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Edição 2067

2 de julho de 2008
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Estados Unidos
Vestida para o poder

Michelle Obama já tem estilo de primeira-dama,
mas por enquanto precisa disfarçar um pouco


Vilma Gryzinski

Daniel Shapiro/New York Port/Cortesia
OBAMISTA E FASHIONISTA
O estilo poderoso da mulher do candidato democrata


A política americana é de dar nó nas cabeças mais simples. Primeiro, quando o mundo inteirinho (e muita gente nos Estados Unidos também) se refestelava nas delícias de falar mal do país de George W. Bush, produziu um candidato presidencial como Barack Obama. Agora, porque tanto Obama quanto sua mulher, Michelle, estão intensamente dedicados a combater a imagem, acreditem, de elitistas. A idéia de que ambos, nascidos em famílias pobres, embora com histórico diferente, sejam esnobes metidos a desdenhar do sal da terra americana, os matutos do interior, soa absurda, mas tem raízes no perfil dos dois – altos, belos, instruídos e, reconheça-se, com um toque da superioridade dos bem-sucedidos – bem como nas peculiaridades da campanha americana. Com eleitores garantidos tanto à direita quanto à esquerda, respectivamente, os candidatos do Partido Republicano e do Democrata disputam os votos do centro. É por isso que, além de enfrentar a máquina de intrigas dos adversários republicanos e dos malucos que desperdiçam a vida caçando conspirações na internet, o casal Obama passa pelo equivalente a um reposicionamento no mercado, mirando nos eleitores que não gostam da política nem da economia do governo atual, mas ainda sentem desconfiança em relação a eles. Os dois aqui são colocados em pé de igualdade por causa de outra característica da política americana: mulheres não ganham eleições para os maridos, mas podem ajudar a perdê-las.

Apresentar uma imagem mais simpática e domesticada de Michelle tem levado essa mulher com altura e postura de modelo – 1,80 metro, com salto médio – e formada em Princeton e Harvard, as melhores universidades dos Estados Unidos (portanto, do mundo), a se passar por uma dona-de-casa comum, que fala de filhos e família, faz pequenas confidências (não usa meia-calça, imaginem só) e compra papel higiênico na Target, rede de lojas populares. Uma amiga deixou escapar que as duas foram assistir a Sex and the City "no primeiro dia". Não é coincidência que as roupas de Michelle tenham um arzinho de Sarah Jessica Parker, além das evidentes referências a Jacqueline Kennedy, ícone supremo de elegância. A mistura ficou patente no vestido de seda roxa (900 dólares, assinatura de Maria Pinto, estilista amiga de Chicago), complementado com colar de pérolas de bijuteria e cinto preto (Azzedine Alaïa), usado quando Obama se consolidou como o candidato democrata. Michelle tem um tremendo senso de estilo, mas evidentemente recebe ajuda profissional para se vestir como o que almeja ser: primeira-dama.

Apesar do porte e do currículo, essa advogada de 44 anos, nascida Michelle LaVaughn Robinson, enfrenta mais problemas de aceitação que seu marido. Uma pesquisa recente indicou que 48% dos eleitores têm imagem favorável dela; 42%, desfavorável; e, mais significativo, 25% a vêem de maneira muito desfavorável (os números de Cindy McCain, a mulher do candidato republicano, foram de 49%, 29% e 10%, nas mesmas categorias). Michelle também é assombrada por uma frase dita durante a etapa da campanha em que Obama enfrentava Hillary Clinton e que parece ter sido encomendada pelos adversários do marido. "Pela primeira vez na minha vida adulta, eu realmente me orgulho do meu país" virou um infinitamente replicado mantra da oposição a Obama. Vai pegar? Pesquisadores e estudiosos do comportamento eleitoral tendem a concordar que é praticamente impossível reverter a onda pró-Obama (mas no começo dessa campanha todo mundo achava que os candidatos seriam Hillary Clinton e Rudy Giuliani, lembram-se?). As surpresas são tantas que outra pesquisa de opinião indicou que há mais eleitores (40%) preocupados com a idade do candidato do que com a cor (27%). Desse ponto de vista, o maior alvo de preconceito no momento seria John McCain, 71 anos, problemas de mobilidade por causa de ferimentos na Guerra do Vietnã, três melanomas.

A idéia de que o alquebrado McCain vença o vigoroso Obama, 46 anos e aparência de dez a menos, dentes mais perfeitos do que os de toda a família Kennedy reunida, parece especialmente inconcebível para os simpatizantes do democrata no mundo do entretenimento e da moda. Anna Wintour, a diaba de Prada da revista Vogue, foi a uma festa de arrecadação na qual Michelle, de túnica e pantalona da cultuada Isabel Toledo, abafou. Depois, jantar no tríplex de Calvin Klein (10 000 dólares por cabeça). Nessas esferas, Obama já está eleito e a única e deliciosa dúvida remanescente é o que Michelle vai usar no dia da posse. Sem preocupação em fingir que não é da elite, só poderá ser alguma coisa espetacular, sonham os obamistas e fashionistas.



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