Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Os provocadores
de Cristo

Uma horda de pregadores evangélicos
lança-se à empreitada de converter
muçulmanos no Iraque

Com tanto espaço no planeta, por que as religiões foram nascer todas no mesmo lugar, amontoadas umas sobre as outras, acotoveladas como em ônibus cheio? Quer dizer: todas não – as "três grandes religiões monoteístas", como é costume referir-se à trinca integrada (por ordem de entrada na história) por judaísmo, cristianismo e islamismo. Se uma tivesse nascido na Sibéria, outra na Patagônia e outra – uma só ainda vai – no Oriente Médio, o mundo seria menos conflitado. Mas não. Nasceram todas naquela congestionada esquina do mundo. Pode-se mesmo dizer que nasceram – ou, se não nasceram, ganharam força e ressonância – na mesma cidade, Jerusalém. São as três aparentadas, fincadas nas mesmas raízes semitas, nascidas na mesma paisagem onde os desertos se alternam bruscamente com rios generosos e os tipos humanos se distribuem entre nômades, pastores de ovelhas e mercadores com bancas em sujas vielas. As origens comuns poderiam ter gerado compreensão e fraternidade entre elas, ainda mais que, em princípio, o deus é o mesmo. Não. O que há é hostilidade e tensão, responsáveis por algumas das piores catástrofes da história humana.

Já não bastasse a impossível convivência, em espaço tão reduzido, de judeus e muçulmanos, os cristãos não esquecem de meter sua colher. Em seguida à invasão americana do Iraque, missionários evangélicos enxergaram no país antes governado por Saddam Hussein uma oportunidade. E lá estão eles, Bíblias traduzidas e panfletos escritos em árabe nas mãos, quando não vídeos com a história de Jesus, devidamente dublados na mesma língua, na empreitada arriscada e arrogante, quando não suicida, de tentar converter os muçulmanos. A estrela maior dessa onda é Franklin Graham, filho do mais célebre pregador evangélico dos Estados Unidos, Billy Graham. Como o pai em sua época, Graham filho mantém relações estreitas com os altos poderes de Washington. É próximo de George W. Bush. Já pregou para os militares do Pentágono numa Sexta-Feira Santa. Sua opinião sobre o Islã é que é uma religião "do mal".

A revista Time dedicou sua última reportagem de capa ao tema. "Devem os cristãos converter os muçulmanos?" é o título da reportagem, e nela se é apresentado a personagens como Luis Bush (não é parente de sangue, mas, nas idéias... quem sabe?), outro pregador evangélico. Ele é autor da tese de que toda uma larga faixa do planeta, variando entre 10 e 40 graus norte, é "escravizada" pelo Islã, pelo hinduísmo e pelo budismo e portanto, em última análise, pelo demônio. O Islã, segundo ele, tenta, a partir de sua base, lançar tentáculos pelo mundo afora. "Numa estratégia similar", acrescenta, "devemos penetrar em seu coração, com a verdade libertadora do Evangelho." Outro personagem, este protegido pela Time, por razões de segurança, com o nome fictício de "Robert", festejou a guerra contra o Iraque como o evento que lhe abriu as portas para o país onde mais queria concentrar os esforços. "O que é preciso entender", diz ele, "é que a diplomacia não funciona com Satanás."

Nem todos os missionários compartilham a mesma visão predatória. Alguns nem proselitismo fazem. Contentam-se com as obras de caridade como forma indireta de angariar simpatias e, com alguma sorte, adeptos. Há uma violência intrínseca, no entanto, mesmo nas versões mais benignas do missionarismo. O Brasil das origens teve experiência disso. Os jesuítas e evangelizadores de outras ordens contribuíram para o desenraizamento e a perda de identidade dos nativos tanto quanto os colonos que os escravizavam e maltratavam fisicamente. O missionário sempre se põe numa situação de superior para inferior com relação à sua presa. Claro, ele é o portador da Verdade. A Verdade. Quem pode com ele? Ainda se fosse como no Japão... No Japão as famílias têm em casa um altar xintoísta e outro budista. Podem praticar as duas religiões ao mesmo tempo. Já as monoteístas são terrivelmente exclusivistas. Há exceções, como o sincretismo que no Brasil mistura o cristianismo e as crenças africanas. A religião católica, depois de um milênio e meio de intolerância, muitas vezes intolerância assassina, aprendeu as virtudes da flexibilidade. O mesmo não se pode dizer dos evangélicos.

Os missionários que invadem o Iraque, implicitamente estimulados pelo fundamentalismo reinante em Washington, agem, se se permite a comparação, como o PTB ou o PL, quando lançam sua rede de pescar sobre as almas perdidas do Parlamento brasileiro. Só que muçulmano é diferente de deputado brasileiro do baixo clero. A religião integra sua identidade. Tentar despojá-lo dela equivale a tentar quebrá-lo por dentro. Diogo Mainardi escreveu, algumas edições de VEJA atrás, que o Brasil precisa de menos deus. O mundo precisa de menos ainda. A religião está entranhada em quase todos os conflitos contemporâneos – da Irlanda e da Bósnia, na Europa, às lutas da África. Religião, no mundo de hoje, divide de modo mais cruel que política, que cor da pele ou que futebol.

 
 
 
 
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