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Especial
A
mais comum das
dores
A
dor de cabeça atinge 90% das pessoas,
em maior ou menor grau. Mas a medicina
já começa a vencer mais essa guerra

Karina Pastore
Quase
ninguém escapa ao tormento da dor de cabeça. Nove
de cada dez pessoas já passaram por esse sofrimento. Pode
não doer sempre, pode doer pouco, mas em algum momento a
cabeça dói. Dói depois de um dia exaustivo
de trabalho, por causa de um perfume mais forte ou de um chope estupidamente
gelado. Dói na forma de pontadas, latejos ou pressão
sobre as têmporas. A dor de cabeça ou cefaléia,
seu nome científico é um distúrbio de
causas e características diversas. A medicina já catalogou
150 formas de cefaléia. Há até aquela que se
manifesta durante uma relação sexual, a cefaléia
orgásmica. De todas, nenhuma impinge um martírio tão
grande a tanta gente quanto a enxaqueca. São 900 milhões
de vítimas no mundo, 26 milhões delas no Brasil. Não
faz muito tempo, a medicina oferecia apenas analgésicos fortes
aos enxaquecosos. O problema é que eles podem levar à
dependência química ou produzir um efeito paradoxal,
se consumidos rotineiramente: aumentam a incidência das crises.
Foi só na última década que o tratamento desse
tipo de cefaléia ganhou impulso. Além de remédios
mais potentes e seguros para combater a dor em si, foram descobertas
drogas capazes de prevenir os ataques de enxaqueca. "Quando tratada
na época certa, de maneira adequada e pelo tempo necessário,
a enxaqueca pode ter cura", diz o neurologista Edgard Raffaelli
Júnior, o pioneiro dos estudos de cefaléia no Brasil.
O
ponto de partida da batalha contra a enxaqueca e todos os outros
tipos de dor de cabeça é o diagnóstico correto
do distúrbio. Pode parecer óbvio, mas a realidade
mostra que poucos pacientes recorrem a um especialista no assunto.
Seria bom que o fizessem. Quando o diagnóstico é feito
por um não-especialista, ele tende a estar errado em mais
de 93% dos casos. E isso ajuda a piorar as crises e a perpetuar
equívocos. Muita gente ainda acha que enxaqueca é
sinônimo de uma dor de cabeça mais forte, o que não
é verdade. Só um especialista sabe identificar os
diferentes tipos de dor e receitar os cuidados específicos.
Além de remédios próprios, algumas dores de
cabeça hoje podem ser tratadas e até prevenidas com
estratégias não medicamentosas. Entre elas, a acupuntura
e as técnicas de relaxamento. Há que levar em conta
ainda a importância da dieta. De quatro vítimas de
dor de cabeça, em especial a enxaqueca, uma associa o início
dela a uma comida ou bebida. Não, jiló não
dá dor de cabeça. Mas chocolate, salame e outros embutidos,
além de certos tipos de queijo, sim. Pois é, a vida
é mesmo injusta.
As
dores de cabeça são divididas em dois grupos. As primárias,
em que a dor é ela própria a doença e o sintoma,
e as secundárias. Estas surgem em decorrência de outros
problemas, que vão de um simples resfriado a um tumor cerebral.
O sucesso do tratamento das dores de cabeça secundárias
está, é claro, diretamente vinculado aos cuidados
dispensados à enfermidade que causa o mal. Uma dor de cabeça
decorrente de uma infecção bacteriana, por exemplo,
tende a ser debelada com a prescrição de antibióticos.
Com as dores de cabeça primárias, tudo é mais
complicado. Todas elas são fruto de um descompasso na química
cerebral. O bom funcionamento do cérebro (e conseqüentemente
de todo o organismo) depende de um equilíbrio preciso e delicado
entre centenas de substâncias químicas. Cada uma das
dores de cabeça primárias é resultado de uma
ou mais alterações na química do sistema nervoso
central. Só recentemente, com os avanços no campo
da biologia molecular e a criação de exames capazes
de flagrar o cérebro em pleno funcionamento, os estudos sobre
as dores de cabeça primárias deslancharam. No passado,
acreditava-se que elas eram simples reflexo de distúrbios
psicológicos ou musculares.
A
mais comum das dores de cabeça primárias é
a tensional episódica. É a dor que pode surgir no
fim de um dia de muito stress. Tolerável, ela é facilmente
combatida com um comprimido de analgésico ou uma boa noite
de sono. Mas pode deixar de ser episódica e transformar-se
em crônica diária. A mais terrível é
a cefaléia em salvas, que afeta um universo minúsculo
de pessoas. O suplício que ela impõe a suas vítimas,
a maioria do sexo masculino, é aterrador. Aparece de repente,
de um lado apenas da cabeça, sob a forma de pontadas
alguns pacientes descrevem a sensação como se uma
facada lhes perfurasse o crânio. A dor é tão
intensa que a cefaléia em salvas é conhecida como
a dor de cabeça dos suicidas. Não são raros
os relatos dos que tentam acabar com o suplício batendo a
cabeça na parede. O tratamento mais adequado é, no
momento em que a dor surge, submeter o paciente à inalação
de oxigênio ou injetar-lhe analgésicos pesados.
Entre
a dor de cabeça tensional episódica e a em salvas,
encontra-se a enxaqueca. Nenhuma dor de cabeça é tão
complexa e rica em disfunções quanto ela. Por isso,
as investigações sobre a enxaqueca propiciaram grandes
progressos no diagnóstico e tratamento dos outros tipos de
dor de cabeça, especialmente a tensional episódica.
As inúmeras alterações orgânicas que
a enxaqueca provoca, mesmo entre as crises, e a vastidão
de fatores que servem de gatilho para a dor fazem com que cada paciente
de enxaqueca seja um caso único. "A enxaqueca é uma
doença de mil facetas, com a qual é difícil
lidar", diz o médico Abouch Krymchantowski, neurologista
do Centro de Avaliação e Tratamento da Dor de Cabeça
do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas em cefaléias
do Brasil. Para explicar essa complexidade, Krymchantowski costuma
citar a história de uma paciente que passou pelo seu consultório.
Era uma jovem senhora que sofria crises terríveis toda vez
que bebia cerveja sob o sol. Se bebesse à sombra, ela nada
sentia. Se tomasse sol sem beber, também não. A combinação
sol-cerveja é que deflagrava a sua enxaqueca.
As
crises de enxaqueca se caracterizam por dor pulsátil, náuseas,
vômitos, formigamento das mãos, vista embaralhada,
raciocínio confuso, aversão à luz, ao barulho
e a odores fortes. Algumas pessoas não agüentam ficar
de pé, mas, quando se sentam ou se deitam, tudo piora. É
um inferno que, deixado a seu próprio curso, pode durar até
três dias seguidos. Com efeitos tão devastadores, a
enxaqueca foi incluída na lista das vinte doenças
que mais roubam anos de vida saudável de suas vítimas,
formulada pela Organização Mundial de Saúde.
Na 12ª posição, ela está à frente
do diabetes e até da Aids. Isso não quer dizer que
a enxaqueca seja mais perigosa, e sim que incomoda mais, ao comprometer
o exercício de atividades cotidianas. "Ao contrário
do que se poderia imaginar, o comprometimento causado pela enxaqueca
não se restringe apenas às crises", diz o médico
Marcelo Bigal, professor de neurologia do Albert Einstein College
of Medicine, em Nova York. As alterações cerebrais,
responsáveis pela deflagração da enxaqueca,
têm repercussão em todo o organismo. De problemas gastrointestinais
a distúrbios do sono, os pacientes sofrem as conseqüências
da enxaqueca mesmo quando não sentem dor. Num artigo publicado
na revista Cephalalgia, da Sociedade Internacional de Cefaléia,
o neurologista Mario Peres, do Hospital Albert Einstein, de São
Paulo, mostra que esse tormento, quando é diário,
leva 70% dos pacientes a sofrer de outras doenças, como depressão,
insônia, ansiedade e fibromialgia.
Para
ser efetiva, a batalha contra a enxaqueca tem de combinar a química
dos novos remédios com uma atitude resoluta do paciente.
A exemplo da dor de cabeça tensional episódica, a
enxaqueca tem de ser combatida como se fosse um incêndio
quanto mais cedo, melhor. Esperar muito tempo para iniciar a intervenção
aumenta a freqüência e a intensidade das crises. E a
longa exposição à dor leva ao recrudescimento
do mal. Com a descoberta de drogas específicas tanto para
os momentos de crise quanto para a prevenção da doença,
o tratamento medicamentoso da enxaqueca está hoje mais eficaz.
Tentar debelar a dor com analgésicos tradicionais, por exemplo,
é arriscadíssimo. Como o mal-estar não passa,
o paciente tende a aumentar as doses. Esse consumo excessivo de
analgésicos pode levar a quadros de dores crônicas
e diárias. É importante deixar claro, ainda, que o
tratamento da enxaqueca exige muita paciência. É preciso
ensinar ao cérebro como deixar de responder aos estímulos
que antes serviam de gatilho para as crises. Uma das estratégias
mais eficazes são justamente as técnicas de relaxamento.
Apesar de os fatores desencadeantes das crises estarem ligados à
herança genética, o cérebro pode aprender,
num prazo que vai de três a cinco anos, a desvincular-se desse
traço geneticamente estabelecido.
Uma
das novidades mais promissoras na prevenção da enxaqueca
é uma substância chamada topiramato, princípio
ativo de um remédio para a epilepsia. Fabricada pelo laboratório
Janssen-Cilag e vendida sob o nome comercial de Topamax, a droga
reduz significativamente a ocorrência e a duração
das crises. Um dos trabalhos com o Topamax foi coordenado pelo médico
Abouch Krymchantowski. Ele acompanhou 180 pacientes ao longo de
dois anos. Seis de cada dez vítimas de enxaqueca relataram
uma redução de mais de 50% na freqüência
dos episódios de dor. Os resultados obtidos por Krymchantowski
equivalem aos obtidos em diversos centros internacionais de estudo
das cefaléias. O uso do Topamax para a prevenção
da enxaqueca deve ser aprovado no início de 2004 pela FDA,
a agência americana de controle de medicamentos e alimentos.
Há
três anos, um outro anticonvulsivante recebeu o aval da FDA
para o tratamento profilático da enxaqueca. Trata-se do divalproato
de sódio, vendido pelo laboratório Abbott sob o nome
comercial de Depakote. Tanto ele quanto o Topamax estimulam a produção
de uma espécie de calmante produzido pelo organismo, responsável
pelo bloqueio da dor. O Topamax age ainda em outros três mecanismos
cerebrais envolvidos na origem da enxaqueca. Com um mecanismo de
ação mais abrangente, o Topamax tende a ser mais efetivo
no que se refere à diminuição da freqüência
e intensidade das crises. Mas, como não existem estudos que
comparem diretamente as duas drogas, ainda é cedo para decretar
a supremacia de uma sobre a outra. "O divalproato de sódio
funciona mais rápido e é mais barato. Já a
adesão do paciente ao tratamento com o topiramato tende a
ser maior", diz Krymchantowski. No estudo conduzido por ele, 80%
dos pacientes seguiram até o fim com o uso do Topamax. Um
dos motivos é que um dos efeitos colaterais do medicamento
é a redução de peso. Em três meses, os
pacientes perderam, em média, 3,4 quilos. O uso de anticonvulsivantes
na prevenção da enxaqueca varia de dois a três
anos. Depois desse período, os médicos tentam diminuir
as doses da medicação ou suspendê-la por completo.
Até
o momento, é impossível saber ao certo se, assim como
o ser humano, outros animais sentem dor de cabeça. Isso porque
não dá para detectá-la por meio dos exames
disponíveis. A única forma de diagnóstico é
o relato do próprio paciente. Muitos pesquisadores tentam
averiguar se as demais espécies também sofrem do mal.
O único caso registrado pela ciência em que um animal
apresenta comportamentos semelhantes aos de uma vítima de
dor de cabeça é o de uma gorila do zoológico
de Toronto, no Canadá. Periodicamente, ela agarra a cabeça
com as mãos e a comprime com força. Nessas ocasiões,
a macaca também demonstra ter aversão à luz.
Será que ela tem enxaqueca?
| Quando
as crianças sofrem
O
ritmo de vida imposto às crianças atualmente
é o cenário propício para crises
de dor de cabeça. A escola de manhã, a
aula de inglês depois do almoço, o futebol
ou balé no final da tarde, o uso de aparelhos
para corrigir os dentes ainda na primeira infância
a carga de stress é muito grande. Quatro
em cada dez meninos e meninas de até 7 anos já
se queixaram, ao menos uma vez, de dor de cabeça.
A taxa sobe para 75% quando a faixa etária é
ampliada para os 17 anos. "A incidência de cefaléia
em crianças muito novas, com menos de 7 anos,
pode até ser maior do que imaginamos", diz o
neurologista Deusvenir de Souza Carvalho, chefe do setor
de cefaléia da Universidade Federal de São
Paulo. "Isso porque crianças muito pequenas têm
dificuldade para verbalizar o que estão sentindo."
Ao
contrário do que se acredita, crianças
têm, sim, enxaqueca. Estima-se que até
10% delas, entre os 7 e os 15 anos, sofram do problema.
As formas de manifestação do distúrbio
entre os pequenos são diferentes das dos adultos.
A dor aparece na fronte (e não na fronte e têmpora),
tende a ser bilateral (e não de um lado só
da cabeça) e tem intensidade moderada (raramente
forte). Além disso, as crises duram menos tempo.
Geralmente, não ultrapassam uma hora. Já
as disfunções do sistema nervoso autônomo
causadas pela enxaqueca tendem a ser mais severas em
crianças. Elas ficam mais pálidas, sentem
mais náuseas, vomitam com mais freqüência
e têm maior sensibilidade a luz, sons ou cheiros.
"Uma das explicações para a maior intensidade
desses fatores é o fato de que, como o cérebro
das crianças ainda não está amadurecido,
os seus mecanismos de defesa são mais precários",
diz Carvalho. Essas alterações físicas
funcionam como um bom indicativo para os pais. Como
as crises costumam ser curtas, a primeira opção
para o tratamento da dor de cabeça infantil é
o repouso, pura e simplesmente. "Crianças que
apresentem no máximo duas crises de enxaqueca
por semana, mas que não têm suas atividades
prejudicadas por elas, não devem ser submetidas
a tratamentos preventivos", diz o neurologista Abouch
Krymchantowski, do Rio de Janeiro. Se as crises são
incapacitantes e exigem o uso freqüente de analgésicos,
é o caso de partir para a prevenção.
Cerca
de 40% das crianças que apresentam enxaqueca
antes dos 10 anos ficam livres dela quando entram na
adolescência. O restante carregará o problema
pelo resto da vida, a menos que se trate adequadamente
da doença. A adolescência é uma
fase marcante para quem sofre de enxaqueca, sobretudo
para as meninas. Nessa época, a produção
de estrógeno, o principal hormônio feminino,
atinge o seu ápice. A substância aumenta
a sensibilidade dos centros nervosos responsáveis
pela dor. É isso que leva a que mulheres sofram
mais de enxaqueca do que homens.
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