Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Especial
A mais comum das dores

A dor de cabeça atinge 90% das pessoas,
em maior ou menor grau. Mas a medicina
já começa a vencer mais essa guerra


Karina Pastore

NESTA EDIÇÃO
Dor de cabeça ou enxaqueca?
Cardápio perigoso
Remédios para a hora da dor
Remédios para prevenir a dor
Alternativas aos remédios
DOS ARQUIVOS DE VEJA
"Ela não pára de doer" (28/3/2001)
"A cabeça dói..." (2/2/2000)
"Um golpe da ciência na raiz da dor" (19/10/1988)
Teste: Dor de cabeça ou enxaqueca?

Quase ninguém escapa ao tormento da dor de cabeça. Nove de cada dez pessoas já passaram por esse sofrimento. Pode não doer sempre, pode doer pouco, mas em algum momento a cabeça dói. Dói depois de um dia exaustivo de trabalho, por causa de um perfume mais forte ou de um chope estupidamente gelado. Dói na forma de pontadas, latejos ou pressão sobre as têmporas. A dor de cabeça – ou cefaléia, seu nome científico – é um distúrbio de causas e características diversas. A medicina já catalogou 150 formas de cefaléia. Há até aquela que se manifesta durante uma relação sexual, a cefaléia orgásmica. De todas, nenhuma impinge um martírio tão grande a tanta gente quanto a enxaqueca. São 900 milhões de vítimas no mundo, 26 milhões delas no Brasil. Não faz muito tempo, a medicina oferecia apenas analgésicos fortes aos enxaquecosos. O problema é que eles podem levar à dependência química ou produzir um efeito paradoxal, se consumidos rotineiramente: aumentam a incidência das crises. Foi só na última década que o tratamento desse tipo de cefaléia ganhou impulso. Além de remédios mais potentes e seguros para combater a dor em si, foram descobertas drogas capazes de prevenir os ataques de enxaqueca. "Quando tratada na época certa, de maneira adequada e pelo tempo necessário, a enxaqueca pode ter cura", diz o neurologista Edgard Raffaelli Júnior, o pioneiro dos estudos de cefaléia no Brasil.

O ponto de partida da batalha contra a enxaqueca e todos os outros tipos de dor de cabeça é o diagnóstico correto do distúrbio. Pode parecer óbvio, mas a realidade mostra que poucos pacientes recorrem a um especialista no assunto. Seria bom que o fizessem. Quando o diagnóstico é feito por um não-especialista, ele tende a estar errado em mais de 93% dos casos. E isso ajuda a piorar as crises e a perpetuar equívocos. Muita gente ainda acha que enxaqueca é sinônimo de uma dor de cabeça mais forte, o que não é verdade. Só um especialista sabe identificar os diferentes tipos de dor e receitar os cuidados específicos. Além de remédios próprios, algumas dores de cabeça hoje podem ser tratadas e até prevenidas com estratégias não medicamentosas. Entre elas, a acupuntura e as técnicas de relaxamento. Há que levar em conta ainda a importância da dieta. De quatro vítimas de dor de cabeça, em especial a enxaqueca, uma associa o início dela a uma comida ou bebida. Não, jiló não dá dor de cabeça. Mas chocolate, salame e outros embutidos, além de certos tipos de queijo, sim. Pois é, a vida é mesmo injusta.

As dores de cabeça são divididas em dois grupos. As primárias, em que a dor é ela própria a doença e o sintoma, e as secundárias. Estas surgem em decorrência de outros problemas, que vão de um simples resfriado a um tumor cerebral. O sucesso do tratamento das dores de cabeça secundárias está, é claro, diretamente vinculado aos cuidados dispensados à enfermidade que causa o mal. Uma dor de cabeça decorrente de uma infecção bacteriana, por exemplo, tende a ser debelada com a prescrição de antibióticos. Com as dores de cabeça primárias, tudo é mais complicado. Todas elas são fruto de um descompasso na química cerebral. O bom funcionamento do cérebro (e conseqüentemente de todo o organismo) depende de um equilíbrio preciso e delicado entre centenas de substâncias químicas. Cada uma das dores de cabeça primárias é resultado de uma ou mais alterações na química do sistema nervoso central. Só recentemente, com os avanços no campo da biologia molecular e a criação de exames capazes de flagrar o cérebro em pleno funcionamento, os estudos sobre as dores de cabeça primárias deslancharam. No passado, acreditava-se que elas eram simples reflexo de distúrbios psicológicos ou musculares.

A mais comum das dores de cabeça primárias é a tensional episódica. É a dor que pode surgir no fim de um dia de muito stress. Tolerável, ela é facilmente combatida com um comprimido de analgésico ou uma boa noite de sono. Mas pode deixar de ser episódica e transformar-se em crônica diária. A mais terrível é a cefaléia em salvas, que afeta um universo minúsculo de pessoas. O suplício que ela impõe a suas vítimas, a maioria do sexo masculino, é aterrador. Aparece de repente, de um lado apenas da cabeça, sob a forma de pontadas – alguns pacientes descrevem a sensação como se uma facada lhes perfurasse o crânio. A dor é tão intensa que a cefaléia em salvas é conhecida como a dor de cabeça dos suicidas. Não são raros os relatos dos que tentam acabar com o suplício batendo a cabeça na parede. O tratamento mais adequado é, no momento em que a dor surge, submeter o paciente à inalação de oxigênio ou injetar-lhe analgésicos pesados.

Entre a dor de cabeça tensional episódica e a em salvas, encontra-se a enxaqueca. Nenhuma dor de cabeça é tão complexa e rica em disfunções quanto ela. Por isso, as investigações sobre a enxaqueca propiciaram grandes progressos no diagnóstico e tratamento dos outros tipos de dor de cabeça, especialmente a tensional episódica. As inúmeras alterações orgânicas que a enxaqueca provoca, mesmo entre as crises, e a vastidão de fatores que servem de gatilho para a dor fazem com que cada paciente de enxaqueca seja um caso único. "A enxaqueca é uma doença de mil facetas, com a qual é difícil lidar", diz o médico Abouch Krymchantowski, neurologista do Centro de Avaliação e Tratamento da Dor de Cabeça do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas em cefaléias do Brasil. Para explicar essa complexidade, Krymchantowski costuma citar a história de uma paciente que passou pelo seu consultório. Era uma jovem senhora que sofria crises terríveis toda vez que bebia cerveja sob o sol. Se bebesse à sombra, ela nada sentia. Se tomasse sol sem beber, também não. A combinação sol-cerveja é que deflagrava a sua enxaqueca.

As crises de enxaqueca se caracterizam por dor pulsátil, náuseas, vômitos, formigamento das mãos, vista embaralhada, raciocínio confuso, aversão à luz, ao barulho e a odores fortes. Algumas pessoas não agüentam ficar de pé, mas, quando se sentam ou se deitam, tudo piora. É um inferno que, deixado a seu próprio curso, pode durar até três dias seguidos. Com efeitos tão devastadores, a enxaqueca foi incluída na lista das vinte doenças que mais roubam anos de vida saudável de suas vítimas, formulada pela Organização Mundial de Saúde. Na 12ª posição, ela está à frente do diabetes e até da Aids. Isso não quer dizer que a enxaqueca seja mais perigosa, e sim que incomoda mais, ao comprometer o exercício de atividades cotidianas. "Ao contrário do que se poderia imaginar, o comprometimento causado pela enxaqueca não se restringe apenas às crises", diz o médico Marcelo Bigal, professor de neurologia do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. As alterações cerebrais, responsáveis pela deflagração da enxaqueca, têm repercussão em todo o organismo. De problemas gastrointestinais a distúrbios do sono, os pacientes sofrem as conseqüências da enxaqueca mesmo quando não sentem dor. Num artigo publicado na revista Cephalalgia, da Sociedade Internacional de Cefaléia, o neurologista Mario Peres, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, mostra que esse tormento, quando é diário, leva 70% dos pacientes a sofrer de outras doenças, como depressão, insônia, ansiedade e fibromialgia.

Para ser efetiva, a batalha contra a enxaqueca tem de combinar a química dos novos remédios com uma atitude resoluta do paciente. A exemplo da dor de cabeça tensional episódica, a enxaqueca tem de ser combatida como se fosse um incêndio – quanto mais cedo, melhor. Esperar muito tempo para iniciar a intervenção aumenta a freqüência e a intensidade das crises. E a longa exposição à dor leva ao recrudescimento do mal. Com a descoberta de drogas específicas tanto para os momentos de crise quanto para a prevenção da doença, o tratamento medicamentoso da enxaqueca está hoje mais eficaz. Tentar debelar a dor com analgésicos tradicionais, por exemplo, é arriscadíssimo. Como o mal-estar não passa, o paciente tende a aumentar as doses. Esse consumo excessivo de analgésicos pode levar a quadros de dores crônicas e diárias. É importante deixar claro, ainda, que o tratamento da enxaqueca exige muita paciência. É preciso ensinar ao cérebro como deixar de responder aos estímulos que antes serviam de gatilho para as crises. Uma das estratégias mais eficazes são justamente as técnicas de relaxamento. Apesar de os fatores desencadeantes das crises estarem ligados à herança genética, o cérebro pode aprender, num prazo que vai de três a cinco anos, a desvincular-se desse traço geneticamente estabelecido.

Uma das novidades mais promissoras na prevenção da enxaqueca é uma substância chamada topiramato, princípio ativo de um remédio para a epilepsia. Fabricada pelo laboratório Janssen-Cilag e vendida sob o nome comercial de Topamax, a droga reduz significativamente a ocorrência e a duração das crises. Um dos trabalhos com o Topamax foi coordenado pelo médico Abouch Krymchantowski. Ele acompanhou 180 pacientes ao longo de dois anos. Seis de cada dez vítimas de enxaqueca relataram uma redução de mais de 50% na freqüência dos episódios de dor. Os resultados obtidos por Krymchantowski equivalem aos obtidos em diversos centros internacionais de estudo das cefaléias. O uso do Topamax para a prevenção da enxaqueca deve ser aprovado no início de 2004 pela FDA, a agência americana de controle de medicamentos e alimentos.

Há três anos, um outro anticonvulsivante recebeu o aval da FDA para o tratamento profilático da enxaqueca. Trata-se do divalproato de sódio, vendido pelo laboratório Abbott sob o nome comercial de Depakote. Tanto ele quanto o Topamax estimulam a produção de uma espécie de calmante produzido pelo organismo, responsável pelo bloqueio da dor. O Topamax age ainda em outros três mecanismos cerebrais envolvidos na origem da enxaqueca. Com um mecanismo de ação mais abrangente, o Topamax tende a ser mais efetivo no que se refere à diminuição da freqüência e intensidade das crises. Mas, como não existem estudos que comparem diretamente as duas drogas, ainda é cedo para decretar a supremacia de uma sobre a outra. "O divalproato de sódio funciona mais rápido e é mais barato. Já a adesão do paciente ao tratamento com o topiramato tende a ser maior", diz Krymchantowski. No estudo conduzido por ele, 80% dos pacientes seguiram até o fim com o uso do Topamax. Um dos motivos é que um dos efeitos colaterais do medicamento é a redução de peso. Em três meses, os pacientes perderam, em média, 3,4 quilos. O uso de anticonvulsivantes na prevenção da enxaqueca varia de dois a três anos. Depois desse período, os médicos tentam diminuir as doses da medicação ou suspendê-la por completo.

Até o momento, é impossível saber ao certo se, assim como o ser humano, outros animais sentem dor de cabeça. Isso porque não dá para detectá-la por meio dos exames disponíveis. A única forma de diagnóstico é o relato do próprio paciente. Muitos pesquisadores tentam averiguar se as demais espécies também sofrem do mal. O único caso registrado pela ciência em que um animal apresenta comportamentos semelhantes aos de uma vítima de dor de cabeça é o de uma gorila do zoológico de Toronto, no Canadá. Periodicamente, ela agarra a cabeça com as mãos e a comprime com força. Nessas ocasiões, a macaca também demonstra ter aversão à luz. Será que ela tem enxaqueca?

 
Quando as crianças sofrem

O ritmo de vida imposto às crianças atualmente é o cenário propício para crises de dor de cabeça. A escola de manhã, a aula de inglês depois do almoço, o futebol ou balé no final da tarde, o uso de aparelhos para corrigir os dentes ainda na primeira infância – a carga de stress é muito grande. Quatro em cada dez meninos e meninas de até 7 anos já se queixaram, ao menos uma vez, de dor de cabeça. A taxa sobe para 75% quando a faixa etária é ampliada para os 17 anos. "A incidência de cefaléia em crianças muito novas, com menos de 7 anos, pode até ser maior do que imaginamos", diz o neurologista Deusvenir de Souza Carvalho, chefe do setor de cefaléia da Universidade Federal de São Paulo. "Isso porque crianças muito pequenas têm dificuldade para verbalizar o que estão sentindo."

Ao contrário do que se acredita, crianças têm, sim, enxaqueca. Estima-se que até 10% delas, entre os 7 e os 15 anos, sofram do problema. As formas de manifestação do distúrbio entre os pequenos são diferentes das dos adultos. A dor aparece na fronte (e não na fronte e têmpora), tende a ser bilateral (e não de um lado só da cabeça) e tem intensidade moderada (raramente forte). Além disso, as crises duram menos tempo. Geralmente, não ultrapassam uma hora. Já as disfunções do sistema nervoso autônomo causadas pela enxaqueca tendem a ser mais severas em crianças. Elas ficam mais pálidas, sentem mais náuseas, vomitam com mais freqüência e têm maior sensibilidade a luz, sons ou cheiros. "Uma das explicações para a maior intensidade desses fatores é o fato de que, como o cérebro das crianças ainda não está amadurecido, os seus mecanismos de defesa são mais precários", diz Carvalho. Essas alterações físicas funcionam como um bom indicativo para os pais. Como as crises costumam ser curtas, a primeira opção para o tratamento da dor de cabeça infantil é o repouso, pura e simplesmente. "Crianças que apresentem no máximo duas crises de enxaqueca por semana, mas que não têm suas atividades prejudicadas por elas, não devem ser submetidas a tratamentos preventivos", diz o neurologista Abouch Krymchantowski, do Rio de Janeiro. Se as crises são incapacitantes e exigem o uso freqüente de analgésicos, é o caso de partir para a prevenção.

Cerca de 40% das crianças que apresentam enxaqueca antes dos 10 anos ficam livres dela quando entram na adolescência. O restante carregará o problema pelo resto da vida, a menos que se trate adequadamente da doença. A adolescência é uma fase marcante para quem sofre de enxaqueca, sobretudo para as meninas. Nessa época, a produção de estrógeno, o principal hormônio feminino, atinge o seu ápice. A substância aumenta a sensibilidade dos centros nervosos responsáveis pela dor. É isso que leva a que mulheres sofram mais de enxaqueca do que homens.

 
 
 
 
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