Edição 1809 . 2 de julho de 2003

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Entrevista: Alain Belda
O Brasil é ausente

O executivo brasileiro mais bem-sucedido
no mundo defende que o país seja mais
firme em suas negociações comerciais

Ronaldo França

 

Daniela Picoral

"Quando o Brasil se faz notar, normalmente é por bobagem, como na posição sobre a guerra no Iraque. Assim, não vai para a frente"

Nos últimos nove anos, Alain Belda, 59 anos, festejado como o mais bem-sucedido executivo brasileiro no exterior, tem estado no topo de uma das maiores corporações do planeta. Ocupa hoje o lugar de presidente do conselho de administração e principal executivo da Alcoa, a maior produtora mundial de alumínio. Trata-se de uma corporação de superlativos 21,9 bilhões de dólares de faturamento anual e 128.000 funcionários em 300 unidades industriais ao redor do globo. Também integra o conselho dos gigantes Citigroup, DuPont e da Fundação Ford. Nascido no Marrocos e naturalizado brasileiro, Belda trabalha em Nova York. É de lá que tem observado os movimentos do governo brasileiro, com o qual colabora como integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). "O Brasil é ausente. Tem de se colocar numa posição comercial. Tem de dizer a que vem e competir", afirma. Para falar das chances do país no competitivo mercado global é que ele recebeu VEJA, para a seguinte entrevista.  

Veja – Como o Brasil é visto hoje no mundo?
Belda – O Brasil é ausente. Não é politicamente presente, por exemplo, na mentalidade americana. Quando se faz notar, normalmente é por bobagem, como foi o caso do posicionamento com relação ao Iraque. Não ganhamos ponto nem com os americanos nem com os europeus. Ficamos sempre naquela posição que não vai para a frente. Há dois anos, participei da elaboração de um documento do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos. A idéia desse documento era que George W. Bush, ao entrar, visse o Brasil como um parceiro. Estados Unidos e Brasil deviam se abraçar e caminhar juntos. Tudo isso, claro, sem esquecer que os dois países competem em vários setores. Nós somos exportadores de soja e eles também são. O mesmo acontece com milho e carne, e por aí vai. Mas o fato é que a gente nunca se coloca numa posição de parceiro. São dois países continentais. Temos tudo para isso.

Veja – E qual seria a abordagem ideal?
Belda – Devíamos sentar para conversar. Remover os obstáculos. Por exemplo: os americanos protegem sua agricultura. Isso ninguém discute. Mas a Europa protege muito mais. Então devíamos dizer para o americano: "Olha aqui, vamos brigar contra a Europa juntos e depois a gente discute nossas diferenças". Mas o fato é que não se tem uma relação de parceria. Em vez de jogar um jogo pesado, de gente grande, o Brasil fica no meio do caminho e não resolve. O Brasil é uma economia que tem um potencial quase tão grande quanto o da China, para citar um país que está crescendo a 10% ao ano. Temos muitas vantagens competitivas e não podemos perder tempo com bobagem.

Veja – Quais são as vantagens brasileiras?
Belda – Temos um grau de maturidade de nossas instituições que a China não tem, seja porque ainda é um país comunista, seja porque é uma ditadura. O Brasil tem um Código Comercial escrito em 1850 e um Código Civil todo montado. Tem a experiência de multinacionais trabalhando aqui. Temos capacidade organizacional, escola, temos tudo. E, no entanto, o Brasil não compete. O Brasil tem de dizer a que vem. Tem de se colocar.

Veja – Na última conversa com o presidente Bush, o presidente Lula deu indicações de que caminha para o acordo da Alca. Mas na visita anterior havia deixado claro que essa negociação será dura. Ele já não está fazendo o que o senhor propõe?
Belda – Mas parou por aí. O que aconteceu depois? O Brasil tem de se colocar numa posição comercial. Temos 1 trilhão de reais de PIB e precisamos levar isso para 2 ou 3 trilhões. O ponto é: como vamos fazer isso? Como elevar para 10.000 dólares a renda per capita brasileira, nos próximos oito anos, para falar somente do governo Lula? Esse é que tem de ser o jogo do Brasil. O resto é tudo conversa. O espaço a ser ocupado está ficando pequeno para o Brasil, e a China está entrando de braçada. Outro dia estive com o primeiro-ministro chinês e ele me disse que eles têm lá 250 milhões de estudantes aprendendo inglês a sério. Chega a ser engraçado. Neste momento, tem mais gente aprendendo inglês na China que nos Estados Unidos. Eles entenderam que, para participar do mundo de hoje, a pessoa tem de falar inglês.

Veja – Qual o retorno que os chineses estão tendo?
Belda – Vou dar um exemplo. Na Alcoa, nós estamos transferindo serviços que eram feitos nos Estados Unidos, como contabilidade, para a China ou para a Índia, onde se fala inglês bem. Podiam vir para o Brasil. É trabalho bom, de gente de bom nível. Outro dia tive um jantar com o Larry Ellison, presidente da Oracle, uma das maiores empresas de softwares empresariais do mundo. Ele me contou que eles passaram toda essa parte de serviços internos para a Irlanda. O centro de computação deles opera meio dia administrado pelo pessoal de Austin, no Texas, e outro meio dia pelo pessoal que está na Austrália. Conheço empresas em que o executivo está baseado nos Estados Unidos e a secretária dele fica na Índia. Isso porque a secretária indiana custa 1 000 dólares por mês e a secretária em Nova York, 5 000 . Isso está acontecendo e nós aqui nem ao menos estamos falando desse assunto. É o que dá estarmos há vinte anos sem uma definição de para onde vamos caminhar.

Veja – Não se pode esquecer, ao falar em vinte anos, que quase a metade desse tempo foi de governo Fernando Henrique Cardoso. O que faltou a FHC?
Belda – Faltou uma visão para a frente, sobre o que seria o país. O Fernando Henrique fez um trabalho institucional maravilhoso. A contenção das taxas de inflação foi um serviço fantástico, só que faltou o Juscelino Kubitschek nele. Aliás, estive com ele e lhe disse isso. Faltou a visão do que o Brasil pode ser daqui a vinte anos. O planejamento que houve no Brasil foi do Juscelino, cujo modelo foi até 1973, quando tivemos a primeira crise do petróleo. Nesse momento deveria ter sido ajustado o modelo, mas não foi. Ele foi prolongado até quebrar o país, em 1982, e aí depois ficamos até 2002 consertando esse problema. Mas não saímos do modelo de 1956.

Veja – Mas basta olhar o país hoje para perceber alguns avanços, como na telefonia, na agricultura, na educação e em vários outros setores.
Belda – É verdade, mas o fato é que estamos há vinte anos basicamente sem crescimento. Isso é ruim porque o mercado interno de um país é que lhe dá a capacidade de consumo. Se as empresas não encontram escala de produção aqui, vão investir em outro lugar.

Veja – Aumentar a renda per capita sem distribuição de renda não é suficiente para consolidar um mercado interno. O que é preciso fazer para finalmente distribuir a renda neste país?
Belda – Sei que o que vou dizer não é, hoje em dia, politicamente correto, mas acredito que criando renda teremos distribuição de renda naturalmente. Quando você tem uma economia que não cresce, passa por um processo predatório que é o da concentração de renda.

Veja – O senhor está dizendo que primeiro é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo, como defendia o então ministro Delfim Netto na década de 70?
Belda – É o que estou dizendo. Todo mundo acha isso errado, mas não conheço outro jeito. Qual é o jeito? Aumentar a tributação para fazer a distribuição? Então quem ganha mais paga mais de imposto de renda? Pode até ser esse o caminho. Agora, isso parte do princípio de que o Estado oferece o melhor serviço à população, o que ainda não vi acontecer no Brasil. Portanto, o que este país precisa é crescer.

Veja – E por que o ex-presidente Fernando Henrique não conseguiu avançar nessa direção em seus oito anos?
Belda – Em primeiro lugar, é preciso lembrar que desses oito anos quatro foram perdidos com a manutenção da taxa de câmbio fixa. E, depois, o Malan (Pedro Malan, ministro da Fazenda) travou tudo no controle da inflação, na estabilidade macroeconômica. Foi como se ele quisesse ganhar o jogo de futebol administrando o placar eletrônico. O jogo é no campo, são os onze fulanos fazendo gol. Nós ficamos controlando o botão do placar para não deixá-lo se mexer.

Veja – Recentemente o país se mobilizou em torno da discussão sobre a taxa de juros. Até o vice-presidente, José Alencar, entrou na polêmica. Qual é sua posição?
Belda – A taxa de juros depende de uma série de fatores, não só do componente político. Agora, que ela é muito alta, isso é. O que você tem no Brasil é que meia dúzia de bancos controla todo o fluxo de caixa nacional. Eles acham que é muito mais fácil emprestar ao governo que a qualquer outro. Os bancos estão certos. Eu também ganho para obter os melhores resultados para a minha companhia. O problema é que a opção de ganhar dinheiro no Brasil emprestando dinheiro ao governo é boa demais.

Veja – Qual a visão que o mundo tem hoje do governo Lula?
Belda – Infelizmente, a campanha eleitoral explorou muito o fato de ele ser uma pessoa que veio da esquerda, o passado sindical, a possibilidade de que ele, ao ganhar, fosse um populista tipo Hugo Chávez (presidente da Venezuela) e destruiria os avanços da estabilidade. Isso foi muito explorado pelo pessoal do PSDB, o que deixou todo mundo lá fora com medo. Nunca votei no Lula na minha vida, mas, quando, um ano atrás, os bancos começaram a cortar as linhas de crédito, sentei com banqueiros para dizer que não acreditava que ele fosse ser um problema. Hoje percebo que há muito boa aceitação no exterior. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, também já ganhou uma credibilidade enorme lá fora. O que depreeendo é que há uma expectativa sobre o que o Brasil vai fazer agora para crescer e para resolver o problema da violência.

Veja – E o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do qual o senhor é um dos integrantes, funciona ou é ocioso?
Belda – Não tenho sido requisitado, mas acho que está indo bem. O conceito da criação do conselho foi muito bom. A maior dificuldade do mundo para os políticos é ter a coragem de enfrentar assuntos que mexem com todo mundo. Político é bom para resolver assunto marginal, fazer uma mudancinha aqui, alterar um imposto de 2,1% para 2,3%. Agora, quando você pega um assunto da amplitude dos que estão sendo discutidos no CDES e ataca de frente, é a coisa mais difícil do mundo.

Veja – Falando em representação política, um dos pontos principais da reforma política é a revisão do financiamento de campanhas, para evitar que os políticos saiam pegando dinheiro com empresários. O que o senhor acha disso?
Belda – Nós, na Alcoa, não temos mais isso. Acabei com esse negócio. Antigamente, os empregados de uma fábrica tinham um deputado da região que sempre os protegia quando aparecia um problema qualquer, fosse com energia, meio ambiente, não sei o que mais. Todo ano pingavam um dinheiro na campanha dele. Acabei com isso. Não acredito em dar dinheiro a político. Político é político, no mundo inteiro. Para ser eleito precisa de dinheiro, de voto e de trabalho. Vai ter de conseguir de um jeito qualquer. Acho que quem vai trabalhar no serviço público tem de fazê-lo por convicção, por cidadania. Não por outra razão. Tanto que hoje há uma discussão grande nos Estados Unidos sobre quanto tempo um político pode permanecer na vida pública. Já existe um movimento para que, ao fim de quatro ou oito anos, o sujeito deixe a política se não tiver atingido um cargo superior.

Veja – Na formação do governo, o senhor foi sondado para ocupar um ministério. Por que não aceitou?
Belda – Não era a hora, mas também devo confessar que não tenho a menor competência para isso.

Veja – Por falar em competência, o senhor é o executivo brasileiro mais bem-sucedido no mundo. Como se conquista uma trajetória pessoal desse quilate?
Belda – Precisa mesmo falar nisso?

Veja – O senhor não gosta do assunto?
Belda – Não é isso. É que não leva a nada. Tem tantas circunstâncias na vida que te fazem bem-sucedido. Você tem de estar no lugar certo, na hora certa, ter a competência certa e, de repente, tudo isso se junta na mesma hora. Não tem receita do bolo. Claro que tem de trabalhar duro, mais do que os outros. Contudo tem gente que estava superpreparada, mas trabalhava na Enron quando a companhia quebrou. O sujeito era melhor que eu, porém estava na companhia errada. Todo mundo quer saber qual é a receita do bolo. Não tem. É trabalhar muito e ter sorte.

Veja – E quando foi exatamente que a sorte o ajudou?
Belda – A maior sorte que tive na vida foi ter um desafio permanente. Sempre digo para o pessoal que está entrando na companhia que se o sujeito prestar atenção em quando ele está feliz no trabalho vai ver que é justamente naqueles momentos em que está fazendo alguma coisa acima do que achava que sabia fazer. Nessas situações, ele normalmente está trabalhando quase 24 horas por dia e recebe um salário abaixo do que merecia, porque estava trabalhando pelo cargo acima. Meu trabalho na companhia é sempre oferecer isso aos que chegam: trabalhar muito, mais do que se julga capaz, e estar sendo mal pago por isso. Assim é que as pessoas crescem.

Veja – Quando o senhor era o presidente da Alcoa no Brasil, recusou por quatro vezes o convite para ir trabalhar nos Estados Unidos. Há uma máxima no mundo executivo que diz que não se recusa convite para mudar de cargo nem de região. As recusas não lhe pareciam um suicídio profissional?
Belda – Eram, mas eu não queria ir. Estava separado e com duas filhas morando no Brasil. Acabei aceitando porque não sei dizer não a um desafio e porque ficaria apenas três anos. Eu me lembro de quando fui para minha primeira reunião. Puseram uns dez gringos trabalhando para mim e, desses dez, no mínimo três achavam que eles é que deviam estar no meu cargo. O desafio foi saber como é que eu chegava neles. Meu homem de recursos humanos me disse que eu deveria dar a eles uma bandeira nova e demitir um. Isso serviria para mostrar que havia um projeto novo ao qual todos podiam se agarrar. E a demissão era para afirmar minha autoridade. Então contei essa história para os dez sujeitos e disse: "Olha, não tenho nenhuma bandeira nova, só tenho a outra opção".

Veja – E então?
Belda – Entramos num acordo.

 
 
 
 
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