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Edição 2067

2 de julho de 2008
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A revolucionária discreta

Ruth Cardoso deixa um legado precioso na política social brasileira

Ricardo Stuckert
Ruth: "Distribuir alimentos não sustenta o desenvolvimento
de ninguém"

A antropóloga Ruth Cardoso, morta aos 77 anos na terça-feira passada, era uma intelectual respeitada, dona de sólida carreira acadêmica e autora de obras que viraram referência no campo da antropologia e das ciências sociais. Mas foi como primeira-dama – título pelo qual tinha ojeriza – que ela influenciou diretamente os destinos do Brasil. Quando Fernando Henrique Cardoso, com quem estava casada havia 55 anos, assumiu a Presidência da República, em 1995, política social no país era sinônimo de distribuição de leite. As ações de governo ficavam, então, a cargo da Legião Brasileira de Assistência – a LBA de tristes lembranças, pautada pelo assistencialismo e erodida pela corrupção. Convencida de que "distribuir alimentos não sustenta o desenvolvimento de ninguém", Ruth criou o Programa Comunidade Solidária – e mudou a política social do país. Além de substituir a caridade eleitoreira por projetos de capacitação profissional, o programa realinhou a relação entre o governo e a sociedade ao firmar parcerias com o empresariado e estimular o trabalho voluntário. Dessa forma, estendeu aos cidadãos a participação numa tarefa até então confinada ao clientelismo do estado.

Embora discordasse da condução da política social pelo atual governo, Ruth tratava o assunto com a discrição habitual. Avessa à exposição pública e a vulgaridades de qualquer natureza, mostrou-se desgostosa com o envolvimento de seu nome no caso do dossiê elaborado pela Casa Civil, com despesas pessoais suas e do ex-presidente Fernando Henrique. Quando a ministra Dilma Rousseff lhe telefonou para negar a responsabilidade da pasta no imbróglio e garantir-lhe que as informações sobre as despesas continuariam sob sigilo, Ruth respondeu que era favorável à transparência – e pediu que se desse publicidade aos seus gastos. O comparecimento do presidente Lula ao seu enterro e o abraço emocionado trocado entre o petista e o ex-presidente marcaram uma trégua no mal-estar provocado pelo episódio.

Clayton de Souza/AE
Lula abraça FHC no enterro da ex-primeira-dama: muita emoção

Ruth Cardoso integrava, desde 2004, o Conselho Curador da Fundação Victor Civita, presidida por Roberto Civita, presidente da Editora Abril. "Ruth foi uma grande educadora, extraordinária batalhadora na frente social, sábia conselheira e querida amiga. Deixa um enorme vazio entre nós", diz Civita. Ela sofreu um infarto em sua casa, justamente no momento em que, conversando com o filho, Paulo Henrique Cardoso, comentava, feliz, os bons resultados do cateterismo a que se havia submetido na véspera: "Vou comemorar com a minha neta, em Paris, na semana que vem". Foram as suas últimas palavras. A morte de Ruth representa uma perda e tanto para o Brasil. Mas sua obra, os fundamentos de sua política social e a lembrança de sua retidão e dignidade de caráter permanecem. Que o exemplo frutifique.



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