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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Os
provocadores
de Cristo
Uma
horda
de pregadores
evangélicos
lança-se
à empreitada
de
converter
muçulmanos
no
Iraque
Com tanto espaço no planeta, por que as religiões
foram nascer todas no mesmo lugar, amontoadas umas sobre as outras,
acotoveladas como em ônibus cheio? Quer dizer: todas não
as "três grandes religiões monoteístas",
como é costume referir-se à trinca integrada (por
ordem de entrada na história) por judaísmo, cristianismo
e islamismo. Se uma tivesse nascido na Sibéria, outra na
Patagônia e outra uma só ainda vai no
Oriente Médio, o mundo seria menos conflitado. Mas não.
Nasceram todas naquela congestionada esquina do mundo. Pode-se mesmo
dizer que nasceram ou, se não nasceram, ganharam força
e ressonância na mesma cidade, Jerusalém. São
as três aparentadas, fincadas nas mesmas raízes semitas,
nascidas na mesma paisagem onde os desertos se alternam bruscamente
com rios generosos e os tipos humanos se distribuem entre nômades,
pastores de ovelhas e mercadores com bancas em sujas vielas. As
origens comuns poderiam ter gerado compreensão e fraternidade
entre elas, ainda mais que, em princípio, o deus é
o mesmo. Não. O que há é hostilidade e tensão,
responsáveis por algumas das piores catástrofes da
história humana.
Já não bastasse a impossível convivência,
em espaço tão reduzido, de judeus e muçulmanos,
os cristãos não esquecem de meter sua colher. Em seguida
à invasão americana do Iraque, missionários
evangélicos enxergaram no país antes governado por
Saddam Hussein uma oportunidade. E lá estão eles,
Bíblias traduzidas e panfletos escritos em árabe
nas mãos, quando não vídeos com a história
de Jesus, devidamente dublados na mesma língua, na empreitada
arriscada e arrogante, quando não suicida, de tentar converter
os muçulmanos. A estrela maior dessa onda é Franklin
Graham, filho do mais célebre pregador evangélico
dos Estados Unidos, Billy Graham. Como o pai em sua época,
Graham filho mantém relações estreitas com
os altos poderes de Washington. É próximo de George
W. Bush. Já pregou para os militares do Pentágono
numa Sexta-Feira Santa. Sua opinião sobre o Islã é
que é uma religião "do mal".
A revista Time dedicou sua última reportagem de capa
ao tema. "Devem os cristãos converter os muçulmanos?"
é o título da reportagem, e nela se é apresentado
a personagens como Luis Bush (não é parente de sangue,
mas, nas idéias... quem sabe?), outro pregador evangélico.
Ele é autor da tese de que toda uma larga faixa do planeta,
variando entre 10 e 40 graus norte, é "escravizada" pelo
Islã, pelo hinduísmo e pelo budismo e portanto, em
última análise, pelo demônio. O Islã,
segundo ele, tenta, a partir de sua base, lançar tentáculos
pelo mundo afora. "Numa estratégia similar", acrescenta,
"devemos penetrar em seu coração, com a verdade libertadora
do Evangelho." Outro personagem, este protegido pela Time,
por razões de segurança, com o nome fictício
de "Robert", festejou a guerra contra o Iraque como o evento que
lhe abriu as portas para o país onde mais queria concentrar
os esforços. "O que é preciso entender", diz ele,
"é que a diplomacia não funciona com Satanás."
Nem todos os missionários compartilham a mesma visão
predatória. Alguns nem proselitismo fazem. Contentam-se com
as obras de caridade como forma indireta de angariar simpatias e,
com alguma sorte, adeptos. Há uma violência intrínseca,
no entanto, mesmo nas versões mais benignas do missionarismo.
O Brasil das origens teve experiência disso. Os jesuítas
e evangelizadores de outras ordens contribuíram para o desenraizamento
e a perda de identidade dos nativos tanto quanto os colonos que
os escravizavam e maltratavam fisicamente. O missionário
sempre se põe numa situação de superior para
inferior com relação à sua presa. Claro, ele
é o portador da Verdade. A Verdade. Quem pode com
ele? Ainda se fosse como no Japão... No Japão as famílias
têm em casa um altar xintoísta e outro budista. Podem
praticar as duas religiões ao mesmo tempo. Já as monoteístas
são terrivelmente exclusivistas. Há exceções,
como o sincretismo que no Brasil mistura o cristianismo e as crenças
africanas. A religião católica, depois de um milênio
e meio de intolerância, muitas vezes intolerância assassina,
aprendeu as virtudes da flexibilidade. O mesmo não se pode
dizer dos evangélicos.
Os missionários que invadem o Iraque, implicitamente estimulados
pelo fundamentalismo reinante em Washington, agem, se se permite
a comparação, como o PTB ou o PL, quando lançam
sua rede de pescar sobre as almas perdidas do Parlamento brasileiro.
Só que muçulmano é diferente de deputado brasileiro
do baixo clero. A religião integra sua identidade. Tentar
despojá-lo dela equivale a tentar quebrá-lo por dentro.
Diogo Mainardi escreveu, algumas edições de VEJA atrás,
que o Brasil precisa de menos deus. O mundo precisa de menos ainda.
A religião está entranhada em quase todos os conflitos
contemporâneos da Irlanda e da Bósnia, na Europa,
às lutas da África. Religião, no mundo de hoje,
divide de modo mais cruel que política, que cor da pele ou
que futebol.
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