente
o controle orçamentário é muito débil
no Brasil e o país precisa aprender a fiscalizar como é
gasto o dinheiro público. Certamente, houve no caso uma confluência
de interesses entre os três poderes, que, embora não
seja diretamente responsável pelo sumiço do dinheiro,
contribuiu para a situação. Pelo fato de a obra ser
considerada muito importante para a Justiça do Trabalho,
para o Executivo e para a bancada federal de São Paulo, a
tarefa de liberação de recursos acabou sendo facilitada.
O Judiciário é bastante forte no Brasil e tem uma
capacidade de lobby e de pressão muito grande com o Executivo,
que, além dos recursos previstos no Orçamento, encaminhava
pedidos de créditos suplementares. O TST não fiscalizou
a obra, o governo federal não teve cautela na liberação
das verbas e o Congresso Nacional demonstrou que não possui
instrumentos de controle eficientes para combater a corrupção.
Veja
Por que a roubalheira prosperou?
Coser Um
dos aspectos mais graves é o fato de essa obra não
ter apresentado um valor final. Começou com um custo de 70
milhões de reais, e o Executivo repassou 230 milhões.
No meio, o TST autorizou o gasto do recurso, que ia direto para
uma conta bancária. Parou por aí, mas poderia ter
sido mais. Se a aberração não fosse descoberta,
isso poderia continuar um saco sem fundo. O pior é que isso
pode estar se repetindo pelo Brasil afora em dezenas de outras obras.
Veja E o Congresso nessa história?
Coser
O Congresso é extremamente vulnerável. Os instrumentos
de controle não só não protegem o cidadão
que paga imposto como também não protegem o parlamentar
que atua na Comissão do Orçamento. Nós precisamos
ter mais cuidado. Não é possível que os de
sempre, meia dúzia apenas, façam o Orçamento,
deixando que a desinformação predomine. O Congresso
está pecando porque o TCU, como órgão auxiliar,
precisaria ser mais ágil e nos municiar com mais rapidez
as informações têm chegado de forma lenta
e, às vezes, atrasadas, como em 1996. Naquele ano, elas só
vieram depois de votados os relatórios setoriais.
Veja O Executivo também teve uma atuação
frouxa, não é mesmo?
Coser
O Executivo tem a obrigação de fiscalizar, mas deu
a justificativa de que, por ser uma obra da Justiça, ele
simplesmente repassava o dinheiro. É insuficiente a resposta
o Executivo está pagando, tem a obrigação
de acompanhar, até porque foram solicitados créditos
suplementares. Eles tinham noção da quantidade de
recursos que estavam liberando.
Veja
Onde o sistema de controle falha mais?
Coser Falha
na falta de velocidade e capacidade do TCU em acompanhar todos os
investimentos. Além disso, o TCU pode também dar um
parecer político contrariando as informações
dos técnicos do tribunal. Falha em instrumentos mais eficientes
na elaboração do Orçamento para identificar
quais são as obras prioritárias. E falha num procedimento
elementar, simples. Se você é o aprovador dos recursos,
você tem de ter uma noção de valores finais
da obra, com princípio, meio e fim. No Brasil, isso não
existe.
Veja
Não existe um freio para tanto desvio?
Coser
Na teoria, sim. Mas na prática as obras irregulares continuam
recebendo verbas. A lei estabeleceu barreiras para liberação
de verbas do Orçamento. Entretanto, o governo federal continuou
a fazê-lo sem prestar contas ao Congresso. Fiz um levantamento
e constatei que, de 1997 a 1999, nada menos que 72 obras receberam
cerca de 620 milhões de reais, embora estejam sob suspeita
de irregularidades na avaliação do TCU. Um dos casos
é a ponte sobre o Rio Paraná, ligando São Paulo
a Mato Grosso do Sul, para onde foram mandados 185 milhões
de reais. A ponte não podia receber isso. A lei é
clara: só pode liberar o dinheiro depois que for consertada
a irregularidade apontada pelo TCU. Desde 1999 está vedada
a execução de obras com indício de irregularidade
o Executivo tem agora de vir ao Congresso para liberar caso
a caso.
Veja
Existe uma listagem dessas obras, que seja de domínio
público, de acesso aos parlamentares e autoridades?
Coser
Sim. A partir de 1997, os dados começaram a chegar a tempo
e incorporamos numa tabela anexa as obras indicadas como irregulares,
já julgadas pelo TCU. Apontamos também o que o Executivo
devia fazer antes de liberar os recursos. O relatório do
TCU fica à disposição de todos os deputados
e senadores, bem como do Executivo. Pode até haver falta
de vontade, mas não se pode alegar desconhecimento.
Veja Quais as conseqüências quando o TCU
alerta para a irregularidade e ninguém toma providência?
Coser O
risco é dar no que deu no TRT de São Paulo, uma obra
com valores muito acima dos normais.
Veja
Há um círculo vicioso entre os três
poderes para manter esse sistema de liberação de verbas?
Coser
Certo. A falta de informação é conveniente
para muita gente. O processo está montado de tal forma que
quem fica desprotegido é o país. Por exemplo, quando
uma bancada de um Estado quer fazer determinado lobby ou pressão,
usa dessa facilidade. Idem o Executivo e o Judiciário.
Veja O ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho
Ermes Pedro Pedrassani assinou um pedido de verba suplementar para
a obra de São Paulo, mas depois disse que achava "um pouco
difícil" ter assinado. Como o senhor vê esse comportamento?
Coser Uma
declaração como essa o desqualifica como presidente
do órgão máximo da Justiça do Trabalho
e demonstra falta de compromisso com o país. Quando recebe
as propostas dos tribunais regionais do trabalho, ele as analisa
em colegiado para encaminhar ao Congresso Nacional. Ele pode até
dizer que não sabia do superfaturamento, mas, como chefe
do tribunal, ele precisava ter noção do valor final
daquela obra.
Veja E a versão de que o presidente Fernando
Henrique Cardoso assinou sem ler uma mensagem de pedido de mais
verbas?
Coser Não
acredito. Foi uma resposta formal a um pedido político
o Judiciário tem uma capacidade de pressão muito grande.
FHC atuou no sentido de atender a uma pressão, a um lobby
do Judiciário, que no país tem muita força
e cujas obras continuam a todo o vapor.
Veja De onde vem essa força?
Coser Possivelmente
do poder deles de julgar. O presidente da República depende
muito do Judiciário, que consegue tudo o que quer no Executivo.
Veja
E como o senhor explica sua assinatura em um pedido de
verbas para o TRT-SP?
Coser
A obra não constava do relatório do TCU como irregular,
era prioridade máxima do presidente do TST, havia um pedido
publicado no Diário Oficial e havia o apelo da bancada.
Alocamos os recursos possíveis naquele momento, de 10 milhões
de reais.
Veja O senhor examinou 513 outras concessões
de verbas públicas naquele ano, junto com a do TRT de São
Paulo. Acha que fez um exame suficientemente profundo dessas liberações
de dinheiro público antes de assiná-las?
Coser
Não. Só trabalhamos com relatório do TCU. O
Congresso fica muito desprotegido nesse terreno.
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