Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Diogo Mainardi
Gil é muito Logun-edé

"Se a Bahia é realmente tão boa assim, por
que todo baiano ilustre aproveita a primeira
oportunidade para se mudar de lá?"

Gilberto Gil revelou que seu orixá é Logun-edé, a única divindade hermafrodita do candomblé. Quando está na fase masculina, Logun-edé caça com um arco-e-flecha. Quando está na fase feminina, abana-se sedutoramente com um leque. Quem tem Logun-edé como orixá costuma ser tão incerto e ambíguo quanto ele. Gil é incerto e ambíguo em suas declarações. A respeito de suas velhas canções: "Hoje estou além. Ou aquém". A respeito das dificuldades da vida: "Como numa corrida de obstáculos, se não dá para passar por cima, passa por baixo". A respeito de moralidade: "Tudo tem dois lados, tudo certo, tudo errado". A respeito de disco voador: "Tanto faz acreditar ou não. Se existe, ótimo. Se não existe, também".

Gil sabe perfeitamente que discos voadores existem, porque já viu um, na Bahia. E, sempre na Bahia, viu também um certo Alapalá, ancestral de Ogum ou coisa que o valha. Com discos voadores e Alapalá, daria até vontade de visitar a Bahia. O problema é que, se a Bahia é realmente tão boa assim, por que todo baiano ilustre aproveita a primeira oportunidade para se mudar de lá? Gil foi morar no Rio de Janeiro. O pai-de-santo de sua mulher, Augusto César, acompanhou-o, instalando-se numa propriedade do próprio Gil. João Gilberto mora no Leblon, assim como João Ubaldo Ribeiro. Caetano Veloso tem casa em Ipanema. Glauber Rocha era carioca de adoção. O mentor intelectual de Lula, Duda Mendonça, foi ganhar dinheiro em São Paulo. Essa gente sabe o que é bom. Se nenhum deles quis ficar na Bahia, algum motivo deve haver.

A Bahia é considerada uma das melhores metas turísticas do país. Lula pretende incentivar a indústria turística brasileira. Tentou até vender um pacote completo para Bush, afirmando que, além de futebol e Carnaval, temos muitas outras maravilhas. Em abril, no lançamento do Plano Nacional de Turismo, cujo objetivo é triplicar o número de turistas estrangeiros até 2007, Lula declarou que nossa "mistura de raças gerou uma gente alegre, solidária, onde todos se encontram num ambiente de convivência pacífica". Considerando todos os assassinatos que se cometem diariamente, pacífico talvez não seja o termo adequado. Lula sempre repete que a solução para a criminalidade não é invadir as favelas, e sim as coberturas das capitais, onde se escondem os verdadeiros criminosos. Os alegres e solidários assassinos do segurança do filho do presidente moram numa cobertura?

O ministro do Turismo, Walfrido Guia, sugere uma solução diferente para o problema. Ele acredita que a criminalidade só irá diminuir quando a população abandonar seu "estado de letargia" e começar a reagir: "Hoje, um bandido chega, saca a bolsa das pessoas e todo mundo fica olhando". Guia acha que somos complacentes com os criminosos. De acordo com ele, devemos revidar as agressões, atacando os pivetes em grupos de 100 pessoas. O Plano Nacional de Turismo tem tudo para dar certo. Os turistas estrangeiros poderão se deliciar em nossas cidades com uma multidão de justiceiros linchando pivetes e invadindo coberturas. Com um pouquinho de sorte, também poderão ver discos voadores e Alapalá.

 
 
 
 
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