Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Negócios
Da internet para a praia

Marcos de Moraes, o brasileiro que
mais ganhou com a rede, quer fazer
sucesso agora com moda de lazer


Eduardo Salgado

 
Fotos Claudio Rossi

Moraes tem 15 milhões de dólares para o primeiro ano da nova marca


DA INTERNET
Mandi
Language

Marcos de Moraes, paulistano de 37 anos, filho do ex-rei da soja Olacyr de Moraes, já tem o nome garantido entre os empreendedores de criatividade e sorte. É o empresário brasileiro que mais ganhou dinheiro com a internet. Montou o ZipMail, um serviço de e-mail gratuito, com 3 milhões de dólares do próprio bolso em 1998, e, dezoito meses mais tarde, embolsou mais de 300 milhões de dólares ao vender sua empresa. Desde então, o presidente da holding de investimentos B4 se conserva imune à "síndrome de Midas", que costuma atacar jovens que ganham muito dinheiro de uma hora para a outra. Manteve o bom senso de não sair investindo a esmo, na ânsia de reproduzir a tacada de gênio. Em seu mais novo projeto, Moraes continua conservador quanto ao valor do investimento, mas voltou a demonstrar a ambição que o tornou um multimilionário. Até o fim do ano, pretende lançar uma marca internacional de biquínis e de roupas, calçados e acessórios femininos para ser usados nas horas de lazer. O objetivo é ocupar um nicho de mercado desprezado por marcas consagradas e ser nada mais, nada menos que a líder das praias.

O investimento inicial em projeto, desenvolvimento e marketing é de 15 milhões de dólares. Cangas com pinturas do alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que passou dezoito anos na América Latina, camisetas com a figura do compositor Cartola e biquínis com estampas africanas já estão expostos no escritório da B4 em São Paulo. Se o cronograma for seguido à risca, a marca, ainda sem nome, será lançada no Brasil até dezembro. O plano é entrar na Europa no verão do Hemisfério Norte do ano que vem e, mais tarde, chegar aos Estados Unidos e à Austrália. O estilo é o "zen sexy", algo longe das roupas para esportes de performance. O desafio da diretora de criação Francis Petrucci é produzir peças para as pessoas usarem nas férias. A inspiração, obviamente, tem um forte tempero do Brasil. No imaginário de europeus, americanos e asiáticos, a síntese do brasileiro continua sendo samba, futebol e praia. "Vamos explorar a imagem do Brasil e a de outros países", diz Moraes. "É preciso ter cuidado para não exagerar nas referências. Você já viu sapato italiano inspirado em pizza?", pergunta.

Moraes pretende usar a rede de distribuição da Language, a butique nova-iorquina freqüentada por celebridades como David Bowie, Isabella Rossellini e Julia Roberts. Ele é dono de 63% da Language, que começou em 1998 apenas como loja e, a partir de 2001, transformou-se em grife de roupas. Hoje as peças são vendidas em mais de sessenta butiques e lojas de departamentos de alto padrão nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e também no Brasil. A primeira coleção da estilista Ana Abdul e do designer Lipe Medeiros, os criadores da Language, vendeu 2,5 milhões de dólares em 2001. No ano passado o valor chegou a 4 milhões de dólares, e a expectativa para este ano é dobrar o faturamento. É com esse currículo que Moraes está planejando o lançamento da nova marca internacional.

 
Niels Andréas
Arquivo pessoal
Com o pai, Olacyr, o ex-rei da soja, Moraes aprendeu a negociar (à esq.). Depois de uma infância de menino rico (à dir.), começou a trabalhar aos 16 anos como mecânico no Grupo Itamarati, pertencente à família.

Dono de um jato Falcon 900 de 30 milhões de dólares, guardado num hangar em São Paulo, e de um veleiro de 5 milhões de dólares, no Caribe, Moraes continua trabalhando dez horas diárias por pura teimosia. O grosso de sua fortuna está investido em papéis com remuneração conservadora. O gosto por correr riscos se restringe à parcela que aplica em seus negócios. Além da Language, é dono da Mandi, uma grife de roupas masculinas, e tem participação acionária na editora Trip. "É emocionante escutar o mercado e ver para onde o vento está soprando. Ganhamos do homem de Neandertal porque sabemos nos adaptar", filosofa. Seu desafio hoje é vencer o que chama de provincianismo do empresariado brasileiro. Em países como a Coréia do Sul e até mesmo o México, empreendedores decididos a criar marcas internacionais são mais comuns que no Brasil. Uma cultura empresarial ensimesmada foi um dos efeitos colaterais de quatro décadas de um modelo de desenvolvimento baseado na substituição de importações.

Olacyr, o pai, não faz a menor cerimônia em falar do orgulho que sente do filho. "Quando ele abandonou a faculdade de economia aos 20 anos e foi para o Japão para aprender o idioma não me preocupei porque sempre confiei no talento dele", diz Olacyr. Foi o pai quem deu o primeiro emprego. Aos 16 anos, Marcos de Moraes, criado com todos os confortos dispensados a meninos de famílias ricas, começou a trabalhar como mecânico de caminhões e máquinas da pedreira do Grupo Itamarati, pertencente à família. Mesmo assim, não escapou aos comentários maldosos a respeito de sua pretensa inaptidão para os negócios. Nos anos 80, o grupo faturava cerca de 800 milhões de dólares nas áreas agrícola, financeira e de construção. Nos nove anos em que foi uma espécie de papagaio de pirata do pai, Moraes circulou pelas principais empresas do grupo e aprendeu a negociar. "Sempre tentar prever as ações de quem está do outro lado da mesa e ser firme quando preciso", resume.


Para vender a nova marca, Moraes quer explorar a rede de distribuição da grife Language, disponível em mais de sessenta lojas

Já fora do Grupo Itamarati, Moraes fundou em 1991 a Itatel, empresa de paging e telecomunicações empresariais. Em 1995, criou uma companhia de acesso à internet e, a partir de então, sua carreira empresarial foi digna de um filme de ação hollywoodiano. Teve ritmo estonteante e final feliz. Em 1998, lançou o ZipMail, uma versão nacional do Hotmail. Em seguida, contratou a atriz Luana Piovani como garota-propaganda. E, em oito meses, alcançou 1 milhão de usuários. Motivado com o sucesso, criou o portal Zip.Net. Acabou atraindo a atenção do Unibanco, que comprou 12% da empresa. "Moraes teve o mérito de perceber a demanda que havia por um serviço de e-mail gratuito, mas, acima de tudo, de ter vendido a empresa na hora certa", diz Eduardo Vieira, autor do livro Os Bastidores da Internet no Brasil.

A Portugal Telecom comprou a Zip.Net por 365 milhões de dólares em fevereiro de 2000. Um empresário que acompanhou a venda de perto conta que Moraes tinha propostas até 50% superiores à dos portugueses. A diferença estava na forma de pagamento. A Portugal Telecom aceitava pagar a maior parte da quantia em dinheiro. As demais interessadas queriam incluir ações de outras empresas pontocom. No auge da euforia da internet, a alucinação coletiva segundo a qual o segredo da prosperidade eterna estava ao alcance do mouse, Moraes pressentiu o estouro da bolha e decidiu-se pela proposta dos portugueses. Dois meses depois de fechado o negócio, a Nasdaq, a bolsa que lida com ações de empresas de alta tecnologia, registrou uma queda de 25%, a maior de sua história até então.

Moraes é comprovadamente um visionário. Objetivo, trabalha duro para atingir suas metas. Mas, de acordo com pessoas que trabalharam muito próximas a ele, não daria um bom executivo. É mais um homem de idéias que um implementador. Tem o costume de formar equipes com muitos amigos, o que às vezes causa certa confusão gerencial. Nada que comprometa, dizem essas mesmas pessoas. O próximo teste do faro empreendedor de Moraes será nas areias de Ipanema e da costa mediterrânica.

 

O currículo de Moraes

• Em 1998 lançou o ZipMail, um serviço de e-mail gratuito, com 3 milhões de dólares. Um ano e meio depois, vendeu a empresa por 365 milhões de dólares

• É dono de 63% da Language, a butique de Nova York em que David Bowie, Isabella Rossellini e Julia Roberts costumam ser vistos

• A grife de moda Language faturou 2,5 milhões de dólares em 2001. Em 2002, as vendas foram de 4 milhões. Neste ano deve rondar os 8 milhões de dólares

 

 
 
 
 
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