Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Ponto de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Os outros Estados Unidos

"De Gaulle costumava dizer que a Europa
deveria unir-se pacificamente, do Atlântico
aos Urais.
Se a União Européia incluir a Rússia,
conforme sua previsão, haverá muita matéria
para os especialistas assuntarem"

Fabrice del Dongo, o herói do romance de Stendhal A Cartuxa de Parma (1839), participou da Batalha de Waterloo (1815), assistiu à derrocada definitiva de Napoleão e não entendeu patavina do sucedido. O caso costuma ser citado para ilustrar o fato de que, em geral, os grandes acontecimentos históricos escapam à percepção imediata dos contemporâneos. Só mais tarde é que as mudanças são apreendidas em toda a sua dimensão. De fato, as transformações engendradas pela queda do Muro de Berlim (1989) apareceram com nitidez após a queda das torres do World Trade Center. Entre uma queda e outra, o mundo parecia pouco mudado. Agora, num curto lapso de tempo, a hiperpotência americana se afirmou sobre o planeta. Qual será a próxima etapa? De onde virá a oposição à hegemonia americana? Da China, como muita gente pensa? Da União Européia (UE), responde o semanário americano New Republic (16 de junho). Próxima dos neoconservadores do governo Bush, a revista adverte: "Os integracionistas europeus estão levando avante sua mais radical idéia: uns 'Estados Unidos da Europa' com uma diplomacia continental, sediados em Bruxelas e provavelmente liderados pela Alemanha e pela França. Os EUA despertarão para a ameaça européia antes que seja tarde?". Segundo os articulistas, duas linhas de raciocínio sustentam as afirmações. Em primeiro lugar, a eventual elaboração de uma Constituição facilitará ações coordenadas da UE que representarão "um verdadeiro desafio" à política americana no resto do mundo. Em segundo lugar, a economia européia tem registrado desempenho igual ao da americana e provavelmente irá suplantá-la nos próximos anos. No curto prazo, esses prognósticos parecem exagerados, tendo em vista a rivalidade existente na UE entre os euro-atlantistas pró-americanos, liderados pela Inglaterra, Espanha e Itália, e os euro-europeus, capitaneados por Alemanha e França. Mas no longo prazo, considerando os avanços alcançados desde o Tratado de Roma, de 1957, que formou o embrião da UE, o quadro parece plausível.

Ilustração Ale Setti


Tome-se, por exemplo, o embate recente, pouco notado pela imprensa brasileira, entre os EUA e a UE a respeito do projeto Galileo. Planejado para libertar a Europa da dependência do GPS (global positioning system) americano, Galileo fornecerá um sistema de posicionamento ligado a uma rede de trinta satélites europeus que estará operacional a partir de 2008. Houve oposição americana ao projeto, e Jacques Chirac chegou a declarar que o fracasso de Galileo redundaria na "vassalização" da Europa. Mas os europeus foram em frente e, com o financiamento de 3,25 bilhões de euros, os primeiros satélites da rede serão lançados da base aeroespacial de Kourou, na Guiana Francesa, a partir de 2005. Nessa mesma data, Kourou deverá lançar o foguete russo Soyuz-FG, conforme o protocolo de cooperação espacial entre a UE e a Rússia.

De Gaulle, que divisava a história ao longe, costumava dizer nos anos 1950-1960, em plena Guerra Fria, que a Europa deveria unir-se pacificamente "do Atlântico aos Urais", isto é, dos Açores aos montes Urais, cadeia de montanhas russa, do Ártico ao Mar Cáspio, que separa o continente europeu da Ásia. É cedo ainda para avaliar as conseqüências de uma integração entre a UE e a Rússia. Mas é possível prever que, se os futuros Estados Unidos da Europa incluírem a Rússia, conforme o prognóstico de De Gaulle, haverá muita matéria para os especialistas assuntarem.

A propósito, no Museu Histórico Russo, sediado na Praça Vermelha, ocorrerá, de julho a outubro, uma exposição em homenagem a De Gaulle. Apenas dois estrangeiros tiveram a honra de ser homenageados nesse museu moscovita, De Gaulle e Napoleão Bonaparte. Antes de perder a batalha final que Fabrice del Dongo não entendeu, Bonaparte tentou unir a Rússia ao Ocidente pela força das armas. Implementado pela UE, o projeto pacífico de De Gaulle será mais bem-sucedido?

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris ­ Sorbonne (abomey@uol.com.br)

 
 
 
 
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