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O homem do fundo do mar
Morre o francês
Jacques Cousteau, aquele que
ensinou gerações sobre o mundo submarino
Daniel
Nunes Gonçalves
Os cientistas marinhos
costumavam torcer o nariz para o explorador francês
Jacques-Yves Cousteau. Diziam que ele era superficial,
que não tinha objetivos nobres, como estudar a
morfologia escapular dos golfinhos, mas só
preocupações banais, como filmar uma orca comendo um
tubarão-martelo na Ilha de Vancouver, no Canadá.
Cousteau nunca perdeu tempo com críticas acadêmicas
como essas. Tinha mais o que fazer. Ele precisava
desatracar o Calypso, um caça-minas reformado e
equipado com um laboratório, e rumar para mais uma de
suas espetaculares viagens ao misterioso mundo do fundo
do mar. Gerações e mais gerações acostumaram-se com O
Mundo Submarino de Jacques Cousteau, documentário
feito para a TV cuja primeira exibição aconteceu em
1975. Quem não assistia fascinado àquele velhinho
narigudo, de olhos azuis, nadando entre cardumes de peixe
ou cercado de tubarões dentro de uma gaiola de ferro
submersa? Ou ainda a tripulação do Calypso
içando as velas diante da chegada de uma terrível
tempestade? A bordo do seu barco, Cousteau vivia
envolvido com desafios, fosse uma expedição entre
pingüins na Antártida ou uma viagem pelos rios da
Amazônia.
Na quarta-feira da semana
passada, Cousteau sofreu um ataque cardíaco e morreu.
Estava em casa, tinha 87 anos e vários planos. Um deles
era terminar seu livro de memórias, que vinha escrevendo
nos últimos vinte anos. O outro, e principal, era
construir o Calypso II, já que o Calypso
original naufragou no ano passado. Enquanto viveu,
Cousteau chamava atenção onde quer que estivesse.
"Era talvez o francês, mais famoso do mundo",
arriscou o presidente francês Jacques Chirac. Tão
importante para a oceanografia quanto o americano Carl
Sagan para a astronomia, Jacques Cousteau deixou farto
material de registro sobre seu trabalho. São oitenta
livros publicados em doze línguas e setenta filmes, a
maioria sobre o fundo do mar, que lhe renderam três
Oscar e três prêmios no Festival de Cinema de Cannes. O
primeiro deles foi O Mundo do Silêncio, rodado em
parceria com o cineasta Louis Malle. Na semana
passada, lia-se na página da Cousteau Society, na
Internet: "Jacques-Yves Cousteau se juntou ao mundo
do silêncio".
Quebrando vidraças --
Como sua principal preocupação era filmar o fundo do
mar, Cousteau acabava irritando a comunidade científica
com seus métodos. Acusavam-no de destruir sítios
arqueológicos e de ser um explorador mercenário. Para
transmitir um ar dramático a um documentário que
realizou sobre hipopótamos, certa vez, teria provocado
os animais até que reagissem e se revirassem nas águas
do rio onde estavam. Com o movimento, a imagem ficou,
digamos, mais selvagem. No filme O Mundo sem Sol,
ganhador do Oscar de melhor documentário de 1964,
Cousteau usou imagens do fundo do mar de Marselha num
trecho em que falava do Mar Vermelho. Na filmagem do
documentário Pepito e Cristobal, uma foca acabou
morrendo, provocando protestos dos ecoxiitas. Na
expedição à Amazônia, ficou famosa a história dos
peixes que eram filmados numa espécie de piscina de lona
instalada no convés do Calypso, já que as águas
dos rios da região eram barrentas demais.
A viagem à Amazônia foi uma de
suas principais expedições. Acompanhado de 28 homens,
percorreu 6.000 quilômetros de rios da região, tirou
75.000 fotografias, filmou as populações ribeirinhas,
os peixes-bois e nadou entre ariranhas. A missão durou
um ano e meio. Cousteau comandou expedições pioneiras
de mergulho, como uma próxima a Nice, feita na década
de 60. Para provar que o ser humano seria capaz de
realizar trabalhos pesados em grandes profundidades, ele
e mais seis homens passaram três semanas vivendo numa
base a 100 metros da superfície do mar, respirando
graças a uma mistura de oxigênio com gás hélio. Uma
proeza para a época.
Cousteau nasceu em 11 de junho
de 1910 na cidade de Saint-André-de-Cubzac, na região
vinícola de Bordeaux, sudoeste da França. Apaixonou-se
pelo mar quando o viu pela primeira vez, aos 4 anos de
idade. "O toque da água me fascinava todo o
tempo", costumava dizer. A outra paixão, o cinema,
surgiu quando ganhou sua primeira câmara, aos 13 anos. O
pequeno Cousteau nunca foi chegado aos estudos. Preferia
a arruaça. Chegou a ser expulso do colégio depois de
quebrar dezessete vidraças. Com 20 anos, entrou para a
escola naval, e sonhava trabalhar com aviação marítima
"para poder ver o mundo". Aos 40 anos, ele
deixou a Marinha, comprou o Calypso e passou as
quatro décadas seguintes desbravando o planeta.
Em uma viagem entre o Marrocos e
os Estados Unidos, Cousteau atravessava o Atlântico para
testar um sistema de propulsão a vento para o Calypso,
em 1983. Pegou tanta chuva e vento durante o trajeto que
o barco ficou encharcado e ele foi obrigado a dormir a
maior parte dos 38 dias que durou a aventura numa cama
molhada. Acabou sendo obrigado a interromper a
experiência, pois a vela não resistiu após a terceira
tempestade que pegou. Quando não estava singrando os
mares, Cousteau passava a maior parte do tempo na França
e gostava de guiar bons carros e comer em bons
restaurantes. Certa vez, falando ao jornal francês Le
Monde, Cousteau disse: "Na vida, há dois
fluidos vitais, a água e o dinheiro. Você deve usar os
dois".
Além de grande divulgador dos
segredos dos oceanos, Cousteau era um grande inventor.
Foi ele quem ajudou a criar o aqualung, aquele cilindro
de ar com pressão controlada que os mergulhadores levam
nas costas. Até o desenvolvimento do aqualung, também
chamado de scuba, em 1943, os mergulhadores só pulavam
na água com um pesado escafandro, que recebia oxigênio
bombeado a partir da superfície, vindo do navio. O
aqualung viabilizou o mergulho autônomo e amador. Além
dos cilindros, Cousteau participou da invenção do
microsubmarino, para uma pessoa só, e da câmara de
vídeo aquática.
Ativista ecológico --
Sua vida foi marcada por tragédias familiares. Em 1979,
um acidente com um hidroavião matou o filho mais novo,
Philippe, de 37 anos, seu maior colaborador, tido como
seu sucessor. Em 1990, morreu sua primeira mulher,
Simone, que o acompanhou em várias missões, de quem já
estava separado. Com seu outro filho, Jean-Michel,
Cousteau mantinha uma relação difícil. Num episódio
que acabou por separá-los por um bom tempo, Jean-Michel
montou um hotel nas ilhas Fiji com o nome Cousteau,
deixando o pai revoltado diante da exploração comercial
de seu sobrenome. O conflito com Jean-Michel foi parar na
Justiça e encerrou-se no ano passado, quando ficou
combinado que o hotel passaria a se chamar Jean-Michel
Cousteau.
As experiências pelo mundo
fizeram com que Cousteau criasse um discurso ecológico.
Ele gostava de dar entrevistas condenando a poluição
dos oceanos, a pesca predatória, a superpopulação
urbana e a destruição da camada de ozônio. Com o
tempo, tornou-se mesmo um ativista ecológico e abandonou
o posto de principal executivo do Conselho dos Direitos
das Gerações Futuras, do governo francês, em protesto
contra os testes nucleares no Atol de Mururoa, no
Pacífico.
Para que sua obra se
perpetuasse, o velho lobo-do-mar criou a Cousteau
Society, entidade sem fins lucrativos, fundada em Nova
York em 1974, com intenso trabalho ambiental e
científico. A equipe que o acompanhava nas viagens
continua em expedições, seja desbravando o Rio Amarelo
chinês, seguindo seu leito de barco, camelo e balão,
seja mergulhando no Lago Baikal, na divisa da Mongólia
com a Sibéria. E sua segunda mulher, Francine, promete
lançar o livro de memórias já nos próximos dias. Ela
garante que vai construir o Calypso II, como o
marido queria.

Copyright
© 1997, Abril S.A.
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