Documentos revelam que
conselheiros do TCE
do Rio de Janeiro vendiam decisões a prefeituras
Diego Escosteguy
Paulo
Alvadia/Ag. O Dia
Apesar dos rostos
sisudos, da aparência circunspecta e do louvável
empenho em zelar pela boa aplicação dos impostos
dos contribuintes do Rio de Janeiro, cinco dos sete senhores
sentados na bancada acima estão envolvidos numa tremenda
enrascada. Documentos apreendidos pela Polícia Federal
revelam que os conselheiros do Tribunal de Contas do Estado
do Rio de Janeiro (TCE-RJ) foram comprados por uma empresa de
consultoria. Comprados mesmo, incluindo aí todas as etapas
de um negócio qualquer: avaliação inicial,
orçamento, negociação de preço,
nota, contabilização no caixa igualzinho
faz uma empresa privada quando adquire uma mercadoria. O grupo
mineiro SIM inovou no conceito de corrupção. Já
se sabe que a empresa mantinha uma rede de influência
em vários tribunais do país para subornar juízes
e manipular decisões à base de pagamento de propina.
O caso dos conselheiros fluminenses, por enquanto, é
apenas o mais edificante. Para aprovar as contas de um cliente
no TCE, a empresa não precisou contratar advogados, nem
solicitar pareceres jurídicos de especialistas. Simplesmente
pagou ao presidente da corte, a quatro conselheiros e a alguns
assessores do próprio tribunal, que ficaram encarregados
de redigir a defesa.
Não é
a primeira vez que se ouve falar de casos assim, mas isso sempre
ficou restrito ao diz-que-me-diz-que das pessoas ou, no máximo,
a intrigas de quem foi derrotado em alguma demanda nos tribunais.
Desta vez, não. Ao investigar casos de corrupção
envolvendo prefeitos de Minas Gerais um deles o do famoso
Carlos Alberto Bejani, de Juiz de Fora, aquele filmado nadando
em maços de dinheiro vivo , a polícia descobriu
que muitos administradores municipais recorriam à SIM
para resolver problemas legais. Uma busca feita na sede da empresa,
em Belo Horizonte, revela por quê. A SIM oferecia bem
mais do que um simples serviço de assessoria ou consultoria.
Ela garantia resultados favoráveis, mesmo quando tudo
parecia perdido. Os documentos mostram que a SIM era uma espécie
de motor financeiro a serviço de um grupo de prefeituras
enroladas com a Justiça. Pelo contrato, cabia à
empresa limpar o nome dos municípios junto ao Judiciário,
para que os prefeitos pudessem receber verbas oficiais. Por
isso, estar em dia com as prestações de contas
nos tribunais era essencial. Para conseguir o atestado, a SIM
recorria a métodos singulares. O município de
Carapebus, no Rio, é um dos clientes do grupo. No fim
de 2002, o prefeito estava com dificuldades para aprovar as
contas, diante de um amontoado de irregularidades detectadas.
De uma hora para outra, tudo foi resolvido. Na sede do grupo
SIM, a polícia descobriu como e sem precisar investigar
muito. Estava tudo arquivado.
Fotos
César Tropia
A empresa SIM, de Belo Horizonte,
oferecia decisões em tribunais: rede de suborno em
Minas, Brasília e no Rio
São duas as
provas que, segundo a polícia, não deixam dúvida
sobre o esquema no TCE fluminense. Como um negócio qualquer,
havia uma minuciosa descrição da estratégia
para aprovar as contas de Carapebus. Uma carta enviada à
empresa por Álvaro Lopes, um político do Rio ligado
ao PMDB, detalha uma reunião entre ele e um intermediário
com o tribunal. Nela, foi acertada a solução.
A SIM precisaria desembolsar 130.000 reais para pagar ao presidente,
José Gomes Graciosa, a quatro conselheiros (chamados
de "CONSs" no documento) e a alguns assessores
e garantir a aprovação das contas. Cada
conselheiro embolsaria 20.000 reais. Os 30.000 restantes seriam
divididos entre os assessores da corte e um "intermediário".
Lopes é didático: "Eles combinam o preço
conforme o quantitativo dos CONSs para aprovação
total e o valor total envolvido no processo". No memorando
da corrupção, o signatário também
menciona o pagamento de um outro caso similar, de 150.000 reais,
"para aprovar as contas do nosso amigo". Ele ainda
ressalta que os conselheiros reclamaram do valor oferecido,
em razão do "procedimento a ser tomado para aprovação".
Para fechar o negócio, Lopes abriu aos conselheiros a
possibilidade de pagar adiantado metade da propina. "Para
adoçar a boca do grupo", diz o peemedebista, lembrando
ao chefe que ele não está levando nenhum trocado
pelo serviço.
Fotos Maria Tereza Correia/Estado
de Minas/Folha Imagem e Andre Dusek/AE
A prisão do prefeito Alberto
Bejani (à esq.) levou a PF a investigar supostas
incursões da quadrilha no Tribunal Superior Eleitoral
Anexada à carta
encontrada no escritório havia uma nota de subempenho,
na qual se deixa claro que o negócio foi fechado, conforme
o relatório de Álvaro Lopes. Ou seja: a propina
não só está contabilizada como descrita
em meias palavras. A especificação da despesa
consta como "pagamento em espécie para TCE-RJ".
Tudo quitado no decorrer dos anos de 2003 e 2004, em quatro
parcelas "(21+21+23+65)" exatamente o valor
descrito na carta. Numa impressionante revolução
administrativa, a prefeitura de Carapebus conseguiu aprovar
todas as suas contas nos últimos cinco anos. Em dois
desses anos, o relator foi o conselheiro José Nader.
Em depoimento à polícia, um dos integrantes da
quadrilha, o advogado Marcelo Abdalla, disse que um dos quatro
conselheiros ainda não identificados é José
Nader. Ele recebeu propina da SIM, segundo o advogado, por intermédio
de seu filho, o deputado estadual José Nader. Procurado,
o conselheiro não se pronunciou. O autor do relatório,
Álvaro Lopes, admitiu ser amigo dos donos da SIM, mas
negou ser o autor da carta. "Visito o TCE, mas só
para tratar de questões administrativas", diz ele.
O presidente do tribunal, José Maurício de Lima
Nolasco, diz que desconhece os personagens citados pela polícia
e que ele, em hipótese alguma, teve qualquer contato,
recebeu ou fez ligação telefônica para qualquer
dos envolvidos.
Fotos Ichiro Guerra/Folha
Imagem e Charles Silva Duarte/O Tempo
O ex-ministro do STF Carlos Velloso
(à esq.) e o desembargador Francisco Betti:
eles serão ouvidos
Os mercadores de sentença
tinham tentáculos poderosos em outros locais. Investigações
da polícia já revelaram que juízes federais
de Minas Gerais estão na relação de pagamentos
da SIM. O esquema, como não poderia deixar de ser, também
alcançava Brasília. Um dos clientes da SIM é
a prefeitura da cidade mineira de Timóteo. Geraldo Nascimento,
o prefeito, teve o mandato cassado por abuso de poder econômico
na última campanha. A empresa cobrou 6 milhões
de reais para tentar salvar seu mandato, que será analisado
pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em novembro do ano passado,
a PF interceptou conversas entre os integrantes do esquema,
nas quais eles tramavam para conseguir derrubar no TSE a decisão
da Justiça de Minas. O principal articulador do lobby
era o advogado Wander Tanure, conhecido por manter amigos influentes
em postos-chave do Judiciário federal, entre eles o ex-ministro
Carlos Velloso, do Supremo Tribunal Federal. Tanure aparece
nas gravações alardeando influência no TSE.
Segundo o advogado Marcelo Abdalla, que se transformou na principal
testemunha do caso, o empresário Sinval Andrade, dono
da SIM, pagou 60.000 reais ao desembargador Francisco de Assis
Betti, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região,
em Brasília, que teria se comprometido a reverter a condenação
do prefeito Nascimento. O fato é que, com a influência
ou não do grupo, o prefeito conseguiu uma liminar e voltou
ao cargo. Velloso e Betti serão intimados a depor. "Nunca
recebi pedido algum desse pessoal, nem eles ousariam fazê-lo",
disse o ex-ministro Velloso, um jurista respeitado.
A nota acima foi encontrada na
contabilidade interna da SIM. Ela mostra que a propina,
discriminada como "despesa", foi paga ao Tribunal
de Contas do Rio de Janeiro, no ano de 2004, em parcelas
de dinheiro vivo, para aprovar as contas de um prefeito
No relatório sobre a mesma
transação, um dos operadores da quadrilha
descreve o resultado de uma reunião: ficou acertado
que cinco conselheiros do TCE, inclusive o presidente da
época, receberiam 130 000 reais