Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Livros
Ouro do chaco

Augusto Roa Bastos, o único escritor
paraguaio de renome internacional


Marcelo Marthe

 
Claudio Rossi

Roa Bastos: "Graças ao exílio, pude sair do Paraguai. Que mais poderia pedir?"


Trechos do livro

Quais são os maiores nomes vivos da literatura hispânica? Qualquer que seja a resposta, deverá incluir obrigatoriamente o paraguaio Augusto Roa Bastos, de 86 anos. Um dos expoentes da explosão da literatura latino-americana nos anos 60 e 70, ele ganhou em 1989 a maior distinção que um autor de língua espanhola pode almejar, o Prêmio Cervantes. Ficou célebre graças sobretudo a uma trilogia de romances sobre o autoritarismo. Entre eles está sua obra-prima, Eu, o Supremo, no qual reconta a trajetória do ditador José Gaspar Rodríguez Francia, que governou seu país por 26 anos, no começo do século XIX. Roa Bastos foi opositor dos regimes repressivos que se sucederam no Paraguai no século XX – o que o levou a passar dois terços de sua vida no exílio. E assim se tornou mais um caso de escritor que assume o papel de consciência moral de seu país. Mais ou menos como o cubano Cabrera Infante, em relação ao regime comunista de Fidel Castro. Na condição de único escritor paraguaio com renome internacional, tornou-se um porta-voz dos conterrâneos no exterior. "Fui perseguido e exilado sem militar em partido algum. O escritor é sempre um contestador da ordem e, por isso, visto como pessoa perigosa", reflete Roa Bastos.

Na semana passada, o escritor esteve em São Paulo para o lançamento – raro – de uma de suas obras no país. Trata-se de Vigília do Almirante (tradução de Josely Vianna Baptista; Mirabilia; 304 páginas; 35 reais), um romance que narra o descobrimento da América pela voz do próprio navegador Cristóvão Colombo. O livro é um bom exemplo da ficção histórica que se tornou a marca de Roa Bastos. Ele toma como base as narrativas clássicas da aventura de Colombo e preenche suas lacunas com situações hipotéticas – e uma boa dose de divagação ensaística. Mostra, por exemplo, como os colonizadores eram figuras rudes, bem de acordo com sua época, e como a miscigenação entre brancos e indígenas se deu inicialmente como uma violação pura e simples das nativas (leia trecho). O estilo de Roa Bastos se aproxima do de outros escritores de sua geração que tinham um nítido apego ao virtuosismo formal. Não à toa, ele é fã dos livros do brasileiro Guimarães Rosa, de quem foi amigo.

Roa Bastos começou a escrever Vigília do Almirante nos anos 40, mas só o concluiu em 1992. A razão disso é que, ao sair do Paraguai às pressas para escapar da repressão do então ditador Higinio Morínigo, não teve tempo de levar seus originais. Só cinco décadas mais tarde voltaria à região de Guairá, onde viveu, para recuperar os textos. A biografia do escritor renderia um filme. Filho de um empregado de engenho de açúcar, ele foi alfabetizado pela mãe. Aos 15 anos, lutou na Guerra do Chaco, que opôs paraguaios e bolivianos, e mais tarde foi correspondente de um jornal na II Guerra Mundial. Acusado de subversão, exilou-se na Argentina e posteriormente na França, onde foi professor de literatura hispano-americana. Somente nos anos 90 voltou a morar em seu país. Seu maior desafeto político é o ex-ditador Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos e hoje vive numa mansão em Brasília. O escritor fica indignado com o fato de Stroessner não ter sido punido – mas, por outro lado, acha que ser perseguido por ele acabou tornando-se uma vantagem. "Graças ao exílio, pude sair do Paraguai, conhecer outros países, viver com intelectuais e dar aulas numa universidade européia. Que mais poderia pedir?", diz Roa Bastos.

 
Mordiscos e pontapés

"Sabedor do quão era fogoso e expansivo seu amigo, o Almirante presenteou-o com a belíssima filha do cacique do lugar. Ele a levou de arrasto para sua cabana. A mocinha índia resistia, com toda a ferocidade de que era capaz, aos escarcéus de D. Miguel. Este já estava com o torso banhado em sangue pelos arranhões e mordiscos que a ferazinha indígena lhe ministrava sem poupá-lo de certeiros pontapés nos testículos. Ele acreditou por um momento que a frigidez das mulheres índias mencionada pelos espanhóis era a causa de sua obstinada resistência. Pegou então um chicote e começou a açoitá-la até que seus braços adormecessem em meio aos uivos de dor e de humilhação. Por fim, ela aparentemente submeteu-se e se comportou, a partir desse momento, como as mais experimentadas mulheres das mancebias de Saona."

Trecho de Vigília do Almirante

 
 
 
 
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