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Comportamento
A divisão das classes
O
novo sistema de castas que impera nas
escolas cria "populares" e "excluídos"

Thaís
Oyama
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Oscar Cabral

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"Para
ser popular, você precisa de três coisas: conhecer todo
mundo, ter bom humor e atitude. E ter atitude significa
não ter medo de fazer o que você está a fim de fazer.
Um tempo atrás, eu pintei meu cabelo de vermelho nas pontas.
Logo depois, começou a aparecer um monte de meninas com
o cabelo igual. Essa é uma diferença entre as populares
e as outras garotas: a popular faz o que está a fim e
não tem medo do que vão comentar."
Paula de Oliveira Guerreiro,
13 anos, 7ª série |
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Qualquer
pessoa que tenha passado pelos bancos escolares se lembra das estrelas
das salas de aula: a bonitinha que todo mundo quer namorar, o bonitão
que arrasa na quadra de esportes, o engraçadinho que solta
as melhores tiradas, o rebelde que ninguém tem coragem de
imitar, mas bem que gostaria. Pelo sistema habitual, esses alunos
elegiam uma turma e, com ela, formavam o que se costumava chamar
de "panelinha". Ser da panelinha dava status; estar fora dela, uma
pontinha de inveja. O termo caiu em desuso, mas a idéia da
divisão das classes, ao contrário, aprofundou-se.
Inspirados em padrões mais competitivos de sucesso social
e, claro, influenciados pelo comportamento disseminado pelos filmes
e seriados de TV dos Estados Unidos, crianças e adolescentes
brasileiros criaram uma hierarquia de fazer inveja ao mais implacável
sistema de castas para definir quem são os donos do pedaço
e quem irá orbitar em torno deles. Tome-se qualquer
escola de classe média de norte a sul do país e se
verá que, principalmente entre alunos da 5ª à
8ª série, o modelo funciona de forma praticamente idêntica:
no topo da pirâmide estão extrovertidos, bonitinhos
e bons de bola os antigos líderes da panelinha, hoje
denominados "populares". Tímidos, desajeitados e solitários
viraram "excluídos", ou "nerds". Aos primeiros, estão
reservados direitos e privilégios de classe dominante. Aos
segundos, uma árdua batalha pela eventual aceitação
ou alguma maneira criativa de dar a volta por cima.
Como em qualquer disputa, a demarcação de território
é a regra número 1. Populares, por exemplo, não
costumam sequer conversar com excluídos. "Nem cumprimentam.
Passam reto", conta Marina Sawaya, 13 anos, estudante da 7ª
série e integrante da categoria dos "normais" o termo
em voga para definir quem não se encaixa em nenhum dos grupos
anteriores. No colégio em que ela estuda, em São Paulo,
até o espaço do recreio é dividido de acordo
com o status dos alunos. "Populares ficam no melhor lugar, normais
em outro pátio e os nerds nas mesas, jogando card", explica.
As regras também valem para além dos muros da escola.
É freqüente, por exemplo, que, nas festas organizadas
pelos alunos, popular pague meia-entrada. Eventualmente, os detentores
do título também não precisam enfrentar a fila
da lanchonete. Há sempre alguém que se oferece para
comprar o lanche da menina ou do menino que vive rodeado de amigos,
é convidado para todos os aniversários da turma, circula
nos shoppings da moda e anda com celular último modelo
o típico perfil do popular. Esses critérios demonstram
que crianças e adolescentes não inventaram nada de
novo. "Ao apontar seus modelos, os alunos reproduzem os valores
cultivados no mundo dos adultos, onde se destaca aquele que é
rico, bonito e socialmente habilidoso", diagnostica a psicóloga
Christina Cupertino. No martírio da adolescência, o
popular tem ainda outro trunfo: o de ser, ou pelo menos aparentar
ser, o que a maioria de seus pares não é: autoconfiante.
"Ele lança moda, inventa comportamentos e se expõe
mais que os outros. Aos olhos do grupo, isso o diferencia, porque
adolescentes não são extrovertidos, nem seguros, nem
resolvidos", diz a psicóloga.
Nos casos mais extremos de "exclusão", pertencer à
categoria significa resignar-se à solidão de um cantinho
na biblioteca, ser o último escolhido para trabalhos em grupo
e sentir-se praticamente "invisível" na sala de aula. A estudante
carioca Renata Emanuelle Vasconcelos Anhon, uma adorável
loirinha de 16 anos, atribui à timidez o fato de, por muito
tempo, ter vivido situações desse tipo. "Ninguém
falava comigo no recreio. Faziam festas e eu ficava sabendo só
no dia seguinte", conta. "O maior problema de ser excluída
é que você é ignorada o tempo todo. As pessoas
só falam com você para pedir cola ou caneta emprestada.
Ou, então, para zoar."
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Claudio Rossi

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"Pense numa selva: o popular é o último da cadeia alimentar.
É o leão, o mais forte de todos. Faz o que quiser, ninguém
mexe com ele. Na gincana do meu colégio, uns meninos dançaram
vestidos de mulher. Como a maioria não era popular, todo
mundo zoou. Se eu fosse dançar, iriam até bater palma,
porque eu sou popular e eles não podem me rebaixar. Popular
tem muitos amigos. Mas só uns são de verdade. Tem aquele
que fala: 'Ele é popular, vou ficar na cola dele' e aquele
outro que pensa que nem nos reinos antigos: vou chegar
nele, jogar ele para fora e ficar no poder. O lado bom
de ser popular é que todo mundo te conhece e te acha simpático.
O ruim é que tudo o que você faz ficam sabendo. Imagine
que eu dou uma cantada numa menina e ela não aceita. Era
para ser secreto. Como eu sou popular, as pessoas vão
saber e podem me rebaixar. E, para sair do chão, não é
fácil."
Vitor Gracia, 11 anos |
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A
timidez, a falta de jeito para esportes e uma certa tendência
à solidão não são as únicas barreiras
para a aceitação do grupo, para o qual toda forma
de "imaturidade" é condenável. Ao deixar a infância
e partir em sua confusa busca por uma nova identidade, adolescentes
e pré-adolescentes esforçam-se para aproximar-se do
mundo dos adultos e de tudo aquilo que está associado
a ele. Na bolsa de valores da turma, portanto, aqueles que "ficam"
com freqüência têm cotação elevada.
Já os detentores de um parco currículo sentimental
são automaticamente tratados como candidatos à exclusão.
"Os populares começam a 'ficar' bem cedo", conta o estudante
F.K., de 11 anos. "Fazem uma rodinha e ficam falando dessas coisas
de namoro. Quando a gente tenta entrar, sempre chega um para tirar
o nosso lugar: 'Sai daí, você é 'BV'." No código
adolescente, BV é sigla de "boca virgem" ou seja,
aquele que nunca trocou os beijos arrebatados que estão na
base do processo de "ficar".
A literatura e o cinema sempre foram pródigos em retratar
adolescentes marginalizados, rejeitados e humilhados por colegas
afinal, ninguém faz arte em cima da satisfação
autocomplacente dos bem-sucedidos. O mais famoso adolescente da
literatura moderna, Holden Caulfield, o personagem de O Apanhador
no Campo de Centeio, é o protótipo universal do
excluído. A esquisitíssima Carrie, do filme Carrie,
a Estranha, figura como o exemplo mais incendiário da
categoria. Na vida real, o tema da incompatibilidade entre grupos
de alunos atingiu o ponto de ebulição com a mais tristemente
famosa matança numa escola americana, a de Columbine, em
1999. Foi lá que dois jovens psicopatas, Eric Harris e Dylan
Klebold, mataram treze pessoas, entre colegas e professores, e depois
se suicidaram. Os assassinos, excluídos por excelência,
tinham uma enorme lista de ressentimentos acumulados.
Fora
do campo do comportamento patológico, o que une os jovens
menos integrados são o sentimento de inadequação
e a dificuldade em se relacionar com seus iguais condição
que pode ser passageira ou perdurar a ponto de causar sofrimento.
"Até por volta de 11 anos, a referência da criança
ainda é a família, e nessa fase um desempenho escolar
satisfatório é suficiente para provê-la de uma
boa auto-imagem", explica a psicóloga e professora da PUC
Ceres Alves de Araujo. A partir dessa idade, os amigos começam
a ter maior importância, assim como aquilo que eles dizem.
"A referência passa a ser o grupo. E ser rejeitado por ele
é algo que causa muita angústia", diz. Muitos dos
que passam pela experiência acabam resolvendo a questão
sozinhos: excluídos da turma à qual desejariam pertencer,
encaixam-se em outro grupo, mais compatível com sua vida,
seus gostos, seu jeito de ser. O problema é quando isso demora
a acontecer. "Já recebi crianças que, por causa do
isolamento do grupo, entraram em depressão profunda", diz
a psicóloga. E o que a escola pode fazer para amenizar o
purgatório dos excluídos? Muito pouco, afirmam especialistas.
"Quanto mais você interfere na situação, pior
é para o aluno. Tutelado, ele se sente ainda mais frágil
e visado pelo grupo", afirma Christina Cupertino. "O que os educadores
devem fazer é municiá-lo para lidar com a situação,
trabalhando sua auto-estima, estimulando suas habilidades e seu
entrosamento com colegas com quem possa ter afinidade", diz.
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Oscar Cabral

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"Teve uma época em que eu tentei ser popular. Comprava
as grifes que as populares usavam e fazia escova no cabelo
dia sim, dia não, porque todas elas na minha escola têm
cabelo liso. Mas ninguém falava comigo no recreio nem
me chamava para nada. Eu sou muito tímida – e achava que
devia ser muito chata também. No ano passado, fiz uma
festa de aniversário e chamei todo mundo da sala. Não
foi ninguém. As pessoas simplesmente ignoraram o convite.
O problema de ser excluída é esse: você é ignorada o tempo
todo. Só falam com você para pedir cola ou caneta emprestada.
Ou, então, para te zoar. Montei o Blog dos Excluídos para
ter um lugar em que todo mundo pudesse falar e ser ouvido,
sem precisar ser bonitinho ou engraçadinho. Hoje, a minha
situação na escola não mudou muito, mas eu já não ligo.
Acho que é bobagem sofrer por querer entrar neste ou naquele
grupo. A gente tem de procurar as pessoas que são mais
parecidas com a gente."
Renata Emanuelle Anhon, 16 anos |
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Se
o sofrimento dos excluídos é visível na escola,
em casa pode até passar despercebido. A estudante Renata
Emanuelle conta que tinha vergonha de que os pais soubessem que
ela não era uma popular. Só falou com eles sobre a
situação que enfrentava na escola depois que organizou
uma festa em casa à qual nenhuma colega compareceu. Fracasso
de público, o aniversário acabou rendendo outros frutos.
Cansada de não pertencer a uma turma, decidiu criar um site
na internet dedicado àqueles que não têm com
quem conversar no recreio. O Blog dos Excluídos, por ela
definido como "um lugar em que ninguém precisa ser engraçadinho
nem bonitinho para ser ouvido", tem como símbolo o solitário
Horácio, personagem de quadrinhos. Está fazendo o
maior sucesso.
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