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Negócios
Da
internet para a praia
Marcos de Moraes, o brasileiro que
mais ganhou com a rede, quer fazer
sucesso agora com moda de lazer

Eduardo
Salgado
Fotos Claudio Rossi
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Moraes
tem 15
milhões de dólares para o primeiro ano
da nova marca
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Marcos
de Moraes, paulistano de 37 anos, filho do ex-rei da soja Olacyr
de Moraes, já tem o nome garantido entre os empreendedores
de criatividade e sorte. É o empresário brasileiro
que mais ganhou dinheiro com a internet. Montou o ZipMail, um serviço
de e-mail gratuito, com 3 milhões de dólares do próprio
bolso em 1998, e, dezoito meses mais tarde, embolsou mais de 300
milhões de dólares ao vender sua empresa. Desde então,
o presidente da holding de investimentos B4 se conserva imune à
"síndrome de Midas", que costuma atacar jovens que ganham
muito dinheiro de uma hora para a outra. Manteve o bom senso de
não sair investindo a esmo, na ânsia de reproduzir
a tacada de gênio. Em seu mais novo projeto, Moraes continua
conservador quanto ao valor do investimento, mas voltou a demonstrar
a ambição que o tornou um multimilionário.
Até o fim do ano, pretende lançar uma marca internacional
de biquínis e de roupas, calçados e acessórios
femininos para ser usados nas horas de lazer. O objetivo é
ocupar um nicho de mercado desprezado por marcas consagradas e ser
nada mais, nada menos que a líder das praias.
O investimento inicial em projeto, desenvolvimento e marketing é
de 15 milhões de dólares. Cangas com pinturas do alemão
Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que passou dezoito anos na América
Latina, camisetas com a figura do compositor Cartola e biquínis
com estampas africanas já estão expostos no escritório
da B4 em São Paulo. Se o cronograma for seguido à
risca, a marca, ainda sem nome, será lançada no Brasil
até dezembro. O plano é entrar na Europa no verão
do Hemisfério Norte do ano que vem e, mais tarde, chegar
aos Estados Unidos e à Austrália. O estilo é
o "zen sexy", algo longe das roupas para esportes de performance.
O desafio da diretora de criação Francis Petrucci
é produzir peças para as pessoas usarem nas férias.
A inspiração, obviamente, tem um forte tempero do
Brasil. No imaginário de europeus, americanos e asiáticos,
a síntese do brasileiro continua sendo samba, futebol e praia.
"Vamos explorar a imagem do Brasil e a de outros países",
diz Moraes. "É preciso ter cuidado para não exagerar
nas referências. Você já viu sapato italiano
inspirado em pizza?", pergunta.
Moraes pretende usar a rede de distribuição da Language,
a butique nova-iorquina freqüentada por celebridades como David
Bowie, Isabella Rossellini e Julia Roberts. Ele é dono de
63% da Language, que começou em 1998 apenas como loja e,
a partir de 2001, transformou-se em grife de roupas. Hoje as peças
são vendidas em mais de sessenta butiques e lojas de departamentos
de alto padrão nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia
e também no Brasil. A primeira coleção da estilista
Ana Abdul e do designer Lipe Medeiros, os criadores da Language,
vendeu 2,5 milhões de dólares em 2001. No ano passado
o valor chegou a 4 milhões de dólares, e a expectativa
para este ano é dobrar o faturamento. É com esse currículo
que Moraes está planejando o lançamento da nova marca
internacional.
Niels Andréas
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Arquivo pessoal
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Com o pai, Olacyr, o ex-rei da soja, Moraes
aprendeu a negociar (à esq.). Depois de uma infância
de menino rico (à dir.), começou a trabalhar
aos 16 anos como mecânico no Grupo Itamarati, pertencente
à família. |
Dono
de um jato Falcon 900 de 30 milhões de dólares, guardado
num hangar em São Paulo, e de um veleiro de 5 milhões
de dólares, no Caribe, Moraes continua trabalhando dez horas
diárias por pura teimosia. O grosso de sua fortuna está
investido em papéis com remuneração conservadora.
O gosto por correr riscos se restringe à parcela que aplica
em seus negócios. Além da Language, é dono
da Mandi, uma grife de roupas masculinas, e tem participação
acionária na editora Trip. "É emocionante escutar
o mercado e ver para onde o vento está soprando. Ganhamos
do homem de Neandertal porque sabemos nos adaptar", filosofa. Seu
desafio hoje é vencer o que chama de provincianismo do empresariado
brasileiro. Em países como a Coréia do Sul e até
mesmo o México, empreendedores decididos a criar marcas internacionais
são mais comuns que no Brasil. Uma cultura empresarial ensimesmada
foi um dos efeitos colaterais de quatro décadas de um modelo
de desenvolvimento baseado na substituição de importações.
Olacyr,
o pai, não faz a menor cerimônia em falar do orgulho
que sente do filho. "Quando ele abandonou a faculdade de economia
aos 20 anos e foi para o Japão para aprender o idioma não
me preocupei porque sempre confiei no talento dele", diz Olacyr.
Foi o pai quem deu o primeiro emprego. Aos 16 anos, Marcos de Moraes,
criado com todos os confortos dispensados a meninos de famílias
ricas, começou a trabalhar como mecânico de caminhões
e máquinas da pedreira do Grupo Itamarati, pertencente à
família. Mesmo assim, não escapou aos comentários
maldosos a respeito de sua pretensa inaptidão para os negócios.
Nos anos 80, o grupo faturava cerca de 800 milhões de dólares
nas áreas agrícola, financeira e de construção.
Nos nove anos em que foi uma espécie de papagaio de pirata
do pai, Moraes circulou pelas principais empresas do grupo e aprendeu
a negociar. "Sempre tentar prever as ações de quem
está do outro lado da mesa e ser firme quando preciso", resume.
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| Para
vender a nova marca, Moraes quer explorar a rede de distribuição
da grife Language, disponível em mais de sessenta lojas
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Já
fora do Grupo Itamarati, Moraes fundou em 1991 a Itatel, empresa
de paging e telecomunicações empresariais. Em 1995,
criou uma companhia de acesso à internet e, a partir de então,
sua carreira empresarial foi digna de um filme de ação
hollywoodiano. Teve ritmo estonteante e final feliz. Em 1998, lançou
o ZipMail, uma versão nacional do Hotmail. Em seguida, contratou
a atriz Luana Piovani como garota-propaganda. E, em oito meses,
alcançou 1 milhão de usuários. Motivado com
o sucesso, criou o portal Zip.Net. Acabou atraindo a atenção
do Unibanco, que comprou 12% da empresa. "Moraes teve o mérito
de perceber a demanda que havia por um serviço de e-mail
gratuito, mas, acima de tudo, de ter vendido a empresa na hora certa",
diz Eduardo Vieira, autor do livro Os Bastidores da Internet
no Brasil.
A Portugal Telecom comprou a Zip.Net por 365 milhões de dólares
em fevereiro de 2000. Um empresário que acompanhou a venda
de perto conta que Moraes tinha propostas até 50% superiores
à dos portugueses. A diferença estava na forma de
pagamento. A Portugal Telecom aceitava pagar a maior parte da quantia
em dinheiro. As demais interessadas queriam incluir ações
de outras empresas pontocom. No auge da euforia da internet, a alucinação
coletiva segundo a qual o segredo da prosperidade eterna estava
ao alcance do mouse, Moraes pressentiu o estouro da bolha e decidiu-se
pela proposta dos portugueses. Dois meses depois de fechado o negócio,
a Nasdaq, a bolsa que lida com ações de empresas de
alta tecnologia, registrou uma queda de 25%, a maior de sua história
até então.
Moraes é comprovadamente um visionário. Objetivo,
trabalha duro para atingir suas metas. Mas, de acordo com pessoas
que trabalharam muito próximas a ele, não daria um
bom executivo. É mais um homem de idéias que um implementador.
Tem o costume de formar equipes com muitos amigos, o que às
vezes causa certa confusão gerencial. Nada que comprometa,
dizem essas mesmas pessoas. O próximo teste do faro empreendedor
de Moraes será nas areias de Ipanema e da costa mediterrânica.
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O
currículo de Moraes
Em 1998 lançou o ZipMail, um serviço de
e-mail gratuito, com 3 milhões de dólares.
Um ano e meio depois, vendeu a empresa por 365 milhões
de dólares
É dono de 63% da Language, a butique de Nova
York em que David Bowie, Isabella Rossellini e Julia
Roberts costumam ser vistos
A grife de moda Language faturou 2,5 milhões
de dólares em 2001. Em 2002, as vendas foram
de 4 milhões. Neste ano deve rondar os 8 milhões
de dólares
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