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Em
foco: Sérgio Abranches
De olho no futuro
"O
ministro Palocci disse que
os principais
obstáculos ao crescimento do país estão
nas áreas de energia, logística e regulatória.
Ele está certo. E aí há um evidente déficit
de desempenho no governo Luiz Inácio"
A cúpula dirigente do governo começa a dar sinais
de que percebe os gargalos que existem fora da área macroeconômica.
Ao contrário do que dizem os economistas do PT, na macroeconomia
o governo vai bem, obrigado. Reduziu a inflação de
mais de 20% anuais para um dígito neste ano, e a meta para
o ano que vem, de 5,5%, ficou viável. O risco Brasil, que
chegou à casa dos 2.400 pontos em setembro do ano passado,
durante a campanha eleitoral, retornou à casa dos 780 pontos.
É quase a metade da média de junho do ano passado,
que foi de 1.400 pontos.
O governo tem mostrado rara firmeza na política monetária
e fiscal. Sabe que é condição necessária
à viabilidade de qualquer projeto. Pelo menos o presidente
Luiz Inácio e o círculo de poder ministerial parecem
imunizados contra o populismo econômico que acomete a maioria
dos economistas de seu partido e quase todos os partidos, tanto
da coalizão governista quanto da oposição.
Ilustração Ale Setti
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Os ministros Antônio Palocci e José Dirceu começam
a dar sinais públicos e privados de preocupação
com o quadro regulatório e com a situação da
infra-estrutura do país. Recentemente, Palocci disse que
os principais obstáculos ao crescimento estão nas
áreas da energia, logística e regulatória.
Está certo. E é onde há evidente déficit
de desempenho no governo Luiz Inácio.
O presidente fora alertado, ainda durante a campanha, quando anunciou
o Fome Zero, por muitas vozes insuspeitas de que o programa tinha
erros insanáveis de desenho. Nascera velho. Quando admitiu
o erro, Palocci foi o primeiro a oferecer alternativas, lançando
a idéia da focalização. Foi imediatamente fustigado
pela visão atrasada de técnicos e políticos
de seu partido e do PSDB. Mas estava certo, e o governo parece disposto
a alterar sua política social para adequá-la às
metodologias contemporâneas de intervenção social
do Estado, que lhe darão maior produtividade e eficácia.
A implementação da mudança está demorando,
embora a decisão de mudar possa ter sido tomada.
Espero que não ocorra como relatou João Ubaldo Ribeiro
em ótima crônica recente. Ele se avalia como alguém
que toma decisões muito rapidamente, sem vacilar. Há
décadas decidiu parar de fumar, em questão de minutos.
Só tem demorado para implementar. O governo reconheceu seus
erros na área social e decidiu mudar. Falta apenas implementar
a decisão. Como João Ubaldo. O escritor jura que não
tem fumado, e o governo, que está tudo sendo implementado.
Não sei, o julgamento caberá aos pulmões de
um e aos pobres do outro.
Na área macroeconômica, a estrutura de incentivos estimulava
a rapidez. Na área social, a estrutura de incentivos não
ajuda a mudança. Os beneficiários dela são
os brasileiros mais pobres, desorganizados e fracos. Na maioria,
negros. Perdem fornecedores, redes clientelistas e gente no topo
dos estratos de baixa renda para cima. Na maioria, brancos. Todos
mais organizados e articulados. Por isso se apropriam sempre das
rubricas sociais do Estado. Só a decisão unilateral
do governo, sem outro incentivo que não o maior benefício
aos mais necessitados, pode mudar a política.
Justiça seja feita. O presidente Luiz Inácio tem enfrentado
com bravura e firmeza e sem perder a doçura
os interesses corporativistas que ajudam a congelar nossas desigualdades
há décadas, alguns seus velhos aliados.
Nas áreas de infra-estrutura e logística, o governo,
todavia, mantém antigas convicções, estatistas,
intervencionistas e hipernacionalistas, apesar dos incentivos claros
à mudança de atitude. Está repolitizando questões
situadas na órbita das agências regulatórias,
retornando-as aos ministérios. É um retrocesso dar
aos ministérios poder regulatório. São comportamentos
que inibem o investimento em setores que o Estado não tem
mais como bancar. Não há como desenvolver esses setores
sem investimento privado. As soluções têm de
ser pró-mercado.
As agências, hoje, tomam decisões que são de
política pública e deveriam ficar com os ministros.
Políticas de governo podem e devem mudar a cada administração.
Mas a regulação obedece à razão de Estado,
não à de governo. Não pode e não deve
mudar com a orientação programática do governo.
Só dessa forma se asseguram a estabilidade de regras e um
clima propício ao investimento de longo prazo e demorada
maturação. O desenho regulatório da era FHC
era muito ruim. Precisa mudar. Mas a nova administração
não o está melhorando.
O interesse do círculo do poder por essas questões
é positivo. Ele pode dar um cavalo-de-pau na orientação
atual e colocar o governo na direção certa, evitando,
ao mesmo tempo, que capote. Senão, vai comprometer o crescimento
futuro, para cuja conquista tem se esforçado tanto.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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