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Edição 2067

2 de julho de 2008
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SUPERCONFUSO

É um filme de super-herói? Um drama? Uma comédia?
Não – é Hancock, que quer ser tudo ao mesmo tempo


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Hancock (Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, preocupa-se em responder a uma questão que há décadas aflige os espectadores mais pragmáticos: quem, afinal, paga a conta de toda a destruição causada nos enfrentamentos entre super-heróis e vilãos? Pois é o contribuinte, que, supõe-se, tem então o direito de exigir que os indivíduos dotados de superpoderes tratem de usá-los com cuidado, para não sobrecarregar o erário. Na primeira encarnação do filme estrelado por Will Smith, a cômica (várias outras se seguem, por nenhum motivo em particular), esse descaso com o bem público é que faz a ruína de Hancock, que tem força colossal, velocidade supersônica e nenhuma paciência para com as finesses do decolar e aterrissar, além de pouco carinho para com as edificações de Los Angeles, que perdem pedaços todas as vezes que ele sai à caça de malfeitores. Essa abordagem pós-moderna da condição do super-herói prossegue na própria figura do protagonista. Cansado de viver sem semelhantes e de ser incompreendido, Hancock não se refugia na Fortaleza da Solidão, como o Super-Homem, nem renuncia ao amor de Mary Jane, como o Homem-Aranha: ele bebe, passa longe do chuveiro, age de forma anti-social e tem mudanças bruscas de humor (sintomas claros de depressão, como bem se sabe). Nada disso contribui para sua popularidade. Mas, pelo que se depreende, é seu impacto sobre os impostos municipais e prêmios de seguro que de fato faz com que ele seja odiado pelos angelenos. Solução para o problema: um consultor de imagem (Jason Bateman), que instruirá Hancock a, entre outras coisas, entregar-se às autoridades para demonstrar arrependimento – como se fosse um político qualquer pego no pulo – e dizer "bom trabalho!" toda vez que, no cumprimento do dever, topar com um policial.

A dúvida é se Hancock satiriza um estado de coisas absurdo ou recomenda adaptar-se a ele. A direção de Peter Berg, um ator que vem se tornando cada vez mais requisitado do lado de lá da câmera (são dele Bem-Vindo à Selva e O Reino), parece se inclinar ora numa direção, ora na outra. Não chega a se decidir, presumivelmente, por falta de tempo: Hancock logo pula da paródia para o pequeno drama doméstico, daí para o filme "de origens", no momento em que o passado misterioso do personagem é revelado, a seguir para o híbrido de comédia romântica e ação (copiado de Sr. e Sra. Smith), quando ele descobre ter uma semelhante, depois para a tragédia hospitalar – e assim por diante. O elenco secundário, todo ele muito ágil, finge olimpicamente não se incomodar com o fato de não saber em qual filme está. Jason Bateman, da série Arrested Development e Juno, é um comediante dos mais confiáveis, que assume ser sempre ele o motivo de piada e opta, na dúvida, pelo ar de resignação; e Charlize Theron, que faz sua mulher, consegue surpreender até quando a deixam como peça de decoração durante meio filme. O espírito esportivo deles e de Smith segura o filme. Mas o que realmente o torna interessante são os seus sintomas esquizofrênicos. Hancock erra muito. Mas, pelo menos, erra cada hora de um jeito, e sempre de jeitos em que ninguém havia errado até aqui.



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