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Entrevista:
Alain
Belda
O
Brasil é ausente
O
executivo brasileiro mais bem-sucedido
no mundo defende que o país seja mais
firme em suas negociações comerciais
Ronaldo
França
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Daniela Picoral

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"Quando
o Brasil
se faz notar, normalmente é por bobagem, como
na posição sobre a guerra no Iraque. Assim,
não vai para a frente"
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Nos
últimos nove anos, Alain Belda, 59 anos, festejado como o
mais bem-sucedido executivo brasileiro no exterior, tem estado no
topo de uma das maiores corporações do planeta. Ocupa
hoje o lugar de presidente do conselho de administração
e principal executivo da Alcoa, a maior produtora mundial de alumínio.
Trata-se de uma corporação de superlativos 21,9 bilhões
de dólares de faturamento anual e 128.000 funcionários
em 300 unidades industriais ao redor do globo. Também integra
o conselho dos gigantes Citigroup, DuPont e da Fundação
Ford. Nascido no Marrocos e naturalizado brasileiro, Belda trabalha
em Nova York. É de lá que tem observado os movimentos
do governo brasileiro, com o qual colabora como integrante do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). "O Brasil é
ausente. Tem de se colocar numa posição comercial.
Tem de dizer a que vem e competir", afirma. Para falar das chances
do país no competitivo mercado global é que ele recebeu
VEJA, para a seguinte entrevista.
Veja Como o Brasil é visto hoje no mundo?
Belda O
Brasil é ausente. Não é politicamente presente,
por exemplo, na mentalidade americana. Quando se faz notar, normalmente
é por bobagem, como foi o caso do posicionamento com relação
ao Iraque. Não ganhamos ponto nem com os americanos nem com
os europeus. Ficamos sempre naquela posição que não
vai para a frente. Há dois anos, participei da elaboração
de um documento do Conselho de Relações Exteriores
dos Estados Unidos. A idéia desse documento era que
George W. Bush, ao entrar, visse o Brasil como um parceiro. Estados
Unidos e Brasil deviam se abraçar e caminhar juntos. Tudo
isso, claro, sem esquecer que os dois países competem em
vários setores. Nós somos exportadores de soja e eles
também são. O mesmo acontece com milho e carne, e
por aí vai. Mas o fato é que a gente nunca se coloca
numa posição de parceiro. São dois países
continentais. Temos tudo para isso.
Veja E qual seria a abordagem ideal?
Belda
Devíamos sentar para conversar. Remover os obstáculos.
Por exemplo: os americanos protegem sua agricultura. Isso ninguém
discute. Mas a Europa protege muito mais. Então devíamos
dizer para o americano: "Olha aqui, vamos brigar contra a Europa
juntos e depois a gente discute nossas diferenças". Mas o
fato é que não se tem uma relação de
parceria. Em vez de jogar um jogo pesado, de gente grande, o Brasil
fica no meio do caminho e não resolve. O Brasil é
uma economia que tem um potencial quase tão grande quanto
o da China, para citar um país que está crescendo
a 10% ao ano. Temos muitas vantagens competitivas e não podemos
perder tempo com bobagem.
Veja
Quais são as vantagens brasileiras?
Belda Temos
um grau de maturidade de nossas instituições que a
China não tem, seja porque ainda é um país
comunista, seja porque é uma ditadura. O Brasil tem um Código
Comercial escrito em 1850 e um Código Civil todo montado.
Tem a experiência de multinacionais trabalhando aqui. Temos
capacidade organizacional, escola, temos tudo. E, no entanto, o
Brasil não compete. O Brasil tem de dizer a que vem. Tem
de se colocar.
Veja
Na última conversa com o presidente Bush, o presidente
Lula deu indicações de que caminha para o acordo da
Alca. Mas na visita anterior havia deixado claro que essa negociação
será dura. Ele já não está fazendo o
que o senhor propõe?
Belda
Mas parou por aí. O que aconteceu depois? O Brasil tem de
se colocar numa posição comercial. Temos 1 trilhão
de reais de PIB e precisamos levar isso para 2 ou 3 trilhões.
O ponto é: como vamos fazer isso? Como elevar para 10.000
dólares a renda per capita brasileira, nos próximos
oito anos, para falar somente do governo Lula? Esse é que
tem de ser o jogo do Brasil. O resto é tudo conversa. O espaço
a ser ocupado está ficando pequeno para o Brasil, e a China
está entrando de braçada. Outro dia estive com o primeiro-ministro
chinês e ele me disse que eles têm lá 250 milhões
de estudantes aprendendo inglês a sério. Chega a ser
engraçado. Neste momento, tem mais gente aprendendo inglês
na China que nos Estados Unidos. Eles entenderam que, para participar
do mundo de hoje, a pessoa tem de falar inglês.
Veja Qual o retorno que os chineses estão tendo?
Belda
Vou dar um exemplo. Na Alcoa, nós estamos transferindo serviços
que eram feitos nos Estados Unidos, como contabilidade, para a China
ou para a Índia, onde se fala inglês bem. Podiam vir
para o Brasil. É trabalho bom, de gente de bom nível.
Outro dia tive um jantar com o Larry Ellison, presidente da Oracle,
uma das maiores empresas de softwares empresariais do mundo. Ele
me contou que eles passaram toda essa parte de serviços internos
para a Irlanda. O centro de computação deles opera
meio dia administrado pelo pessoal de Austin, no Texas, e outro
meio dia pelo pessoal que está na Austrália. Conheço
empresas em que o executivo está baseado nos Estados Unidos
e a secretária dele fica na Índia. Isso porque a secretária
indiana custa 1 000 dólares por mês e a secretária
em Nova York, 5 000 . Isso está acontecendo e nós
aqui nem ao menos estamos falando desse assunto. É o que
dá estarmos há vinte anos sem uma definição
de para onde vamos caminhar.
Veja Não se pode esquecer, ao falar em vinte
anos, que quase a metade desse tempo foi de governo Fernando Henrique
Cardoso. O que faltou a FHC?
Belda
Faltou uma visão para a frente, sobre o que seria o país.
O Fernando Henrique fez um trabalho institucional maravilhoso. A
contenção das taxas de inflação foi
um serviço fantástico, só que faltou o Juscelino
Kubitschek nele. Aliás, estive com ele e lhe disse isso.
Faltou a visão do que o Brasil pode ser daqui a vinte anos.
O planejamento que houve no Brasil foi do Juscelino, cujo modelo
foi até 1973, quando tivemos a primeira crise do petróleo.
Nesse momento deveria ter sido ajustado o modelo, mas não
foi. Ele foi prolongado até quebrar o país, em 1982,
e aí depois ficamos até 2002 consertando esse problema.
Mas não saímos do modelo de 1956.
Veja
Mas basta olhar o país hoje para perceber alguns
avanços, como na telefonia, na agricultura, na educação
e em vários outros setores.
Belda
É verdade, mas o fato é que estamos há vinte
anos basicamente sem crescimento. Isso é ruim porque o mercado
interno de um país é que lhe dá a capacidade
de consumo. Se as empresas não encontram escala de produção
aqui, vão investir em outro lugar.
Veja
Aumentar a renda per capita sem distribuição
de renda não é suficiente para consolidar um mercado
interno. O que é preciso fazer para finalmente distribuir
a renda neste país?
Belda
Sei que o que vou dizer não é, hoje em dia, politicamente
correto, mas acredito que criando renda teremos distribuição
de renda naturalmente. Quando você tem uma economia que não
cresce, passa por um processo predatório que é o da
concentração de renda.
Veja
O senhor está dizendo que primeiro é preciso
crescer o bolo para depois reparti-lo, como defendia o então
ministro Delfim Netto na década de 70?
Belda
É o que estou dizendo. Todo mundo acha isso errado, mas não
conheço outro jeito. Qual é o jeito? Aumentar a tributação
para fazer a distribuição? Então quem ganha
mais paga mais de imposto de renda? Pode até ser esse o caminho.
Agora, isso parte do princípio de que o Estado oferece o
melhor serviço à população, o que ainda
não vi acontecer no Brasil. Portanto, o que este país
precisa é crescer.
Veja E por que o ex-presidente Fernando Henrique não
conseguiu avançar nessa direção em seus oito
anos?
Belda
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que desses oito anos
quatro foram perdidos com a manutenção da taxa de
câmbio fixa. E, depois, o Malan (Pedro Malan, ministro
da Fazenda) travou tudo no controle da inflação,
na estabilidade macroeconômica. Foi como se ele quisesse ganhar
o jogo de futebol administrando o placar eletrônico. O jogo
é no campo, são os onze fulanos fazendo gol. Nós
ficamos controlando o botão do placar para não deixá-lo
se mexer.
Veja Recentemente o país se mobilizou em torno
da discussão sobre a taxa de juros. Até o vice-presidente,
José Alencar, entrou na polêmica. Qual é sua
posição?
Belda
A taxa de juros depende de uma série de fatores, não
só do componente político. Agora, que ela é
muito alta, isso é. O que você tem no Brasil é
que meia dúzia de bancos controla todo o fluxo de caixa nacional.
Eles acham que é muito mais fácil emprestar ao governo
que a qualquer outro. Os bancos estão certos. Eu também
ganho para obter os melhores resultados para a minha companhia.
O problema é que a opção de ganhar dinheiro
no Brasil emprestando dinheiro ao governo é boa demais.
Veja Qual a visão que o mundo tem hoje do governo
Lula?
Belda Infelizmente,
a campanha eleitoral explorou muito o fato de ele ser uma pessoa
que veio da esquerda, o passado sindical, a possibilidade de que
ele, ao ganhar, fosse um populista tipo Hugo Chávez (presidente
da Venezuela) e destruiria os avanços da estabilidade.
Isso foi muito explorado pelo pessoal do PSDB, o que deixou todo
mundo lá fora com medo. Nunca votei no Lula na minha vida,
mas, quando, um ano atrás, os bancos começaram a cortar
as linhas de crédito, sentei com banqueiros para dizer que
não acreditava que ele fosse ser um problema. Hoje percebo
que há muito boa aceitação no exterior. O ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, também já ganhou uma
credibilidade enorme lá fora. O que depreeendo é que
há uma expectativa sobre o que o Brasil vai fazer agora para
crescer e para resolver o problema da violência.
Veja E o Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social, do qual o senhor é um dos integrantes, funciona
ou é ocioso?
Belda
Não tenho sido requisitado, mas acho que está indo
bem. O conceito da criação do conselho foi muito bom.
A maior dificuldade do mundo para os políticos é ter
a coragem de enfrentar assuntos que mexem com todo mundo. Político
é bom para resolver assunto marginal, fazer uma mudancinha
aqui, alterar um imposto de 2,1% para 2,3%. Agora, quando você
pega um assunto da amplitude dos que estão sendo discutidos
no CDES e ataca de frente, é a coisa mais difícil
do mundo.
Veja
Falando em representação política,
um dos pontos principais da reforma política é a revisão
do financiamento de campanhas, para evitar que os políticos
saiam pegando dinheiro com empresários. O que o senhor acha
disso?
Belda
Nós,
na Alcoa, não temos mais isso. Acabei com esse negócio.
Antigamente, os empregados de uma fábrica tinham um deputado
da região que sempre os protegia quando aparecia um problema
qualquer, fosse com energia, meio ambiente, não sei o que
mais. Todo ano pingavam um dinheiro na campanha dele. Acabei com
isso. Não acredito em dar dinheiro a político. Político
é político, no mundo inteiro. Para ser eleito precisa
de dinheiro, de voto e de trabalho. Vai ter de conseguir de um jeito
qualquer. Acho que quem vai trabalhar no serviço público
tem de fazê-lo por convicção, por cidadania.
Não por outra razão. Tanto que hoje há uma
discussão grande nos Estados Unidos sobre quanto tempo um
político pode permanecer na vida pública. Já
existe um movimento para que, ao fim de quatro ou oito anos, o sujeito
deixe a política se não tiver atingido um cargo superior.
Veja
Na formação do governo, o senhor foi sondado
para ocupar um ministério. Por que não aceitou?
Belda
Não era a hora, mas também devo confessar que não
tenho a menor competência para isso.
Veja
Por falar em competência, o senhor é o executivo
brasileiro mais bem-sucedido no mundo. Como se conquista uma trajetória
pessoal desse quilate?
Belda
Precisa mesmo falar nisso?
Veja
O senhor não gosta do assunto?
Belda
Não é isso. É que não leva a nada. Tem
tantas circunstâncias na vida que te fazem bem-sucedido. Você
tem de estar no lugar certo, na hora certa, ter a competência
certa e, de repente, tudo isso se junta na mesma hora. Não
tem receita do bolo. Claro que tem de trabalhar duro, mais do que
os outros. Contudo tem gente que estava superpreparada, mas trabalhava
na Enron quando a companhia quebrou. O sujeito era melhor que eu,
porém estava na companhia errada. Todo mundo quer saber qual
é a receita do bolo. Não tem. É trabalhar muito
e ter sorte.
Veja E quando foi exatamente que a sorte o ajudou?
Belda
A maior sorte que tive na vida foi ter um desafio permanente. Sempre
digo para o pessoal que está entrando na companhia que se
o sujeito prestar atenção em quando ele está
feliz no trabalho vai ver que é justamente naqueles momentos
em que está fazendo alguma coisa acima do que achava que
sabia fazer. Nessas situações, ele normalmente está
trabalhando quase 24 horas por dia e recebe um salário abaixo
do que merecia, porque estava trabalhando pelo cargo acima. Meu
trabalho na companhia é sempre oferecer isso aos que chegam:
trabalhar muito, mais do que se julga capaz, e estar sendo mal pago
por isso. Assim é que as pessoas crescem.
Veja Quando o senhor era o presidente da Alcoa no Brasil,
recusou por quatro vezes o convite para ir trabalhar nos Estados
Unidos. Há uma máxima no mundo executivo que diz que
não se recusa convite para mudar de cargo nem de região.
As recusas não lhe pareciam um suicídio profissional?
Belda Eram,
mas eu não queria ir. Estava separado e com duas filhas morando
no Brasil. Acabei aceitando porque não sei dizer não
a um desafio e porque ficaria apenas três anos. Eu me lembro
de quando fui para minha primeira reunião. Puseram uns dez
gringos trabalhando para mim e, desses dez, no mínimo três
achavam que eles é que deviam estar no meu cargo. O desafio
foi saber como é que eu chegava neles. Meu homem de recursos
humanos me disse que eu deveria dar a eles uma bandeira nova e demitir
um. Isso serviria para mostrar que havia um projeto novo ao qual
todos podiam se agarrar. E a demissão era para afirmar minha
autoridade. Então contei essa história para os dez
sujeitos e disse: "Olha, não tenho nenhuma bandeira nova,
só tenho a outra opção".
Veja
E então?
Belda
Entramos num acordo.
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