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Brasil Polícia suspeita
de ligações do senador
Na semana passada, VEJA revelou que o raio de ação das traficâncias do empreiteiro Zuleido Veras, o dono da construtora Gautama, ia muito além das 61 pessoas denunciadas até agora pelo Ministério Público Federal. A agenda do empresário mostra que ele tinha um excepcional cuidado, principalmente às vésperas da campanha eleitoral de 2006, em anotar nomes de políticos graúdos associados a cifras misteriosas. Doações clandestinas? Propinas? Nem Zuleido nem os envolvidos explicaram. Os documentos apreendidos pela polícia, porém, continuam a produzir histórias intrigantes. O mais novo mistério a ser decifrado pelos investigadores do caso é a identidade de um certo "RJ" sigla que aparece em conversas telefônicas grampeadas com autorização judicial e em dezenas de papéis recolhidos nos escritórios dos acusados. RJ, pelo que se ouviu dos diálogos, é a pessoa que ajudava a viabilizar os negócios escusos do empreiteiro Zuleido. Pelo que se viu nos papéis, também é alguém que se movimenta com extrema desenvoltura no Congresso e nos bastidores do governo. RJ, talvez por toda essa influência, aparece sempre ao lado de cifras, muitas cifras. A Polícia Federal tem um suspeito: RJ seria o senador Romero Jucá, o líder do governo no Senado. O nome do senador peemedebista não surgiu apenas por causa da coincidência alfabética. Papéis com anotações sobre RJ foram apreendidos na casa do lobista Geraldo Magela Fernandes da Rocha, em Brasília. Ex-funcionário de Zuleido e, durante anos, assessor de Romero Jucá, o lobista atuava no Congresso para viabilizar os interesses comerciais da Gautama. Entenda-se por isso garimpar emendas no orçamento em favor das obras da empresa e, depois, conseguir a liberação dos recursos nos ministérios. Em Brasília, esse tipo de trabalho remunera muito bem os envolvidos nas diversas etapas do processo. Os políticos costumam receber as maiores fatias em anos eleitorais. Em um dos documentos apreendidos pela PF na casa do lobista da Gautama, há uma espécie de cronograma dos meses de agosto e setembro de 2006 que a polícia acredita tratar-se de uma divisão de propina referente a uma obra no Amapá. O texto fala em "contribuições". Uma dupla identificada como GM/RJ (veja reprodução do documento) aparece ao lado da cifra 150 000. Na lateral, alguém fez uma conta de subtrair e anotou o número e a data de uma nota fiscal. A PF acredita que GM é Geraldo Magela e RJ, Romero Jucá. O número 150 000 seria o valor total da propina paga por uma obra no Amapá. Já a nota fiscal correspondente, acredita a polícia, foi emitida para justificar a saída do dinheiro, provavelmente em nome da Pool Comunicações, empresa de Magela.
O processo que investiga o caso Gautama tem 111 anexos com milhares de documentos. O material apreendido na casa de Magela é apenas uma pequena parte do caso, mas ajuda a consolidar algo que já se sabia: o epicentro das ações predatórias de Zuleido, depois de passar por Brasília, se deslocou para o estado do Maranhão. Oficialmente, estão denunciados por envolvimento no caso o ex-governador do estado José Reinaldo Tavares e o atual, Jackson Lago. VEJA revelou, também na semana passada, que a senadora Roseana Sarney aparecia na agenda do empreiteiro associada a cifras também no período eleitoral. Roseana negou qualquer envolvimento com o dono da Gautama. A Polícia Federal, porém, tem vários indícios de que a família Sarney mantinha estreitas relações com o empreiteiro. O ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau, acusado de receber propina do esquema, chegou ao cargo pelas mãos do senador José Sarney. Geraldo Magela foi diretor da Radiobrás no governo Sarney, enquanto Romero Jucá foi indicado pelo mesmo Sarney para ser governador biônico de Roraima. Eles são amigos e aliados políticos há mais de duas décadas. Zuleido, nessa ocasião, era apenas um aprendiz de trapaceiro, mas já circulava nos gabinetes de Brasília.
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