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Livros
Ouro
do chaco
Augusto
Roa Bastos, o único escritor
paraguaio de renome internacional

Marcelo Marthe
Claudio Rossi
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Roa
Bastos: "Graças
ao exílio, pude
sair do Paraguai. Que mais poderia pedir?"
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Quais
são os maiores nomes vivos da literatura hispânica?
Qualquer que seja a resposta, deverá incluir obrigatoriamente
o paraguaio Augusto Roa Bastos, de 86 anos. Um dos expoentes da
explosão da literatura latino-americana nos anos 60 e 70,
ele ganhou em 1989 a maior distinção que um autor
de língua espanhola pode almejar, o Prêmio Cervantes.
Ficou célebre graças sobretudo a uma trilogia de romances
sobre o autoritarismo. Entre eles está sua obra-prima, Eu,
o Supremo, no qual reconta a trajetória do ditador José
Gaspar Rodríguez Francia, que governou seu país por
26 anos, no começo do século XIX. Roa Bastos foi opositor
dos regimes repressivos que se sucederam no Paraguai no século
XX o que o levou a passar dois terços de sua vida
no exílio. E assim se tornou mais um caso de escritor que
assume o papel de consciência moral de seu país. Mais
ou menos como o cubano Cabrera Infante, em relação
ao regime comunista de Fidel Castro. Na condição de
único escritor paraguaio com renome internacional, tornou-se
um porta-voz dos conterrâneos no exterior. "Fui perseguido
e exilado sem militar em partido algum. O escritor é sempre
um contestador da ordem e, por isso, visto como pessoa perigosa",
reflete Roa Bastos.
Na
semana passada, o escritor esteve em São Paulo para o lançamento
raro de uma de suas obras no país. Trata-se
de Vigília do Almirante (tradução
de Josely Vianna Baptista; Mirabilia; 304 páginas; 35 reais),
um romance que narra o descobrimento da América pela voz
do próprio navegador Cristóvão Colombo. O livro
é um bom exemplo da ficção histórica
que se tornou a marca de Roa Bastos. Ele toma como base as narrativas
clássicas da aventura de Colombo e preenche suas lacunas
com situações hipotéticas e uma boa
dose de divagação ensaística. Mostra, por exemplo,
como os colonizadores eram figuras rudes, bem de acordo com sua
época, e como a miscigenação entre brancos
e indígenas se deu inicialmente como uma violação
pura e simples das nativas (leia
trecho). O estilo de Roa Bastos se aproxima do de
outros escritores de sua geração que tinham um nítido
apego ao virtuosismo formal. Não à toa, ele é
fã dos livros do brasileiro Guimarães Rosa, de quem
foi amigo.
Roa Bastos começou a escrever Vigília do Almirante
nos anos 40, mas só o concluiu em 1992. A razão
disso é que, ao sair do Paraguai às pressas para escapar
da repressão do então ditador Higinio Morínigo,
não teve tempo de levar seus originais. Só cinco décadas
mais tarde voltaria à região de Guairá, onde
viveu, para recuperar os textos. A biografia do escritor renderia
um filme. Filho de um empregado de engenho de açúcar,
ele foi alfabetizado pela mãe. Aos 15 anos, lutou na Guerra
do Chaco, que opôs paraguaios e bolivianos, e mais tarde foi
correspondente de um jornal na II Guerra Mundial. Acusado de subversão,
exilou-se na Argentina e posteriormente na França, onde foi
professor de literatura hispano-americana. Somente nos anos 90 voltou
a morar em seu país. Seu maior desafeto político é
o ex-ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35
anos e hoje vive numa mansão em Brasília. O escritor
fica indignado com o fato de Stroessner não ter sido punido
mas, por outro lado, acha que ser perseguido por ele acabou
tornando-se uma vantagem. "Graças ao exílio, pude
sair do Paraguai, conhecer outros países, viver com intelectuais
e dar aulas numa universidade européia. Que mais poderia
pedir?", diz Roa Bastos.
| Mordiscos
e pontapés
"Sabedor
do quão era fogoso e expansivo seu amigo, o Almirante
presenteou-o com a belíssima filha do cacique
do lugar. Ele a levou de arrasto para sua cabana. A
mocinha índia resistia, com toda a ferocidade
de que era capaz, aos escarcéus de D. Miguel.
Este já estava com o torso banhado em sangue
pelos arranhões e mordiscos que a ferazinha indígena
lhe ministrava sem poupá-lo de certeiros pontapés
nos testículos. Ele acreditou por um momento
que a frigidez das mulheres índias mencionada
pelos espanhóis era a causa de sua obstinada
resistência. Pegou então um chicote e começou
a açoitá-la até que seus braços
adormecessem em meio aos uivos de dor e de humilhação.
Por fim, ela aparentemente submeteu-se e se comportou,
a partir desse momento, como as mais experimentadas
mulheres das mancebias de Saona."
Trecho
de Vigília do Almirante
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