Edição 1809 . 2 de julho de 2003

Índice
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Comportamento
A divisão das classes

O novo sistema de castas que impera nas
escolas cria "populares" e "excluídos"


Thaís Oyama

 

Oscar Cabral

"Para ser popular, você precisa de três coisas: conhecer todo mundo, ter bom humor e atitude. E ter atitude significa não ter medo de fazer o que você está a fim de fazer. Um tempo atrás, eu pintei meu cabelo de vermelho nas pontas. Logo depois, começou a aparecer um monte de meninas com o cabelo igual. Essa é uma diferença entre as populares e as outras garotas: a popular faz o que está a fim e não tem medo do que vão comentar."
Paula de Oliveira Guerreiro,
13 anos, 7ª série

Qualquer pessoa que tenha passado pelos bancos escolares se lembra das estrelas das salas de aula: a bonitinha que todo mundo quer namorar, o bonitão que arrasa na quadra de esportes, o engraçadinho que solta as melhores tiradas, o rebelde que ninguém tem coragem de imitar, mas bem que gostaria. Pelo sistema habitual, esses alunos elegiam uma turma e, com ela, formavam o que se costumava chamar de "panelinha". Ser da panelinha dava status; estar fora dela, uma pontinha de inveja. O termo caiu em desuso, mas a idéia da divisão das classes, ao contrário, aprofundou-se. Inspirados em padrões mais competitivos de sucesso social e, claro, influenciados pelo comportamento disseminado pelos filmes e seriados de TV dos Estados Unidos, crianças e adolescentes brasileiros criaram uma hierarquia de fazer inveja ao mais implacável sistema de castas para definir quem são os donos do pedaço – e quem irá orbitar em torno deles. Tome-se qualquer escola de classe média de norte a sul do país e se verá que, principalmente entre alunos da 5ª à 8ª série, o modelo funciona de forma praticamente idêntica: no topo da pirâmide estão extrovertidos, bonitinhos e bons de bola – os antigos líderes da panelinha, hoje denominados "populares". Tímidos, desajeitados e solitários viraram "excluídos", ou "nerds". Aos primeiros, estão reservados direitos e privilégios de classe dominante. Aos segundos, uma árdua batalha pela eventual aceitação – ou alguma maneira criativa de dar a volta por cima.

Como em qualquer disputa, a demarcação de território é a regra número 1. Populares, por exemplo, não costumam sequer conversar com excluídos. "Nem cumprimentam. Passam reto", conta Marina Sawaya, 13 anos, estudante da 7ª série e integrante da categoria dos "normais" – o termo em voga para definir quem não se encaixa em nenhum dos grupos anteriores. No colégio em que ela estuda, em São Paulo, até o espaço do recreio é dividido de acordo com o status dos alunos. "Populares ficam no melhor lugar, normais em outro pátio e os nerds nas mesas, jogando card", explica. As regras também valem para além dos muros da escola. É freqüente, por exemplo, que, nas festas organizadas pelos alunos, popular pague meia-entrada. Eventualmente, os detentores do título também não precisam enfrentar a fila da lanchonete. Há sempre alguém que se oferece para comprar o lanche da menina ou do menino que vive rodeado de amigos, é convidado para todos os aniversários da turma, circula nos shoppings da moda e anda com celular último modelo – o típico perfil do popular. Esses critérios demonstram que crianças e adolescentes não inventaram nada de novo. "Ao apontar seus modelos, os alunos reproduzem os valores cultivados no mundo dos adultos, onde se destaca aquele que é rico, bonito e socialmente habilidoso", diagnostica a psicóloga Christina Cupertino. No martírio da adolescência, o popular tem ainda outro trunfo: o de ser, ou pelo menos aparentar ser, o que a maioria de seus pares não é: autoconfiante. "Ele lança moda, inventa comportamentos e se expõe mais que os outros. Aos olhos do grupo, isso o diferencia, porque adolescentes não são extrovertidos, nem seguros, nem resolvidos", diz a psicóloga.

Nos casos mais extremos de "exclusão", pertencer à categoria significa resignar-se à solidão de um cantinho na biblioteca, ser o último escolhido para trabalhos em grupo e sentir-se praticamente "invisível" na sala de aula. A estudante carioca Renata Emanuelle Vasconcelos Anhon, uma adorável loirinha de 16 anos, atribui à timidez o fato de, por muito tempo, ter vivido situações desse tipo. "Ninguém falava comigo no recreio. Faziam festas e eu ficava sabendo só no dia seguinte", conta. "O maior problema de ser excluída é que você é ignorada o tempo todo. As pessoas só falam com você para pedir cola ou caneta emprestada. Ou, então, para zoar."

 

Claudio Rossi


"Pense numa selva: o popular é o último da cadeia alimentar. É o leão, o mais forte de todos. Faz o que quiser, ninguém mexe com ele. Na gincana do meu colégio, uns meninos dançaram vestidos de mulher. Como a maioria não era popular, todo mundo zoou. Se eu fosse dançar, iriam até bater palma, porque eu sou popular e eles não podem me rebaixar. Popular tem muitos amigos. Mas só uns são de verdade. Tem aquele que fala: 'Ele é popular, vou ficar na cola dele' e aquele outro que pensa que nem nos reinos antigos: vou chegar nele, jogar ele para fora e ficar no poder. O lado bom de ser popular é que todo mundo te conhece e te acha simpático. O ruim é que tudo o que você faz ficam sabendo. Imagine que eu dou uma cantada numa menina e ela não aceita. Era para ser secreto. Como eu sou popular, as pessoas vão saber e podem me rebaixar. E, para sair do chão, não é fácil."
Vitor Gracia, 11 anos

A timidez, a falta de jeito para esportes e uma certa tendência à solidão não são as únicas barreiras para a aceitação do grupo, para o qual toda forma de "imaturidade" é condenável. Ao deixar a infância e partir em sua confusa busca por uma nova identidade, adolescentes e pré-adolescentes esforçam-se para aproximar-se do mundo dos adultos – e de tudo aquilo que está associado a ele. Na bolsa de valores da turma, portanto, aqueles que "ficam" com freqüência têm cotação elevada. Já os detentores de um parco currículo sentimental são automaticamente tratados como candidatos à exclusão. "Os populares começam a 'ficar' bem cedo", conta o estudante F.K., de 11 anos. "Fazem uma rodinha e ficam falando dessas coisas de namoro. Quando a gente tenta entrar, sempre chega um para tirar o nosso lugar: 'Sai daí, você é 'BV'." No código adolescente, BV é sigla de "boca virgem" – ou seja, aquele que nunca trocou os beijos arrebatados que estão na base do processo de "ficar".

A literatura e o cinema sempre foram pródigos em retratar adolescentes marginalizados, rejeitados e humilhados por colegas – afinal, ninguém faz arte em cima da satisfação autocomplacente dos bem-sucedidos. O mais famoso adolescente da literatura moderna, Holden Caulfield, o personagem de O Apanhador no Campo de Centeio, é o protótipo universal do excluído. A esquisitíssima Carrie, do filme Carrie, a Estranha, figura como o exemplo mais incendiário da categoria. Na vida real, o tema da incompatibilidade entre grupos de alunos atingiu o ponto de ebulição com a mais tristemente famosa matança numa escola americana, a de Columbine, em 1999. Foi lá que dois jovens psicopatas, Eric Harris e Dylan Klebold, mataram treze pessoas, entre colegas e professores, e depois se suicidaram. Os assassinos, excluídos por excelência, tinham uma enorme lista de ressentimentos acumulados.

Fora do campo do comportamento patológico, o que une os jovens menos integrados são o sentimento de inadequação e a dificuldade em se relacionar com seus iguais – condição que pode ser passageira ou perdurar a ponto de causar sofrimento. "Até por volta de 11 anos, a referência da criança ainda é a família, e nessa fase um desempenho escolar satisfatório é suficiente para provê-la de uma boa auto-imagem", explica a psicóloga e professora da PUC Ceres Alves de Araujo. A partir dessa idade, os amigos começam a ter maior importância, assim como aquilo que eles dizem. "A referência passa a ser o grupo. E ser rejeitado por ele é algo que causa muita angústia", diz. Muitos dos que passam pela experiência acabam resolvendo a questão sozinhos: excluídos da turma à qual desejariam pertencer, encaixam-se em outro grupo, mais compatível com sua vida, seus gostos, seu jeito de ser. O problema é quando isso demora a acontecer. "Já recebi crianças que, por causa do isolamento do grupo, entraram em depressão profunda", diz a psicóloga. E o que a escola pode fazer para amenizar o purgatório dos excluídos? Muito pouco, afirmam especialistas. "Quanto mais você interfere na situação, pior é para o aluno. Tutelado, ele se sente ainda mais frágil e visado pelo grupo", afirma Christina Cupertino. "O que os educadores devem fazer é municiá-lo para lidar com a situação, trabalhando sua auto-estima, estimulando suas habilidades e seu entrosamento com colegas com quem possa ter afinidade", diz.

 

Oscar Cabral


"Teve uma época em que eu tentei ser popular. Comprava as grifes que as populares usavam e fazia escova no cabelo dia sim, dia não, porque todas elas na minha escola têm cabelo liso. Mas ninguém falava comigo no recreio nem me chamava para nada. Eu sou muito tímida – e achava que devia ser muito chata também. No ano passado, fiz uma festa de aniversário e chamei todo mundo da sala. Não foi ninguém. As pessoas simplesmente ignoraram o convite. O problema de ser excluída é esse: você é ignorada o tempo todo. Só falam com você para pedir cola ou caneta emprestada. Ou, então, para te zoar. Montei o Blog dos Excluídos para ter um lugar em que todo mundo pudesse falar e ser ouvido, sem precisar ser bonitinho ou engraçadinho. Hoje, a minha situação na escola não mudou muito, mas eu já não ligo. Acho que é bobagem sofrer por querer entrar neste ou naquele grupo. A gente tem de procurar as pessoas que são mais parecidas com a gente."
Renata Emanuelle Anhon, 16 anos

Se o sofrimento dos excluídos é visível na escola, em casa pode até passar despercebido. A estudante Renata Emanuelle conta que tinha vergonha de que os pais soubessem que ela não era uma popular. Só falou com eles sobre a situação que enfrentava na escola depois que organizou uma festa em casa à qual nenhuma colega compareceu. Fracasso de público, o aniversário acabou rendendo outros frutos. Cansada de não pertencer a uma turma, decidiu criar um site na internet dedicado àqueles que não têm com quem conversar no recreio. O Blog dos Excluídos, por ela definido como "um lugar em que ninguém precisa ser engraçadinho nem bonitinho para ser ouvido", tem como símbolo o solitário Horácio, personagem de quadrinhos. Está fazendo o maior sucesso.

 

 

 
 
 
 
topo voltar