A descoberta do paraíso

As águas começam a baixar e a
vida selvagem explode no Pantanal
Mato-Grossense, uma jóia ecológica
que neste ano deve receber
meio milhão de turistas

Laurentino Gomes, de Cáceres, e Ricardo Villela, de Corumbá


Araquém Alcântara

O primeiro sinal da grande comilança ocorreu há duas semanas nas regiões mais ao norte do Pantanal de Mato Grosso. A lufada é um estrondo tão forte que, ao longe, lembra o estouro de uma boiada. Acontece quando cardumes formados por milhões e milhões de pequenos peixes são tocaiados na boca dos riachos por jacarés, ariranhas e outros predadores. Ao perceber que as águas estão baixando, os peixes, gordos depois de passar meses fartando-se nos campos inundados, iniciam uma fuga desesperada rumo ao leito dos grandes rios. É preciso escapar antes que as lagoas fiquem isoladas pela vazante. A correria envolve cardumes tão monumentais que chega a provocar engarrafamentos nos corixos, os pequenos córregos que ligam as lagoas aos rios. Evidentemente, nem todos conseguem fugir. É aí que começa o banquete. Repletas de lambaris, curimbas, pacus, peixes de todas as espécies e tamanhos, as lagoas se tornam uma festa para as aves no período da seca. Grupos de tuiuiús, biguás, colhereiros e garças unem-se na busca do alimento farto e fácil. Há tanta comida que pássaros do Canadá viajam até 10.000 quilômetros para se empanturrar no Pantanal.

Fotos: Frederic Jean/Staffan Widstrand/Ana Araújo
Vitória-régia numa baía do Rio Paraguai, a onça-pintada às margens do Rio Negro e mergulho dos turistas em uma área inundada: o Pantanal tem plantas características de outras regiões e uma fauna exibicionista


O tucano pantaneiro é o maior da espécie no Brasil

A vazante é a grande celebração da natureza no coração do Brasil. Nesta época do ano, nuvens compactas de pássaros dominam a paisagem e a algaravia deles quebra o silêncio da planície pantaneira, do alvorecer ao pôr-do-sol. À beira das lagoas, as aves disputam os peixes com ariranhas e jacarés num espetáculo único. Agora, a melhor notícia. Essa incrível explosão de vida selvagem coincide com as férias do meio do ano e o início da temporada de turismo no Pantanal. Para quem gosta de contato com a natureza, é um paraíso, onde a vida animal se exibe diante dos olhos do visitante. "Na Amazônia, para qualquer lugar que se olhe é tudo igual: mata à direita e à esquerda e muita, muita água", constata o alemão Alexander Frenz, 52 anos, um administrador de empresas de Frankfurt que há algumas semanas fez sua primeira viagem ao Pantanal. "Aqui, é muito diferente. A paisagem muda em questão de metros e os animais aparecem com muito mais facilidade." Essa é uma característica que distingue o Pantanal de outros destinos dos ecoturistas. A fauna pantaneira é exibicionista. Em uma hora de barco ao longo do Rio São Lourenço é possível observar uma quantidade surpreendente de jacarés, capivaras, veados, ariranhas e inúmeras espécies de aves. É quase como visitar um jardim zoológico.

Com o dólar mais caro intimidando viagens ao exterior, o brasileiro começa a descobrir esse paraíso. Neste ano são esperados meio milhão de turistas no Pantanal, número equivalente a toda a população da região. Até dois anos atrás, o Refúgio Ecológico Caiman, a mais luxuosa pousada do Pantanal, recebia apenas um turista brasileiro para cada dez estrangeiros. Neste ano, metade das reservas foi feita por brasileiros. Ao todo, a região já tem cerca de 500 hotéis e pequenas pousadas. E boa parte deles está com as reservas esgotadas para as férias de julho. Uma pesquisa com 7.500 leitores no site de VEJA na internet revela que o Pantanal, junto com a vizinha região de Bonito, é a segunda atração que os brasileiros mais sonham conhecer. Perde apenas para as imbatíveis praias do Nordeste e ganha, de longe, de lugares como a Amazônia, as Serras Gaúchas e as cidades históricas de Minas Gerais. "A temporada deste ano promete ser um sucesso total", diz Beatriz Rondon, sobrinha do marechal Cândido Rondon e gerente da Caiman.

Ana Araújo
Boiada transportada em comitivas na Fazenda Rio Vermelho: viagens de até um mês para fugir das enchentes anuais


Para receber todos esses visitantes, o Pantanal está passando por uma transformação profunda. Fazendas estão sendo adaptadas para funcionar como pousadas. Peões pantaneiros que sempre viveram do trato do gado estão recebendo cursos de formação de guias turísticos. Em março, fazendeiros e proprietários de pousadas às margens da Estrada Parque, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, reuniram-se em um seminário promovido pelo Fundo Mundial para a Natureza, WWF, em que discutiram como melhorar a infra-estrutura para o turismo. Outra organização, a Conservation International, investiu cerca de 2 milhões de reais na compra de um dos ícones da região, a Fazenda Rio Negro, cenário da novela Pantanal, da Rede Manchete, para transformá-la em uma reserva-modelo. Duzentos quilômetros a oeste dali, a The Nature Conservancy, uma das maiores entidades ambientalistas do mundo, investiu 2 milhões de dólares na compra de três fazendas, em associação com a ONG brasileira Ecotrópica. A organização pretende manter a área para preservação, pesquisa e, no futuro, ecoturismo. Num outro empreendimento, entre os rios Cuiabá e São Lourenço, o Serviço Social do Comércio, Sesc, está investindo cerca de 30 milhões de reais na construção de dois hotéis em meio a uma gigantesca reserva natural.

Ana Araújo
Cervo-do-pantanal: camuflagem contra piranha


Maior planície alagável do planeta, o Pantanal tem o tamanho de Portugal, Suíça, Bélgica e Holanda somados. Resultante do mesmo espasmo geológico que produziu a Cordilheira dos Andes, é uma bacia na qual os sedimentos que descem dos planaltos e montanhas vêm se depositando por milhões de anos. Por essa razão, o Pantanal nunca é o mesmo. Cada novo ciclo de enchentes e vazantes altera drasticamente o leito dos rios, cria novas lagoas, abre córregos e baías. A própria vida na região pulsa ao ritmo das cheias e vazantes. Ali, há curiosos exemplos de adaptação das espécies ao ambiente. O cervo-do- pantanal, um parente do veado-campeiro do cerrado, está tão habituado a pastar dentro d'água durante a cheia que desenvolveu uma coloração escura nas pernas. A cor serve-lhe de camuflagem em meio à vegetação submersa para evitar o ataque furtivo de piranhas e jacarés. Durante a seca, em situações extremas, o jacaré se enterra na lama que sobrou das lagoas e banhados, reduz o metabolismo e, num tipo de hibernação, espera que volte a chover. Alguns tipos de sementes de leguminosas conseguem passar meses submersas, sem apodrecer. Esperando a chegada da seca para, só então, germinar.

Fotos: Frederic Jean/Araquém Alcântara/Mário Friedlander
Barco repleto de pescadores no Rio Paraguai, uma das pousadas do Refúgio Ecológico Caiman e turistas inglesas observando jacarés: com a pecuária em crise, o ecoturismo é o futuro mais promissor


Fazenda Barra Mansa, no Pantanal de Rio Negro: logística difícil

O turismo é a grande novidade numa região que passou por mudanças drásticas nos últimos anos. São várias transformações combinadas. A primeira é um fenômeno demográfico curioso, que os pantaneiros chamam de "reforma agrária da cama". Quando os primeiros desbravadores chegaram ao Pantanal, há mais de dois séculos, encontraram um ambiente hostil e selvagem, onde a presença humana era muito complicada. Alguém já ouviu falar de invasão do MST no Pantanal? Não, porque cultivar essa terra é muito difícil. É uma região em que a pequena propriedade, baseada na agricultura familiar, não funciona. A própria agricultura é mau negócio ali. A pecuária é a única atividade econômica que conseguiu viabilizar-se no Pantanal e conviver relativamente em paz com a natureza. É uma pecuária extensiva, na qual o boi é criado solto em pastos de capim nativo, chamados no jargão local de invernadas. Por essa razão, a ocupação do Pantanal foi feita em fazendas gigantescas. Uma delas, a Descalvado, perto da cidade de Cáceres, tinha 100.000 vacas e o tamanho de meia Bélgica. Ocorre que, nestes dois séculos, essas famílias foram procriando. E as fazendas, divididas entre os herdeiros, ficaram pequenas. Hoje, poucas são rentáveis (veja quadro). "O Pantanal é um raro lugar em que latifúndio é bom e minifúndio, ruim", diz o biólogo da Conservation International, Reinaldo Lourival.

A criação de gado em condições selvagens tem seu preço, e ele fica cada vez mais alto em comparação com as modernas fazendas do planalto. No Pantanal nascem por ano, em média, quarenta bezerros por 100 vacas. No planalto, imune às inundações, a média chega a noventa por 100. Fazendas como a Rio Vermelho, no município de Corumbá, perdem, por ano, 10% de suas reses devoradas pelas onças. Boiadas ainda são movimentadas a pé, em viagens que duram até um mês. Quando as propriedades eram enormes, nada disso era problema. A baixa produção era compensada por terras virtualmente sem limites. Hoje, aquele estilo de vida celebrizado nas imagens da novela Pantanal e nas músicas de Almir Sater e Sérgio Reis está acabando. O Pantanal de novela não existe mais. O fazendeirão rico, que se locomovia de avião como quem usa o carro para ir trabalhar e mantinha os filhos em escolas do Rio de Janeiro, é hoje um personagem cada vez mais escasso. No lugar dele, existem fazendeiros empobrecidos, que mal conseguem tirar da terra sua sobrevivência.

Seduzidos pelo conforto e pelas oportunidades oferecidas nas grandes cidades, os filhos desses fazendeiros herdeiros de propriedades cada vez menores já não querem manter o mesmo estilo de vida de seus pais. É compreensível. No Pantanal, leva-se uma vida solitária e modorrenta. Ali, o avião e o barco são tão essenciais como o ônibus e o automóvel numa grande cidade. Na época de cheias, às vezes é impossível andar 50 metros em linha reta no quintal de casa sem afundar os pés na água. Fazendas ficam ilhadas durante meses, à espera da vazante. A energia elétrica é ainda um conforto raro. Os vizinhos mais próximos moram a quilômetros de distância. Não há estradas, cidades, nada. O resultado é que hoje fazendas inteiras estão abandonadas. "Aqui nas redondezas, você só vai encontrar onça e floresta", conta o mato-grossense Selden Silva, de 64 anos, dono da Fazenda Aguacerito, perto de Cáceres. Selden é o último fazendeiro tradicional num raio de 50 quilômetros. Todos os seus ex-vizinhos venderam as propriedades ou simplesmente as deixaram abandonadas. O valor da terra desabou. Hoje, com o preço de um ingresso de cinema se compra no Pantanal uma área do tamanho do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

Além do desinteresse das novas gerações pelo trabalho duro no campo, há um segundo motivo para o abandono das fazendas. É uma drástica mudança climática ocorrida nos últimos 25 anos. A região vive um ciclo de cheia prolongado, como nenhum outro observado neste século. Além de inundações e vazantes anuais, o Pantanal sempre teve grandes períodos de cheias e secas mais acentuados. São ciclos que duram entre dez e vinte anos e nos quais as águas inundadas aumentam ou diminuem de acordo com o regime de chuvas e de vazão dos rios. Isso sempre aconteceu. Mas nada que se compare ao atual ciclo de cheia. Ele começou em 1974. Já dura um quarto de século, um recorde desde que as medições hidrológicas começaram a ser feitas na região. Essa peculiaridade climática está sendo agravada por uma mudança ambiental. Os garimpos, o cultivo de lavouras de soja e as novas pastagens nas áreas de planalto, vizinhas à planície pantaneira, estão assoreando os rios e aumentando o ritmo das cheias. Isso já pode ser observado até em fotos de satélite. É hoje a ameaça mais palpável à ecologia do Pantanal (veja reportagem).

Curiosamente, todas essas mudanças têm contribuído para o crescimento do turismo no Pantanal. O clima inóspito, a natureza agreste, as imensidões inundadas, o isolamento foi isso que garantiu a preservação do Pantanal até hoje. Nenhuma outra região brasileira, nem mesmo a Amazônia, continua tão intocada quanto a planície pantaneira. A crise da pecuária, por sua vez, está obrigando os fazendeiros a procurar novas alternativas de sobrevivência. Muitos deles estão transformando suas propriedades em pousadas. Em geral, a própria sede da fazenda tem seus quartos adaptados para receber os turistas com toda a simplicidade da vida rural. São lugares rústicos, sem grande conforto, mas onde se pode contemplar a natureza em todo o seu esplendor e na companhia de gente que conhece bem a região.

Hoje existem acomodações para todos os gostos e orçamentos no Pantanal. Nas mais caras, caso do Refúgio Ecológico Caiman, pagam-se 1.150 reais por um pacote de quatro dias com passagem de avião a partir de São Paulo. Nas mais simples, mantidas pelos fazendeiros, a diária custa entre 40 e 80 reais. "A cada duas diárias eu tiro o preço de um bezerro", diz Nênio Marques de Campos, dono do Hotel Fazenda Santa Tereza, às margens do Rio Claro, em Mato Grosso. Nênio, que adaptou recentemente sua propriedade para receber turistas, já aceitou 400 reservas para esta temporada. "Por enquanto, não consegui lucro algum", diz ele. "Mas também não tive de vender a fazenda."

Ana Araújo
Tuiuiú, a ave símbolo da região: porte gigantesco
Ariranha devora um peixe: até 2 metros de comprimento

A fauna silvestre é a atração que mais fascina os turistas. Mas existem muitas outras. A vegetação diversificada é uma delas. O Pantanal ocupa uma posição geográfica privilegiada no mapa, bem no centro da América do Sul. É rodeado a oeste pelo Chaco paraguaio e boliviano, ao norte pela Floresta Amazônica e ao sul e a leste pelo cerrado. Essa particularidade faz com que a natureza ali seja uma combinação de todos esses sistemas, com pinceladas da Mata Atlântica e até da caatinga nordestina. Mandacarus e juazeiros, plantas típicas do Nordeste, podem ser encontrados no país encharcado que é o Pantanal. Da mesma forma como lá existem vitórias-régias, buritis e figueiras todas espécies características de outras regiões. "Dos grandes mamíferos até seres microscópicos, quase toda a fauna brasileira está representada no Pantanal", diz a bióloga Nicia Wendel de Magalhães.

A natureza deslumbrante proporcionada pela abundância de água cria um cenário em que o ecoturismo é o futuro mais promissor para o Pantanal. Por enquanto, a maioria dos visitantes ainda vem de fora do Brasil. "O ecoturismo é uma atividade muito profissional lá fora", conta Marherval Cortes Sigaud, um ex-industrial do Rio de Janeiro que há vinte anos largou tudo para abrir uma pousada às margens do Rio Cuiabá, no município de Barão de Melgaço, onde cobra 100 dólares a diária. Marherval recebe cerca de 500 turistas por ano, dos quais 95% são estrangeiros. "Eles pagam tudo adiantado e adoram isso aqui", diz. Em dois anos e meio de funcionamento, o Hotel Recanto Barra Mansa, situado às margens do Rio Negro, uma das regiões mais bonitas do Pantanal, recebeu turistas de trinta países diferentes. Atender toda essa gente exige uma operação logística complicada. Na época da cheia, tudo o que não é perecível é estocado: botijões de gás, galões de gasolina, quilos e quilos de sal, arroz e feijão. O que faltar, quando as águas subirem, terá de ser transportado de avião.

 

Campeão de Hollywood

O escritor John Grisham é um campeão de bilheteria em Hollywood. Entre suas obras que se tornaram filmes de sucesso estão O Dossiê Pelicano e A Firma. Grisham é também um apaixonado pelo Pantanal. A região serviu de cenário para seu último livro, The Testament (O Testamento). Lançado em fevereiro nos Estados Unidos, com tiragem inicial de 3 milhões de exemplares, deve chegar ao Brasil em novembro, pela Editora Rocco. "O Pantanal brasileiro é uma terra de grande beleza natural e um lugar fascinante para visitar", escreve Grisham no livro. O escritor, que é missionário protestante, já fez duas viagens à região. Na última, em 1998, foi guiado pelo americano Carl King, pastor da Igreja Batista em Campo Grande. Leia a seguir um trecho de O Testamento com uma descrição do Pantanal:

"A 1200 metros de altura, a majestosa vista do Pantanal surgiu repentinamente depois que eles passaram por uma nuvem densa e enorme. Para leste e para norte, uma dúzia de pequenos rios se entrecortavam em círculos indo para lugar nenhum, ligando cada brejo a milhares de outros. Os rios estavam cheios e em vários pontos corriam juntos. A água tinha tonalidades diferentes. As planícies alagadas eram azul-escuras, quase pretas em pontos onde a vegetação estava mais densa. As lagoas mais profundas eram verdes. Os pequenos afluentes carregavam uma lama vermelha. O grandioso Rio Paraguai estava cheio e marrom como leite achocolatado. No horizonte, tão longe quanto a vista podia alcançar, toda a água era azul e toda a terra verde".

A reforma agrária da cama

Reproduções: Frederic Jean
Joaquim Augusto, o patriarca: dono de quatro Belo Horizonte


Os Costa Marques são um exemplo de como as famílias pantaneiras foram se reproduzindo e suas fazendas, ficando pequenas e inviáveis economicamente. Joaquim Augusto da Costa Marques, o patriarca da família, foi um dos pioneiros da ocupação do Pantanal na região de Cáceres. Foi também governador do Estado de Mato Grosso no começo do século. Sua propriedade, a Fazenda Larga, era um latifúndio de proporções colossais. Pela descrição dos documentos da época, seus limites eram: ao sul, o Rio Paraguai, a leste e a oeste, duas fazendas vizinhas, e a norte, "até onde não se oferecer resistência". Ou seja, era tão grande que, ao norte, entrava pelo sertão de Mato Grosso até onde o fazendeiro conseguisse ocupar. Teoricamente, poderia ir até o Oiapoque, se não encontrasse nenhuma tribo indígena feroz que lhe barrasse a expansão. Ao todo, Costa Marques conseguiu ocupar 120 000 hectares quase quatro vezes a área do município de Belo Horizonte.

Cinco dos sete filhos de Joaquim: primeira divisão

Joaquim Augusto teve sete filhos. Na divisão da fazenda, cada um ficou com 17 000 hectares tamanho de 100 parques do Ibirapuera, em São Paulo. Na geração seguinte, esses sete Costa Marques tiveram no total trinta filhos, que herdaram terras equivalentes a três vezes a área ocupada pelo Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Na atual geração, a terceira da linhagem Costa Marques no Pantanal, já são mais de 100 herdeiros. Se cada um ficasse com um pedaço da propriedade original, teria direito a uma fazendola de apenas 1 000 hectares menos de três vezes o tamanho do Central Park, em Nova York. Se a família continuasse a crescer nesse ritmo, dentro de mais quatro gerações cada herdeiro teria direito a apenas cinco campos de futebol.


Carlos, com os
filhos: trinta
herdeiros na
segunda geração
Márcia e o
marido: dois
centésimos da
fazenda original

A divisão, evidentemente, não aconteceu nessa proporção porque nem todos os Costa Marques ficaram com suas terras. Muitos venderam sua parte para outros herdeiros, que hoje acumulam áreas maiores do que teriam direito por herança. É o caso de Carlos Costa Marques, filho do patriarca, que comprou parte das terras dos irmãos. Um pedaço dessa área pertence hoje a sua filha, Márcia Costa Marques, e ao marido dela, Pedro. É uma fazenda moderna, de 2 500 hectares (pouco mais de dois centésimos do latifúndio original), situada na borda do Pantanal. "A pecuária garante a nossa sobrevivência", diz Márcia. "Mas nem se compara à época de ouro das fazendas pantaneiras."

 

 




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