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Diogo
Mainardi
Gil é muito Logun-edé
"Se
a Bahia é realmente tão boa assim, por
que todo baiano ilustre aproveita a primeira
oportunidade para se mudar de lá?"
Gilberto Gil revelou que seu orixá é Logun-edé,
a única divindade hermafrodita do candomblé. Quando
está na fase masculina, Logun-edé caça com
um arco-e-flecha. Quando está na fase feminina, abana-se
sedutoramente com um leque. Quem tem Logun-edé como orixá
costuma ser tão incerto e ambíguo quanto ele. Gil
é incerto e ambíguo em suas declarações.
A respeito de suas velhas canções: "Hoje estou além.
Ou aquém". A respeito das dificuldades da vida: "Como numa
corrida de obstáculos, se não dá para passar
por cima, passa por baixo". A respeito de moralidade: "Tudo tem
dois lados, tudo certo, tudo errado". A respeito de disco voador:
"Tanto faz acreditar ou não. Se existe, ótimo. Se
não existe, também".
Gil sabe perfeitamente que discos voadores existem, porque já
viu um, na Bahia. E, sempre na Bahia, viu também um certo
Alapalá, ancestral de Ogum ou coisa que o valha. Com discos
voadores e Alapalá, daria até vontade de visitar a
Bahia. O problema é que, se a Bahia é realmente tão
boa assim, por que todo baiano ilustre aproveita a primeira oportunidade
para se mudar de lá? Gil foi morar no Rio de Janeiro. O pai-de-santo
de sua mulher, Augusto César, acompanhou-o, instalando-se
numa propriedade do próprio Gil. João Gilberto mora
no Leblon, assim como João Ubaldo Ribeiro. Caetano Veloso
tem casa em Ipanema. Glauber Rocha era carioca de adoção.
O mentor intelectual de Lula, Duda Mendonça, foi ganhar dinheiro
em São Paulo. Essa gente sabe o que é bom. Se nenhum
deles quis ficar na Bahia, algum motivo deve haver.
A Bahia é considerada uma das melhores metas turísticas
do país. Lula pretende incentivar a indústria turística
brasileira. Tentou até vender um pacote completo para Bush,
afirmando que, além de futebol e Carnaval, temos muitas outras
maravilhas. Em abril, no lançamento do Plano Nacional de
Turismo, cujo objetivo é triplicar o número de turistas
estrangeiros até 2007, Lula declarou que nossa "mistura de
raças gerou uma gente alegre, solidária, onde todos
se encontram num ambiente de convivência pacífica".
Considerando todos os assassinatos que se cometem diariamente, pacífico
talvez não seja o termo adequado. Lula sempre repete que
a solução para a criminalidade não é
invadir as favelas, e sim as coberturas das capitais, onde se escondem
os verdadeiros criminosos. Os alegres e solidários assassinos
do segurança do filho do presidente moram numa cobertura?
O ministro do Turismo, Walfrido Guia, sugere uma solução
diferente para o problema. Ele acredita que a criminalidade só
irá diminuir quando a população abandonar seu
"estado de letargia" e começar a reagir: "Hoje, um bandido
chega, saca a bolsa das pessoas e todo mundo fica olhando". Guia
acha que somos complacentes com os criminosos. De acordo com ele,
devemos revidar as agressões, atacando os pivetes em grupos
de 100 pessoas. O Plano Nacional de Turismo tem tudo para dar certo.
Os turistas estrangeiros poderão se deliciar em nossas cidades
com uma multidão de justiceiros linchando pivetes e invadindo
coberturas. Com um pouquinho de sorte, também poderão
ver discos voadores e Alapalá.
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