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Reforma
agrária
Rossetto
todo feliz
nos palácios e os
sem-terra botando
pra quebrar
É
até natural que o MST afie as garras
sob um governo do PT, mas surpreende
que o PT vacile tanto
na condução
da
reforma agrária

Malu
Gaspar
Dida Sampaio/AE
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| Rossetto,
na solenidade no Palácio do Planalto, na semana passada:
apesar de tudo, ele não caiu em desgraça
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Com
sua lógica imutável e uma estrutura espalhada por
todo o país, o MST voltou a incomodar no governo petista,
depois da trégua observada na campanha presidencial. Na semana
passada, os sem-terra tomaram onze postos de pedágio nas
rodovias do Paraná. Em Pernambuco, cansados de esperar pelo
governo, invadiram um engenho de açúcar, dividiram
os lotes por conta própria e começaram a plantar.
No Rio Grande do Sul, numa região perto da fronteira com
a Argentina, paira a ameaça de confronto entre sem-terra
e fazendeiros. No sul do Pará, epicentro de conflitos rurais,
quarenta famílias invadiram 3.000 hectares. Em Mato Grosso,
onde setenta fazendas já estão sob ocupação
do MST, 300 famílias invadiram outra área. Houve,
ainda, ocupações em Minas Gerais e em São Paulo.
Na terça-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
aproveitou o lançamento do Plano Safra para a Agricultura
Familiar para pedir paciência ao MST. Líderes do movimento,
presentes à cerimônia com o indefectível boné
vermelho, ignoraram o apelo e previram o aumento das invasões.
Desde o início do governo Lula, o MST fez 110 invasões
em quase todos os Estados, e, nos conflitos ocorridos até
agora, já houve dez mortes, mesmo número de vítimas
fatais em 2000. O MST está voltando a afiar as garras
e alguém parece continuar despreocupado em Brasília.
Roberto Lobo/JC/AE
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| Os
sem-terra durante a invasão de um engenho em Pernambuco: eles
se dizem cansados de esperar pelas medidas do governo em Brasília
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Com
seis meses no posto, o ministro Miguel Rossetto, gaúcho,
43 anos, dois casamentos e quatro filhos, tem feito pouca coisa
prática além de achar que está tudo normal.
Em sua gestão, até agora, o governo implantou oitenta
projetos de assentamentos, colocando 2.500 famílias na terra.
É bem menos do que o governo anterior fazia no mesmo período.
No primeiro semestre do ano passado, os tucanos montaram 136 assentamentos
e alojaram 7.800 famílias. É verdade que já
estavam habituados à tarefa, enquanto o atual governo acabou
de chegar, mas existem sinais inquietantes de letargia. Desde janeiro,
por exemplo, Lula assinou 84 decretos desapropriando 200.000 hectares,
mas as vistorias das terras, passo seguinte à desapropriação,
só começaram há menos de um mês. Considerando
que da vistoria à efetiva ocupação da terra
se consomem pelo menos seis meses, o governo não atingirá
a meta, pouco ambiciosa, diga-se, de assentar 60.000 famílias
até o fim do ano.
O universo rural brasileiro, ao conjugar a faina dos sem-terra com
a paralisia do governo, produziu uma realidade inesperada. De um
lado, derrubou o mito de que o MST, atuando sob um governo de velhos
aliados, ficaria mais manso. A impressão tornou-se mais forte
depois que o ministro Rossetto loteou as superintendências
do Incra entre os militantes da causa agrária, dividindo
os postos de comando entre o MST, a Comissão Pastoral da
Terra e a Contag. A estratégia, em vez de apaziguar os sem-terra,
parece ter-lhes ampliado a ousadia, como mostram suas ações,
cada vez mais desinibidas. No fundo, não é um desdobramento
tão surpreendente, já que há tempos os líderes
do MST não escondem que seu objetivo final não é
a reforma agrária, mas a construção da utopia
socialista. Natural, portanto, que, mesmo em postos de comando,
eles mantenham a agitação. Por outro lado, o dado
mais surpreendente apareceu no próprio governo.
A realidade está mostrando que o PT, apesar de seu compromisso
histórico com a reforma agrária, não sabia
exatamente o que fazer no campo. Esperava-se que, por sua intimidade
com o assunto, tivesse uma visão clara do caminho a seguir
e fosse capaz de aplicar suas políticas com mais agilidade.
"O governo está moroso", diz João Pedro Stedile, o
mais conhecido líder do MST, ao justificar a impaciência
dos sem-terra. Stedile pode usar a inoperância do governo
como pretexto para radicalizar, mas é impossível discordar
de seu diagnóstico. Na reforma agrária, o governo
está tropeçando como fez no programa Fome Zero. Apesar
de ser um tema tão caro ao presidente, e tão repisado
pelo PT em duas décadas de militância oposicionista,
o combate à fome começou com as trapalhadas dos neófitos.
Curiosamente, tanto o Fome Zero quanto a reforma agrária
são da "área social", terreno em que o PT prometeu
uma virada espetacular.
Jonne Roriz/AE
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Manifestação
dos sem-terra, em São Paulo: a meta não
é
só a terra, mas a utopia socialista
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Em
vez disso, o ministro Miguel Rossetto, militante da Democracia Socialista,
uma das correntes radicais do PT, iniciou a semana passada sob intervenção
branca. O presidente escalou dois ministros José Dirceu
e Luiz Dulci para negociar com os sem-terra. O ministro não
caiu em desgraça. No Planalto, avalia-se apenas que, por
sua proximidade com o MST, onde cultiva velhas amizades, Rossetto
tem dificuldade de ser duro com os sem-terra. Enquanto Dirceu e
Dulci cuidarão dos excessos do MST, Rossetto ficará
a cargo da execução da reforma em si que, promete-se,
agora vai deslanchar. No Ministério do Desenvolvimento Agrário,
alega-se que pouco se fez até aqui porque foi preciso refazer
tudo. "Era impossível começar de onde o governo anterior
parou porque nossa política não dialoga com as que
estavam em curso", explica Guilherme Cassel, braço direito
de Rossetto. Segundo ele, nestes seis meses, o ministério
preocupou-se em reestruturar as superintendências do Incra
e redefinir critérios para a escolha de áreas a ser
desapropriadas.
A reforma agrária é um problema de dois séculos
atrás, e o Brasil é a única nação
de extensão continental que ainda não achou uma saída
agrária, embora o país venha passando, nas últimas
décadas, por acentuado e previsível
processo de urbanização. Nos países desenvolvidos,
mesmo aqueles com forte tradição agrícola,
como França e EUA, a população rural é
muito pequena, tanto pela crescente mecanização do
campo quanto pelo fascínio que as cidades, esses aglomerados
coloridos e luminosos, sempre exerceram sobre o homem. Conter a
urbanização, portanto, é navegar contra a maré.
O atual governo, diz Guilherme Cassel, não está dedicado
à quantidade, e sim à qualidade da reforma agrária.
Quer, por exemplo, dotar os assentamentos que já existem
de infra-estrutura, como água, luz e acesso a vias de escoamento
da produção. É, de fato, uma boa idéia,
que pode ajudar a fixar o homem no campo, porém seria muito
melhor se saísse do papel de uma vez.
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