Destruição

Uma ferida no verde

Garimpos, assoreamento dos rios,
pesca predatória e projeto de
uma hidrovia ameaçam o Pantanal

Aida Veiga

Foto: Zig Koch
Garimpo em Poconé e barcaça de soja em um trecho do Rio Paraguai em que seria aberta a hidrovia do Mercosul: contaminação por mercúrio e megalomania


A foto acima mostra um garimpo nas redondezas de Poconé, no limite norte do Pantanal de Mato Grosso. É um exemplo de como a mão do homem pode ferir em poucos anos uma jóia que a natureza demorou milênios para lapidar. Para extrair o ouro do cascalho, garimpeiros e mineradoras transformaram em paisagem lunar uma vasta área ao redor do município. Pior: contaminaram com mercúrio os rios que deságuam na planície pantaneira. Um estudo recente feito pelo cientista Karl Mathias Wantzen, em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, revelou que boa parte dos peixes de rios próximos a Poconé estava contaminada por mercúrio, um metal pesado que não se degrada no meio ambiente e pode causar deformações genéticas. É um desastre que afeta quase toda a cadeia alimentar: do peixe, o mercúrio passa para jacarés, ariranhas, pássaros e também para os seres humanos. A queda no preço do ouro nos últimos anos reduziu bastante a atividade garimpeira na região. Mas ela pode voltar a qualquer momento, se ninguém tomar uma providência.
Jacaré do Pantanal: com o fim da caça, a população aumentou

O Pantanal convive com o ser humano há mais de 200 anos. Ainda assim, manteve-se mais bem preservado do que a Amazônia e a Mata Atlântica. Hoje, vem sendo afetado cada vez mais por intervenções fora de seus limites, mais precisamente no planalto que a cerca e alimenta. São várias as ameaças. Uma delas é o assoreamento dos rios em conseqüência de lavouras e pastagens nas suas cabeceiras. Os fazendeiros da região conhecida como Paiaguás, em Mato Grosso do Sul, que o digam. Em razão do desmatamento no planalto, o Rio Taquari foi soterrado por milhões e milhões de toneladas de terra, que descem com as enchentes. O assoreamento foi tão grande que o Taquari saiu de seu leito normal, esparramou-se por uma área de 11.000 quilômetros quadrados e inundou cerca de 300 fazendas.

"Para entender a importância do planalto para o Pantanal, basta imaginar uma grande banheira com um ralo minúsculo", explica Bernadete Lang, da organização WWF, Fundo Mundial para a Natureza. "Como a vazão da torneira é muito maior do que a do ralo, a água custa a sair, deixando todo o terreno alagado. Se a água que vem da torneira é ruim, quem paga o pato é a planície." Uma tese de doutorado defendida nos Estados Unidos pelo engenheiro agrônomo Osni de Souza, da Embrapa de Campo Grande, mostra a gravidade do problema. Junto com cada litro de água despejado no Pantanal pelo Rio Taquari, entram 350 miligramas de sedimentos. "O problema é tão grave que, mesmo se a vegetação no planalto fosse recuperada, a quantidade de areia hoje depositada no alto Taquari continuaria descendo para o Pantanal durante os próximos 100 anos", diz o pesquisador.

A pesca predatória é outro problema sério. No começo do ano, o próprio chefe do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Ibama, em Cuiabá, foi demitido depois de ser flagrado pescando ilegalmente nas vizinhanças do Parque Nacional do Pantanal. A cada ano são retiradas cerca de 3.000 toneladas de peixes da região. Em Mato Grosso, a lei permite que cada pescador leve para casa até 30 quilos de peixe de cada vez. Em Mato Grosso do Sul, a cota é um pouco menor, 25 quilos mais um exemplar por pescador. Ainda assim, trata-se de um volume muito grande para um ecossistema tão frágil. O resultado é que, em algumas regiões, os peixes estão ficando menores e cada vez mais escassos. Em 1994, os 40.000 pescadores que estiveram no Pantanal retiraram 500 toneladas de pacu. Três anos depois, 57.000 retiraram apenas 310 toneladas dessa espécie. Ou seja, o número de pescadores aumentou e o de pacus diminuiu. "Esse é o principal indicativo de que a espécie não é mais tão farta hoje quanto era antigamente", explica Flávio Nascimento, pesquisador da Embrapa Pantanal.

Outra ameaça ao Pantanal vem de um projeto atualmente engavetado em razão de protestos no Brasil e no exterior. É a construção de uma hidrovia ligando a cidade de Cáceres, em Mato Grosso, ao Porto de Nueva Palmira, no Uruguai. Pelo projeto original, encomendado pela antiga Portobrás a uma empresa de São Paulo, a hidrovia custaria 1,2 bilhão de dólares. O plano era transformar o Rio Paraguai em um canal navegável 24 horas por dia durante o ano todo. Para isso, seria necessário dragar seu leito, retificar curvas e dinamitar barreiras rochosas, de modo a garantir um calado mínimo de 3 metros de profundidade para grandes barcaças, mesmo no período da seca. Previa-se retirar desse canal cerca de 22 milhões de metros cúbicos de terra, areia e pedra carga para 4 milhões de carretas.

Uma intervenção tão monstruosa poderia drenar e destruir o Pantanal, como já aconteceu em outras regiões como os Everglades e o vale do Rio Mississippi, nos Estados Unidos (veja quadro). As conseqüências para o meio ambiente seriam tão desastrosas que o Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, inicialmente disposto a financiar o projeto, decidiu botá-lo na geladeira. Mas ele não está morto. Entre as autoridades que ainda apóiam a obra, com mudanças no projeto inicial, estão o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, e os governadores de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. "Enquanto o esforço de preservar anda a passo de tartaruga, a devastação caminha em velocidade de trator", afirma o veterinário gaúcho Adalberto Eberhard, fundador da Ecotrópica, uma ONG brasileira que se dedica a comprar terras ao redor do Parque Nacional para garantir sua preservação.

Arara-azul: espécie ameaçada de extinção

A natureza no Pantanal já pagou caro pelo delírio de projetos como a hidrovia. Durante o regime militar, ali foi construída uma das obras viárias mais inúteis e desastrosas do país. É a Rodovia Transpantaneira, uma estrada que liga nada a lugar nenhum. A idéia do governo era interligar Poconé, no extremo norte do Pantanal, a Corumbá, no extremo sul. Tudo foi feito na correria, sem um estudo adequado do regime hidrológico da região. Resultado: a estrada não foi adiante porque a natureza a derrotou. Os engenheiros e tratores simplesmente não conseguiram passar da metade do percurso. "Era uma loucura", lembra Jaime Okamura, que na época era funcionário do governo e acompanhou parte da obra. "Por falta de estudos de engenharia, ninguém sabia exatamente onde construir as pontes. Então, fazia-se um aterro e esperava-se para ver onde a água ia arrombar. No ponto em que o aterro estourava, construía-se uma ponte." Hoje, a Transpantaneira começa em Poconé e termina abruptamente nas margens do Rio Cuiabá. Tem 147 quilômetros e 126 pontes um recorde mundial. É intransitável na maior parte do ano. Além dos imensos lamaçais no período das chuvas, as pontes têm vãos que podem engolir um carro inteiro se o motorista não for precavido. A única forma de passar nessas pontes é levar na carroceria pranchas de madeira para tapar os buracos na estrutura.

A Rodovia Transpantaneira e o campo de pouso para jatos na fazenda da Camargo Corrêa: dois projetos da época do regime militar que fracassaram por falta de conhecimento sobre a região

No começo dessa estrada, à esquerda de quem vai em direção ao Rio Cuiabá, fica outro exemplo de megalomania no meio do mato. É a fazenda da empreiteira Camargo Corrêa, uma versão pantaneira do fracassado Projeto Jari, idealizado pelo magnata americano Daniel Ludwig, nas selvas do Amapá. Apaixonado por pescaria e pelo Pantanal, o empreiteiro Sebastião Camargo comprou vastas porções de terras às margens do Rio Cuiabá. Na década de 70 época em que Ludwig tentava erguer seu império na Amazônia Camargo Corrêa quis transformar sua fazenda num projeto-modelo de pecuária industrial. Para isso, cercou a propriedade com diques, de modo a controlar a entrada e a saída de água. Da Austrália importou um capim especialmente adaptado a áreas alagadiças. A sede da fazenda foi equipada com pista de pouso para jatos e recebia presidentes e ministros da República, que Sebastião Camargo levava para pescar nos fins de semana.

Deu tudo errado. O capim australiano não se adaptou ao Pantanal. Os diques estouraram na primeira enchente. As pragas tomaram conta das pastagens e toneladas de herbicida foram usadas numa tentativa inútil de controlá-las. Hoje, a fazenda está parcialmente abandonada. A construção de diques afetou o ciclo de cheias e vazantes de toda a região e inundou as propriedades vizinhas. Recentemente, a Camargo Corrêa contratou os serviços de um especialista em ecologia da Universidade Federal de Mato Grosso e da Pró-Natura, uma entidade ambientalista do Rio de Janeiro. Ao final dos estudos, foi aconselhada a desistir dos planos originais e investir em atividades mais adaptadas ao Pantanal, como a silvicultura e o ecoturismo. É o que a empresa está fazendo hoje. "Cometemos erros graves aqui", admite o engenheiro agrônomo Luis Felipe, atual administrador da fazenda. "Agora, estamos tentando corrigi-los."

O Pantanal deles agoniza

Se alguém ainda duvida da importância de preservar o Pantanal, basta olhar para a região dos Everglades, no Estado americano da Flórida. Para consertar estragos ambientais provocados durante um século de ocupação, o governo vai investir ali 8 bilhões de dólares durante os próximos vinte anos. Os Everglades ocupam hoje uma área de 6 000 quilômetros quadrados equivalente a 4% do Pantanal brasileiro. As semelhanças entre os dois ecossistemas são muito grandes. Para começar, têm duas estações bem definidas, a seca e a chuvosa. Durante as chuvas, a planície fica quase inteiramente debaixo de água. Quando chega a estação seca, formam-se lagoas isoladas repletas de peixes que atraem pássaros, crocodilos e outras espécies, num grande banquete. A característica geográfica que garantiu a formação dos Everglades também é a mesma do Pantanal: uma planície de declividade mínima alimentada por um grande fluxo de água. No caso do pantanal americano, o grande fornecedor de água é o Lago Okeechobee. Alimentado pelas chuvas, o lago transborda e suas águas seguem lentamente para o sul, em direção à Baía da Flórida. No percurso, espraiam-se por um leito de 100 quilômetros de largura, tão raso que os americanos chamam de "rio de grama".

Para transformar esse enorme pântano numa região habitável e produtiva, desde 1950 foram construídos ali mais de 1 600 quilômetros de barragens, canais e diques. Metade da água que deveria correr do Lago Okeechobee para a Baía da Flórida hoje é desviada para o Atlântico e para o Golfo do México. As obras deram certo e o resultado foi bom para a economia. Para o meio ambiente, foi catastrófico. Hoje, 6 milhões de pessoas moram no sul da Flórida. Metade da área original dos Everglades está ocupada por cidades ou fazendas. Com isso, todo o equilíbrio do ecossistema foi quebrado. O melhor indicador da tragédia é a população de aves, que hoje é 90% menor que no século passado. O projeto de 8 bilhões de dólares pretende reconstituir pelo menos parte dos pântanos dos Everglades dessa época. Para isso, serão construídos reservatórios que armazenarão 80% da água que hoje é desviada para o mar. Essa água será redirecionada para os Everglades em pontos e intensidades previstos num modelo de computador que reproduz o ecossistema original. Também será removida parte das barreiras que impedem a circulação da água. O projeto terá de conviver com outro dado assustador. Em cinqüenta anos, a população da região vai dobrar, chegando a 12 milhões de pessoas. Esse argumento tem sido utilizado por opositores do projeto, que querem secar uma área ainda maior dos Everglades.

 

Fotos: Zig Koch/ Frederic Jean,/Edurado Simões/
Valdemir Cunha/Frederic Jean/Fabio Comlombini

 

 




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line