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Destruição Uma ferida no verdeGarimpos, assoreamento dos
rios, Aida Veiga
O Pantanal convive com o ser humano há mais de 200 anos. Ainda assim, manteve-se mais bem preservado do que a Amazônia e a Mata Atlântica. Hoje, vem sendo afetado cada vez mais por intervenções fora de seus limites, mais precisamente no planalto que a cerca e alimenta. São várias as ameaças. Uma delas é o assoreamento dos rios em conseqüência de lavouras e pastagens nas suas cabeceiras. Os fazendeiros da região conhecida como Paiaguás, em Mato Grosso do Sul, que o digam. Em razão do desmatamento no planalto, o Rio Taquari foi soterrado por milhões e milhões de toneladas de terra, que descem com as enchentes. O assoreamento foi tão grande que o Taquari saiu de seu leito normal, esparramou-se por uma área de 11.000 quilômetros quadrados e inundou cerca de 300 fazendas. "Para entender a importância do planalto para o Pantanal, basta imaginar uma grande banheira com um ralo minúsculo", explica Bernadete Lang, da organização WWF, Fundo Mundial para a Natureza. "Como a vazão da torneira é muito maior do que a do ralo, a água custa a sair, deixando todo o terreno alagado. Se a água que vem da torneira é ruim, quem paga o pato é a planície." Uma tese de doutorado defendida nos Estados Unidos pelo engenheiro agrônomo Osni de Souza, da Embrapa de Campo Grande, mostra a gravidade do problema. Junto com cada litro de água despejado no Pantanal pelo Rio Taquari, entram 350 miligramas de sedimentos. "O problema é tão grave que, mesmo se a vegetação no planalto fosse recuperada, a quantidade de areia hoje depositada no alto Taquari continuaria descendo para o Pantanal durante os próximos 100 anos", diz o pesquisador. A pesca predatória é outro problema sério. No começo do ano, o próprio chefe do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Ibama, em Cuiabá, foi demitido depois de ser flagrado pescando ilegalmente nas vizinhanças do Parque Nacional do Pantanal. A cada ano são retiradas cerca de 3.000 toneladas de peixes da região. Em Mato Grosso, a lei permite que cada pescador leve para casa até 30 quilos de peixe de cada vez. Em Mato Grosso do Sul, a cota é um pouco menor, 25 quilos mais um exemplar por pescador. Ainda assim, trata-se de um volume muito grande para um ecossistema tão frágil. O resultado é que, em algumas regiões, os peixes estão ficando menores e cada vez mais escassos. Em 1994, os 40.000 pescadores que estiveram no Pantanal retiraram 500 toneladas de pacu. Três anos depois, 57.000 retiraram apenas 310 toneladas dessa espécie. Ou seja, o número de pescadores aumentou e o de pacus diminuiu. "Esse é o principal indicativo de que a espécie não é mais tão farta hoje quanto era antigamente", explica Flávio Nascimento, pesquisador da Embrapa Pantanal. Outra ameaça ao Pantanal vem de um projeto atualmente engavetado em razão de protestos no Brasil e no exterior. É a construção de uma hidrovia ligando a cidade de Cáceres, em Mato Grosso, ao Porto de Nueva Palmira, no Uruguai. Pelo projeto original, encomendado pela antiga Portobrás a uma empresa de São Paulo, a hidrovia custaria 1,2 bilhão de dólares. O plano era transformar o Rio Paraguai em um canal navegável 24 horas por dia durante o ano todo. Para isso, seria necessário dragar seu leito, retificar curvas e dinamitar barreiras rochosas, de modo a garantir um calado mínimo de 3 metros de profundidade para grandes barcaças, mesmo no período da seca. Previa-se retirar desse canal cerca de 22 milhões de metros cúbicos de terra, areia e pedra – carga para 4 milhões de carretas. Uma intervenção tão monstruosa poderia drenar e destruir o Pantanal, como já aconteceu em outras regiões como os Everglades e o vale do Rio Mississippi, nos Estados Unidos (veja quadro). As conseqüências para o meio ambiente seriam tão desastrosas que o Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, inicialmente disposto a financiar o projeto, decidiu botá-lo na geladeira. Mas ele não está morto. Entre as autoridades que ainda apóiam a obra, com mudanças no projeto inicial, estão o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, e os governadores de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. "Enquanto o esforço de preservar anda a passo de tartaruga, a devastação caminha em velocidade de trator", afirma o veterinário gaúcho Adalberto Eberhard, fundador da Ecotrópica, uma ONG brasileira que se dedica a comprar terras ao redor do Parque Nacional para garantir sua preservação.
A natureza no Pantanal já pagou caro pelo delírio de projetos como a hidrovia. Durante o regime militar, ali foi construída uma das obras viárias mais inúteis e desastrosas do país. É a Rodovia Transpantaneira, uma estrada que liga nada a lugar nenhum. A idéia do governo era interligar Poconé, no extremo norte do Pantanal, a Corumbá, no extremo sul. Tudo foi feito na correria, sem um estudo adequado do regime hidrológico da região. Resultado: a estrada não foi adiante porque a natureza a derrotou. Os engenheiros e tratores simplesmente não conseguiram passar da metade do percurso. "Era uma loucura", lembra Jaime Okamura, que na época era funcionário do governo e acompanhou parte da obra. "Por falta de estudos de engenharia, ninguém sabia exatamente onde construir as pontes. Então, fazia-se um aterro e esperava-se para ver onde a água ia arrombar. No ponto em que o aterro estourava, construía-se uma ponte." Hoje, a Transpantaneira começa em Poconé e termina abruptamente nas margens do Rio Cuiabá. Tem 147 quilômetros e 126 pontes – um recorde mundial. É intransitável na maior parte do ano. Além dos imensos lamaçais no período das chuvas, as pontes têm vãos que podem engolir um carro inteiro se o motorista não for precavido. A única forma de passar nessas pontes é levar na carroceria pranchas de madeira para tapar os buracos na estrutura.
No começo dessa estrada, à esquerda de quem vai em direção ao Rio Cuiabá, fica outro exemplo de megalomania no meio do mato. É a fazenda da empreiteira Camargo Corrêa, uma versão pantaneira do fracassado Projeto Jari, idealizado pelo magnata americano Daniel Ludwig, nas selvas do Amapá. Apaixonado por pescaria e pelo Pantanal, o empreiteiro Sebastião Camargo comprou vastas porções de terras às margens do Rio Cuiabá. Na década de 70 – época em que Ludwig tentava erguer seu império na Amazônia – Camargo Corrêa quis transformar sua fazenda num projeto-modelo de pecuária industrial. Para isso, cercou a propriedade com diques, de modo a controlar a entrada e a saída de água. Da Austrália importou um capim especialmente adaptado a áreas alagadiças. A sede da fazenda foi equipada com pista de pouso para jatos e recebia presidentes e ministros da República, que Sebastião Camargo levava para pescar nos fins de semana. Deu tudo errado. O capim australiano não se adaptou ao Pantanal. Os diques estouraram na primeira enchente. As pragas tomaram conta das pastagens e toneladas de herbicida foram usadas numa tentativa inútil de controlá-las. Hoje, a fazenda está parcialmente abandonada. A construção de diques afetou o ciclo de cheias e vazantes de toda a região e inundou as propriedades vizinhas. Recentemente, a Camargo Corrêa contratou os serviços de um especialista em ecologia da Universidade Federal de Mato Grosso e da Pró-Natura, uma entidade ambientalista do Rio de Janeiro. Ao final dos estudos, foi aconselhada a desistir dos planos originais e investir em atividades mais adaptadas ao Pantanal, como a silvicultura e o ecoturismo. É o que a empresa está fazendo hoje. "Cometemos erros graves aqui", admite o engenheiro agrônomo Luis Felipe, atual administrador da fazenda. "Agora, estamos tentando corrigi-los."
Fotos: Zig Koch/ Frederic Jean,/Edurado
Simões/
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