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Edição 2067

2 de julho de 2008
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Brasil
Entre bicadas e beijos

Depois de quatro meses de impasse, Alckmin
consegue demover resistências e é sagrado
candidato tucano à prefeitura de São Paulo


Fábio Portela

Márcio Fernandes/AE
Alckmin recebe o cumprimento de Serra após vencer a convenção do PSDB: ele jura que estará ao lado do governador em 2010

O ex-governador paulista Geraldo Alckmin coleciona vitórias quando o assunto é a política interna do PSDB. Em 2006, ele emparedou José Serra e ficou com a vaga de candidato tucano à Presidência da República. A derrota sofrida para Lula parece não ter abalado seus brios. No último fim de semana, Alckmin mostrou que continua teimoso – e bom de briga. Ele venceu a convenção do PSDB em São Paulo e impôs seu nome como candidato do partido à prefeitura da maior cidade do país. Para isso, teve de dobrar uma ala da legenda que defendia a tese de que os tucanos deveriam desistir da candidatura própria para apoiar o projeto de reeleição do atual prefeito, Gilberto Kassab, do DEM (veja a entrevista abaixo). Um dos que eram favoráveis à coligação com os democratas era o governador José Serra. Nos últimos anos, ele e Kassab construíram uma sólida parceria política. Em 2005, Serra se tornou prefeito tendo Kassab como vice. No ano seguinte, quando o tucano foi eleito governador, o democrata herdou o comando da prefeitura. No cargo, demonstrou fidelidade ao antecessor: manteve os tucanos na administração municipal, prestigiou os vereadores do PSDB e continuou a tratar Serra como chefe.

Kassab também se revelou um administrador competente. Sua gestão é avaliada como boa ou ótima por 39% dos paulistanos (há pouco mais de um ano, esse porcentual era de 15%). Serra retribuiu a lealdade e o bom desempenho do prefeito abrindo espaço no governo estadual para outros políticos do DEM. Com isso, o governador cimentou o apoio dos democratas para a eleição presidencial de 2010, em que deverá ser o candidato do PSDB. Os planos políticos da dupla Serra-Kassab, no entanto, foram ignorados por Alckmin. Ele se agarrou à idéia de que é vital para os tucanos ter candidato próprio em São Paulo, porque considera a disputa uma espécie de tira-teima entre PT e PSDB. "Temos de impor um nocaute ao PT em São Paulo. Quem conquistar a prefeitura da cidade será o grande vitorioso das eleições", diz Alckmin. Os petistas compartilham dessa leitura. O partido escalou sua candidata mais forte para a disputa, a ex-prefeita Marta Suplicy. Hoje, ela lidera as pesquisas, com 31% das intenções de voto, contra 25% de Alckmin e 13% de Kassab, segundo o Ibope.

O fato de Alckmin sair candidato não deve, no entanto, ser visto como uma derrota de Serra. Embora o governador preferisse a coligação com o DEM, ele não tentou impor sua vontade ao partido. Poderia tê-lo feito, mas preferiu afastar-se da disputa. Serra entendeu ser legítimo que tanto Alckmin quanto Kassab quisessem se candidatar. Ao agir com equilíbrio, conservou a lealdade do democrata, que se sentiu prestigiado, e aparentemente se aproximou de Alckmin. O desafio do PSDB, agora, será engajar na campanha municipal os tucanos que queriam apoiar Kassab. Alckmin já sabe que argumento usará para isso: "Minha vitória na eleição para a prefeitura de São Paulo fortalecerá a candidatura do Serra a presidente em 2010, já que mostrará a todo o país a força do PSDB de São Paulo". Veremos se o discurso é capaz de levantar a militância. E se Alckmin realmente se alinhará a Serra daqui a dois anos. Afinal de contas, o governador mineiro Aécio Neves, que também adoraria ser o candidato tucano à Presidência da República, continua a morar no seu coração.

 

"Eu vou ganhar"

Paulo Liebert/AE
Gilberto Kassab: um dos principais cabos eleitorais de José Serra em 2010


A candidatura à reeleição do prefeito Gilberto Kassab deu um nó no PSDB. Os tucanos não podem apoiá-lo, porque Geraldo Alckmin é candidato. Não podem atacá-lo, porque estão aboletados no seu governo e porque Kassab será um poderoso cabo eleitoral do partido em 2010. O prefeito falou ao editor Felipe Patury.

O governador Serra o decepcionou ao chancelar a candidatura de Geraldo Alckmin a prefeito? Serra é o líder da aliança do PSDB com o DEM e está em uma situação delicada. Seu partido tem um candidato. O governo que Serra elegeu e ajudou a implantar tem outro. Se ele entendeu que o melhor para a nossa aliança e para a cidade é ter duas candidaturas, eu tenho de compreender.

Não há aliança com dois candidatos. Existe, porque a prefeitura é do DEM e do PSDB, e vai continuar assim. Não seríamos leais à cidade se deixássemos a administração desmoronar.

O senhor ainda espera o voto de Serra? Seria indiscreto se fizesse um pedido desse aqui.

Alckmin e Marta Suplicy têm o dobro das suas intenções de voto. A campanha não começou. Como eu nunca participei de uma eleição majoritária, o que me interessa agora é a taxa de aprovação da minha administração. No meu caso, ela é muito expressiva e, no momento certo, será vinculada às intenções de voto. Eu vou ganhar.

O racha paulistano repercutirá na aliança nacional? Não. Por mais importante que São Paulo seja, é preciso preservar o projeto Serra presidente. Esta é a hora dele.

A candidatura Alckmin atrapalha o projeto Serra presidente? É difícil dizer. Se ele se opõe a Serra, não pode exteriorizar neste momento.

O fato de Alckmin ter sido lançado por Aécio Neves, que disputa com Serra a indicação do PSDB, é um sinal de que ele prefere outro candidato? Não creio que Aécio seja antagônico a Serra. Suas aspirações são legítimas e merecidas, mas ele é inteligente o suficiente para entender que a naturalidade pende para a candidatura Serra.

A oposição ao governo Lula é competente? Falta determinação para apurar denúncias, como o caso Varig e os cartões corporativos. Além disso, o DEM não deveria rejeitar tudo o que vem do Executivo. Já os tucanos erram ao defender projetos como a CPMF sob a justificativa de que faltam recursos para a saúde. Ao governo falta prioridade, não dinheiro.

 



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