|
Receita
FederalNa boca do LeãoFisco faz blitz no maior grupo empresarial do Ceará
No início de 1996, o funcionário Eurico Alencar Araripe deixou o cargo de gerente da Norte Gás Butano, distribuidora de gás do maior grupo empresarial do Ceará, o Edson Queiroz, que pertence à família do deputado Edson Queiroz Filho, do PPB. Antes de ir embora da empresa onde trabalhara dez anos, o gerente Araripe, especializado em informática, esvaziou as gavetas e recheou uma mala com documentos e disquetes. Parecia até uma cena de rotina de saída de um funcionário antigo. Ao verificar que passara meses sem arrumar trabalho novo, o gerente Araripe decidiu bater às portas da Justiça com uma ação pedindo o pagamento de horas extras. A Norte Gás resolveu jogar duro, e o ex-funcionário contra-atacou. Há um mês, ele entregou seus arquivos à Procuradoria da República, em Fortaleza. Foi uma bomba. O procurador José Adonis de Sá examinou os documentos e espantou-se diante do que viu: havia ali suspeitas de fraude fiscal e sonegação da ordem de dezenas de milhões de reais por ano -- por vários anos consecutivos. Na terça-feira, uma tropa de trinta auditores da Receita Federal promoveu uma batida nas empresas de gás do grupo em cinco Estados, em busca de notas e documentos de contabilidade. O grupo Edson Queiroz é um império no Ceará e uma potência no Brasil. Está entre os setenta maiores conglomerados do país e fatura mais de 1 bilhão de reais por ano. O grupo tem trinta empresas, que atuam em oito setores. É o dono da principal emissora de TV do Ceará, a Verde Mares, que retransmite a TV Globo, e do principal jornal do Estado, o Diário do Nordeste. O império começou a ser construído em 1951, quando o patriarca da família, Edson Queiroz, entrou para o ramo de distribuição de gás, até hoje seu maior negócio. Três décadas depois, riquíssimo, Queiroz morreu numa tragédia de avião. Sua herança foi para a viúva, Yolanda Queiroz, que hoje detém 41% do grupo, e para seus seis filhos. Entre eles, estão o deputado federal Edson Queiroz Filho e Renata Queiroz Jereissati, mulher do atual governador do Ceará, Tasso Jereissati. O governador e o deputado, apesar do parentesco, são rivais políticos -- e o nome de Tasso Jereissati não sai na TV do grupo nem no Diário do Nordeste. Ralo tributário -- No dia seguinte à blitz da Receita, o grupo conseguiu reaver, através de uma ação na Justiça, todos os documentos apreendidos pelos auditores. Agora, a Receita e a Procuradoria brigam na Justiça para permanecer no encalço da empresa e checar a veracidade das denúncias do ex-funcionário -- que vive hoje sob proteção da Polícia Federal. "Não é a maior fraude do país, mas é certamente uma das maiores", diz um funcionário da Receita envolvido na operação. Há suspeita de que as distribuidoras adulteravam as rotas de entrega de gás, informando à Petrobrás que uma entrega fora feita a 1.000 quilômetros de distância quando seus caminhões não passaram da esquina do quarteirão. Com isso, tinham direito a receber subsídio reservado a entregas em regiões distantes. Também se suspeita que forjavam a perda de cerca de 50.000 botijões por ano para revendê-los no mercado negro, numa operação que rendia mais de 8 milhões de reais por ano. Silvania Dal Bosco Copyright © 1997, Abril S.A. |