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Ponto
de vista: Luiz Felipe de Alencastro
Os
outros Estados Unidos
"De
Gaulle costumava dizer que a Europa
deveria unir-se pacificamente, do Atlântico
aos Urais. Se
a União Européia incluir a Rússia,
conforme sua previsão, haverá muita matéria
para os especialistas assuntarem"
Fabrice
del Dongo, o herói do romance de Stendhal A Cartuxa de
Parma (1839), participou da Batalha de Waterloo (1815), assistiu
à derrocada definitiva de Napoleão e não entendeu
patavina do sucedido. O caso costuma ser citado para ilustrar o
fato de que, em geral, os grandes acontecimentos históricos
escapam à percepção imediata dos contemporâneos.
Só mais tarde é que as mudanças são
apreendidas em toda a sua dimensão. De fato, as transformações
engendradas pela queda do Muro de Berlim (1989) apareceram com nitidez
após a queda das torres do World Trade Center. Entre uma
queda e outra, o mundo parecia pouco mudado. Agora, num curto lapso
de tempo, a hiperpotência americana se afirmou sobre o planeta.
Qual será a próxima etapa? De onde virá a oposição
à hegemonia americana? Da China, como muita gente pensa?
Da União Européia (UE), responde o semanário
americano New Republic (16 de junho). Próxima dos
neoconservadores do governo Bush, a revista adverte: "Os integracionistas
europeus estão levando avante sua mais radical idéia:
uns 'Estados Unidos da Europa' com uma diplomacia continental, sediados
em Bruxelas e provavelmente liderados pela Alemanha e pela França.
Os EUA despertarão para a ameaça européia antes
que seja tarde?". Segundo os articulistas, duas linhas de raciocínio
sustentam as afirmações. Em primeiro lugar, a eventual
elaboração de uma Constituição facilitará
ações coordenadas da UE que representarão "um
verdadeiro desafio" à política americana no resto
do mundo. Em segundo lugar, a economia européia tem registrado
desempenho igual ao da americana e provavelmente irá suplantá-la
nos próximos anos. No curto prazo, esses prognósticos
parecem exagerados, tendo em vista a rivalidade existente na UE
entre os euro-atlantistas pró-americanos, liderados pela
Inglaterra, Espanha e Itália, e os euro-europeus, capitaneados
por Alemanha e França. Mas no longo prazo, considerando os
avanços alcançados desde o Tratado de Roma, de 1957,
que formou o embrião da UE, o quadro parece plausível.
Ilustração Ale Setti
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Tome-se, por exemplo, o embate recente, pouco notado pela imprensa
brasileira, entre os EUA e a UE a respeito do projeto Galileo. Planejado
para libertar a Europa da dependência do GPS (global positioning
system) americano, Galileo fornecerá um sistema de posicionamento
ligado a uma rede de trinta satélites europeus que estará
operacional a partir de 2008. Houve oposição americana
ao projeto, e Jacques Chirac chegou a declarar que o fracasso de
Galileo redundaria na "vassalização" da Europa. Mas
os europeus foram em frente e, com o financiamento de 3,25 bilhões
de euros, os primeiros satélites da rede serão lançados
da base aeroespacial de Kourou, na Guiana Francesa, a partir de
2005. Nessa mesma data, Kourou deverá lançar o foguete
russo Soyuz-FG, conforme o protocolo de cooperação
espacial entre a UE e a Rússia.
De Gaulle, que divisava a história ao longe, costumava dizer
nos anos 1950-1960, em plena Guerra Fria, que a Europa deveria unir-se
pacificamente "do Atlântico aos Urais", isto é, dos
Açores aos montes Urais, cadeia de montanhas russa, do Ártico
ao Mar Cáspio, que separa o continente europeu da Ásia.
É cedo ainda para avaliar as conseqüências de
uma integração entre a UE e a Rússia. Mas é
possível prever que, se os futuros Estados Unidos da Europa
incluírem a Rússia, conforme o prognóstico
de De Gaulle, haverá muita matéria para os especialistas
assuntarem.
A propósito, no Museu Histórico Russo, sediado na
Praça Vermelha, ocorrerá, de julho a outubro, uma
exposição em homenagem a De Gaulle. Apenas dois estrangeiros
tiveram a honra de ser homenageados nesse museu moscovita, De Gaulle
e Napoleão Bonaparte. Antes de perder a batalha final que
Fabrice del Dongo não entendeu, Bonaparte tentou unir a Rússia
ao Ocidente pela força das armas. Implementado pela UE, o
projeto pacífico de De Gaulle será mais bem-sucedido?
Luiz Felipe de Alencastro é historiador
e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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