Fora do ar

Um retrato impiedoso do
intelectual contemporâneo

Diogo Mainardi

Jean-Philippe Toussaint é o melhor escritor francês da atualidade. Aliás, nem francês ele é, mas belga. A sua nacionalidade é importante. Embora a sua obra esteja intrinsecamente ligada à cultura literária francesa, ele sempre apresenta um ponto de vista destacado, alienígena. A Televisão (tradução de Ângela Vianna; Editora 34; 152 páginas; 19 reais) conta a história de um acadêmico que ganha uma bolsa de estudos em Berlim para escrever um ensaio sobre arte e poder. O ensaio se inspira num episódio legendário segundo o qual o imperador Carlos V teria se curvado diante do pintor renascentista Tiziano, a fim de apanhar-lhe um pincel caído no chão. Pela teoria do estudioso, esse episódio indicaria o instante exato em que os artistas se conscientizaram de sua supremacia em relação ao poder político. Para se concentrar apenas no trabalho, o estudioso despacha a mulher e o filho ao litoral italiano e desliga a TV, decidindo nunca mais ligá-la. Livre desse instrumento estupidificante, que costumava escravizá-lo ao sofá, anestesiando-lhe a mente, o estudioso se sente pronto para começar a escrever. O problema é que, em vez de perder tempo com a TV, ele passa a perdê-lo de outras maneiras: toma sol no parque, vai à piscina, rega as plantas do vizinho. A semântica também acaba por criar-lhe dificuldades. Como chamar Tiziano, por exemplo? Há várias possibilidades: Tiziano, Ticiano, o Ticiano, Vecelli, Tiziano Vecellio... Depois de semanas de inútil trabalho, o estudioso só consegue definir as duas primeiras palavras de seu ensaio.

Imobilidade Pelo paralelo entre Tiziano e o estudioso telemaníaco, Toussaint faz o mais cômico e impiedoso retrato do intelectual contemporâneo. Tiziano era reverenciado por Carlos V. Ele sabia exatamente o que pintar e como pintar. Estava no centro do mundo. Compare-o ao pobre estudioso de Toussaint. Para ele, nada é seguro, nem o nome de uma figura histórica. Qualquer idéia pode ser defendida ou descartada com argumentos igualmente convincentes. E seu ensaio, claro, é destinado a desaparecer. Desprovido da mais mínima certeza, o estudioso se sente imobilizado. Uma imobilidade idêntica à que o acometia quando ele se encontrava em frente da TV. Ele supunha que fosse a TV a paralisá-lo. Desligando-a, descobre que ela era um simples reflexo de uma paralisia generalizada. Um vazio que preenche outro vazio. O gesto de Carlos V, que recolhe o pincel de Tiziano, simboliza o máximo do poder da arte sobre a política. O gesto do estudioso de Toussaint, que desliga a TV, é a sua paródia mais grotesca.

 

 




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