Ruth Cardoso deixa um
legado precioso na política social brasileira
Ricardo
Stuckert
Ruth: "Distribuir alimentos
não sustenta o desenvolvimento
de ninguém"
A antropóloga
Ruth Cardoso, morta aos 77 anos na terça-feira passada,
era uma intelectual respeitada, dona de sólida carreira
acadêmica e autora de obras que viraram referência
no campo da antropologia e das ciências sociais. Mas foi
como primeira-dama título pelo qual tinha ojeriza
que ela influenciou diretamente os destinos do Brasil.
Quando Fernando Henrique Cardoso, com quem estava casada havia
55 anos, assumiu a Presidência da República, em
1995, política social no país era sinônimo
de distribuição de leite. As ações
de governo ficavam, então, a cargo da Legião Brasileira
de Assistência a LBA de tristes lembranças,
pautada pelo assistencialismo e erodida pela corrupção.
Convencida de que "distribuir alimentos não sustenta
o desenvolvimento de ninguém", Ruth criou o Programa
Comunidade Solidária e mudou a política
social do país. Além de substituir a caridade
eleitoreira por projetos de capacitação profissional,
o programa realinhou a relação entre o governo
e a sociedade ao firmar parcerias com o empresariado e estimular
o trabalho voluntário. Dessa forma, estendeu aos cidadãos
a participação numa tarefa até então
confinada ao clientelismo do estado.
Embora discordasse
da condução da política social pelo atual
governo, Ruth tratava o assunto com a discrição
habitual. Avessa à exposição pública
e a vulgaridades de qualquer natureza, mostrou-se desgostosa
com o envolvimento de seu nome no caso do dossiê elaborado
pela Casa Civil, com despesas pessoais suas e do ex-presidente
Fernando Henrique. Quando a ministra Dilma Rousseff lhe telefonou
para negar a responsabilidade da pasta no imbróglio e
garantir-lhe que as informações sobre as despesas
continuariam sob sigilo, Ruth respondeu que era favorável
à transparência e pediu que se desse publicidade
aos seus gastos. O comparecimento do presidente Lula ao seu
enterro e o abraço emocionado trocado entre o petista
e o ex-presidente marcaram uma trégua no mal-estar provocado
pelo episódio.
Clayton
de Souza/AE
Lula abraça FHC no enterro
da ex-primeira-dama: muita emoção
Ruth Cardoso integrava,
desde 2004, o Conselho Curador da Fundação Victor
Civita, presidida por Roberto Civita, presidente da Editora
Abril. "Ruth foi uma grande educadora, extraordinária
batalhadora na frente social, sábia conselheira e querida
amiga. Deixa um enorme vazio entre nós", diz Civita.
Ela sofreu um infarto em sua casa, justamente no momento em
que, conversando com o filho, Paulo Henrique Cardoso, comentava,
feliz, os bons resultados do cateterismo a que se havia submetido
na véspera: "Vou comemorar com a minha neta, em
Paris, na semana que vem". Foram as suas últimas
palavras. A morte de Ruth representa uma perda e tanto para
o Brasil. Mas sua obra, os fundamentos de sua política
social e a lembrança de sua retidão e dignidade
de caráter permanecem. Que o exemplo frutifique.